Quarenta e sete anos atrás

No dia 17 de dezembro de 1960, sentei legalmente
no banco do motorista, uma experiência e tanto

por Bob Sharp

Obtenção da minha carteira de motorista. Essa é uma história que merece ser compartilhada com o leitor porque, antes de mais nada, tem tudo a ver, até com o nome da coluna. Tirar carteira é o sonho de muitos e muitas jovens, independente de geração ou de país. É um símbolo de liberdade como poucos.

Naquele tempo não era obrigatório fazer curso de direção para prestar exame. Pressupunha-se, e era verdadeiro e aceito, que cada um podia aprender a dirigir da maneira que quisesse — o que para muitos significava tomar aulas do pai, da mãe, de um parente ou de um amigo. Meu aprendizado foi com um tio que está hoje com 83 anos. O mesmo sucedeu com meu irmão.

Em geral, meu tio e minha tia iam jantar lá em casa e depois saíamos para a "aula", os dois irmãos no Citroën 11 ano 1947 dele. Às vezes meu pai ia junto com minha mãe. O "curso" começou na virada de 1952/1953, portanto eu recém havia completado 10 anos. Meu irmão é dois anos mais velho e por isso não precisava de almofada no banco, equipamento que eu não podia nem pensar em prescindir. Assim mesmo, mal dava para eu olhar por cima do grande volante do Citroën.

Uma coisa notável nesse tio era sua enorme paciência para ensinar e bem pouca para os erros. Isso, tenho certeza, foi fundamental para minha formação de motorista, pois cedo tive noção de disciplina ao dirigir e de que aquilo tudo era uma coisa muito séria. Nada de brincadeiras. Anos mais tarde, ao aprender a pilotar avião, tive um instrutor com esse mesmo perfil. Hábil, paciente, porém muito exigente. Posso dizer que tive sorte nos dois casos pela qualidade e pelo rigor da instrução.

A adolescência foi passando e, quando eu tinha 16 anos, meu irmão tirou carteira. Como somos parecidos, cansei de usar a carteira dele para o caso de ser parado por um guarda. Só aconteceu uma vez de eu ter de mostrar os documentos e a carteira do mano cumpriu seu papel com louvor. O guarda nem desconfiou.

No dia seguinte ao do aniversário de 18 anos dei entrada no processo de habilitação. Levou uns 20 dias para eu ser chamado para o exame escrito. Caíam na prova sinalização e regras de circulação e não tive dificuldade para responder tudo corretamente. Como eu já dirigia e tinha muito interesse no assunto, havia decorado as regras e placas. Foi então marcado o exame prático.

Data e hora (8h da manhã) marcados, lá estava eu no local do exame, que era perto do Estádio Mário Filho, mais conhecido por Maracanã. Evidentemente eu não poderia aparecer lá dirigindo nosso DKW-Vemag e fui com um amigo que morava na mesma rua. O carro mais usado pelas auto-escolas era o Jeep Willys e havia lá grande número deles, sendo o DKW praticamente exceção.

Ao me apresentar para o exame, surpresa: era necessário estar de gravata. Não acreditei. Sem gravata, nada feito, disse-me quem parecia ser o chefe do pedaço. Mas logo, dentro do estilo bem carioca, apontou com a cabeça para um sujeito que estava por ali e logo vi: ele alugava gravatas. Tudo muito bem armado. Precisei alugar uma gravata velha e sebosa. Coisa mais ridícula!

Chegou a hora de entrar no carro e, nova surpresa: era proibido, no exame, usar o espelho retrovisor, inclusive o interno. E a terceira surpresa (lembre-se o leitor que não tive nenhuma aula em auto-escola), era proibido usar a seta. Sinais, só de braço. Lembro-me que me senti muito mal diante de tudo aquilo: mal engravatado (não era camisa para gravata), sem usar espelho e tendo de fazer os vários sinais com o braço. Antes de arrancar com o carro, olhar para trás. Não era o dirigir que eu conhecia. E fiquei mesmo preocupado em ser reprovado, apesar de já dirigir normalmente fazia tempo.

Pontos perdidos
O exame até que foi bem fácil — mais primário, impossível. Alguém havia me dado uma dica: dirigir o mais duro e tenso possível, para não deixar o examinador notar que eu já dirigia há muito tempo, que já dominava inteiramente a técnica. Isso gerava uma predisposição a reprovar o candidato, por pura implicância, dizia-se.

Fui lá eu então fazendo movimentos de robô — aliás, chamados de autômatos naqueles anos em que computadores eram conhecidos por "cérebros eletrônicos". O gesto de eu olhar para trás, duro, virando o tronco, como se minha juntas estivessem travadas, foi digno de ser filmado.

O percurso foi nas imediações do estádio de futebol e nele havia um pequeno "S", com total visão nos dois sentidos. Acostumado a andar rápido há muitos anos, automaticamente cortei um pouco o "S" (como sempre faço até hoje). Ao terminar o exame, o examinador me aprovou, mas disse que eu havia passado raspando por "ter perdido o controle do veículo na curva". Na hora não atinei como poderia ter perdido o controle do carro andando tão devagar (como são feitos os exames até hoje) e, ao lhe perguntar o que havia acontecido, a explicação: eu havia perdido o controle do carro no tal "S".

Foi naquele 17 de dezembro de 1960 que tive a primeira noção de como nosso sistema de exame é falho. Só mais tarde essa mesma avaliação chegaria ao tema auto-escola.

Imediatamente, ainda no carro, o examinador me deu o "papagaio", uma papeleta que me permitia sair dali dirigindo (hoje não é mais assim; a licença, que é provisória, só sai depois de alguns dias e enquanto isso a pessoa não pode dirigir). E devolvi a gravata à "locadora". O pagamento havia sido antecipado.

Aquele dia foi o ápice de um longo período de espera e apreensão. Agora eu podia dirigir onde quisesse, sem receio de ser flagrado por um guarda. A sensação de prazer misturada com felicidade é inesquecível. Era o início da segunda fase como motorista, a de aprender mais e acumular experiência. Uma fase que não tem dia para acabar. Iniciada 47 anos atrás.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 26/1/08

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