Manual ou automático?

O Brasil sempre foi um país de carros
de câmbio manual, mas a situação mudou

por Bob Sharp

Há cerca de três anos e meio escrevi uma coluna chamada "Inflação de automáticos", na qual falei da mudança que vem ocorrendo nos hábitos dos brasileiros quanto ao tipo de câmbio preferido. O que era rejeição não faz muito tempo, hoje é aceitação e, em muitos casos, exigência. Essa mudança de hábito está muito bem contada no editorial "Sem preconceitos", do editor Fabrício Samahá, que está em rede.

Desde os primeiros anos ao volante vivenciei câmbio automático, pois meu pai possuía um Oldsmobile 88 1950 com esse tipo de caixa. Era um carro de "dois pedais", grande novidade na época. A caixa era a Hydra-Matic de quatro marchas, fabricada pela própria General Motors. Como era coisa nova, era muito atraente e encantava a todos o fato de se poder dirigir o dia inteiro sem tocar na alavanca seletora, que era de coluna, depois que o carro fosse posto em movimento. Seu controle era rudimentar comparado aos eletrônicos de hoje, pois se baseava em depressão e atuação hidráulica.

Em total contraste ao luxuoso e potente Oldsmobile, chegou à nossa casa em 1953 um Volkswagen zero-quilômetro que nem primeira sincronizada tinha. O carro destinava-se à minha mãe, mas quem passou a mão nele foi meu pai. O pequeno besouro encantou-o (e a mim também) e um dos aspectos que mais o atraíram no então estranho carro foi a troca de marchas. Ao contrário de todos os carros de caixa manual com alavanca no assoalho que se conhecia, sempre longa e saindo lá da frente, a alavanca do Fusca saía do túnel, era praticamente reta e vertical e ficava perto da mão direita. Seus movimentos eram precisos nos dois planos e o toque de engate era seco e leve. Dirigir o Volkswagen, mesmo que seu desempenho deixasse a desejar — o motor de 1.131 cm³ desenvolvia apenas 25 cv —, era diversão pura.

Fora qualidades como robustez, eficiência e facilidade de manutenção, devido à extensa rede autorizada que não demorou a ser constituída, o VW sempre foi um carro que encantou. Até nos Estados Unidos, onde da década de 1950 em diante as caixas automáticas foram surgindo em volume cada vez maior. Foi, portanto, nesse ambiente de caixa automática e caixa manual que me "formei" como motorista.

Com 16 anos (em 1958) já andava solto pelo Rio de Janeiro dirigindo os dois carros da família. Sempre preferi o Fusca: ele me "vestia" melhor que o Oldsmobile e passei a apreciar mais e mais trocar de marchas eu mesmo, não o câmbio. Como eu sempre tive forte gosto pela mecânica do automóvel, cedo entendi a relação motor-câmbio-veículo, o que me levou a aperfeiçoar a técnica de dirigir com caixa manual. Eu entendia a caixa, "via-a" funcionar enquanto dirigia. Nem a primeira não-sincronizada constituía empecilho, pois logo conheci a técnica da dupla-embreagem quando comecei a aprender a dirigir o Citroën 11 de um tio. Estava em mim usar o câmbio manualmente, ao mesmo tempo que me agradava saber que a ligação do motor com as rodas motrizes era apenas mecânica.

Suavidade
Os anos foram se passando, e o dirigir, se aprimorando. Intuitivamente, desenvolvi a arte de tornar as interrupções de potência nas trocas de marchas bem suaves. O mesmo nas reduções, sempre procurando ajustar a rotação do motor à velocidade do carro na marcha inferior a ser engatada, por meio da aceleração interina. Cada vez mais fui sendo atraído pela caixa manual, embora na década de 1980 começasse a surgir em maior número a caixa automática.

Evidentemente, nunca tive dificuldade em dirigir carro com caixa automática e também nunca lamentei o fato de ela não ser tão ágil como as manuais, a ponto de impedir um dirigir mais rápido, ou que fosse menos prazeroso. Durante muito tempo, até que surgissem as automáticas de controle eletrônico com troca manual e em seqüência, eu ouvia críticas de que "não era possível reduzir antes de uma curva".

Realmente, entre mover a alavanca seletora para uma marcha inferior e haver resposta de freio-motor decorria um certo tempo, só que isso para mim nunca teve a menor importância, dado que não reduzo marcha com o intuito de ajudar os freios. Felizmente aprendi cedo também que o que desacelera ou pára um carro é o freio, não o motor agindo como tal. Esse recurso só se deve usar ao descer uma serra ou para manter velocidade adequada numa rampa bem íngreme.

Hoje as caixas automáticas tradicionais — aquelas com trens de engrenagens epicicloidais e conversor de torque — funcionam admiravelmente bem até para quem aprecia reduzir "para entrar na curva". As trocas por meio de toques para trás e para frente, seja na alavanca seletora ou pelas alavancas-pá de muitos carros de hoje, tornam as trocas de marchas bem divertidas, levando o "piloto" se sentir num Fórmula-1 ao mudar de marcha "pelo volante".

Com os câmbios manuais automatizados que invadiram o século 21, essa interação homem-câmbio aperfeiçoou-se ainda mais, chegado ao supra-sumo que são as novas caixas desse tipo com duas embreagens. O automatismo, qualquer que seja o tipo de caixa automática — até mesmo as CVTs do Honda Fit e do Nissan Sentra, passando pela excepcional Audi Multitronic de variação contínua com seis marchas virtuais —, nunca foi tão bom e eficiente.

Escolha
Com todo esse mundo de facilidades e de eficiência encontrado nas caixas "não-manuais" atuais, vem a pergunta-título desta coluna: manual ou automático? É claro que é muito mais fácil dirigir com caixa automática, sobretudo ao se aprender a dirigir. O pavor de arrancar numa subida não existe. Ou o de o motor morrer quando o sinal abre e o carro de trás buzina impaciente. Em movimento, basta abrir o acelerador abruptamente que o câmbio entende que o motorista quer mais potência e efetua redução automática de marcha. E, no tenebroso anda-e-pára do trânsito, não precisar ficar usando a perna esquerda para acionar a embreagem e ficar engrenando e desengrenando o câmbio é uma bênção para muitos.

Diante de tantos prós das caixas automáticas ou automatizadas, como pode alguém ainda preferir a caixa manual? Há algumas razões para isso.

Primeiro, preço: as caixas manuais ainda custam menos (e sempre custarão) do que qualquer outro tipo. E sempre serão mais leves também. Segundo, as embreagens estão cada vez mais macias, fruto do próprio desenvolvimento, da evolução. Depois há a questão da manutenção da caixa manual, que praticamente não existe mais — nem mesmo troca de óleo —, fora que caixas manuais não dão defeito mais faz anos ou décadas. A ligação entre alavanca e cada marcha é puramente mecânica.

Finalmente, e que reputo como mais importante, há o domínio total do motorista sobre a caixa no que diz respeito a troca de marchas: o motor é usado exatamente como se quer, sem que o câmbio interfira na decisão. E numa emergência o motor pode ser posto em funcionamento empurrando o carro, o que é difícil ou mesmo impossível com caixas automáticas.

Ainda me lembro bem da expressão de espanto da funcionária da General Motors encarregada da frota quando, em 1998, como gerente, requisitei um Omega CD 4,1 manual. Acho que, à parte os carros da engenharia, aquele foi o único Omega seis-cilindros não automático de toda a frota. Assim, respondendo à resposta à pergunta-título, sempre que possível vou optar pela caixa manual. É questão apenas de preferência, nada tendo a ver com preconceito contra as caixas automáticas ou automatizadas.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 19/1/08

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