E aconteceu o que ninguém queria

Tivemos um período de festas dos mais violentos
nas estradas, tudo de que não precisamos

por Bob Sharp

Reportagens televisivas foram vistas Brasil afora, minientrevistas com patrulheiros rodoviários dando conta que estavam preparados para os dias de grande movimento nas estradas, com a chegada do Natal e do Ano Novo. Mas, em todas elas, o que mais se ouvia era que foram colocados todos os radares em operação e não sei quantos bafômetros, como se fossem panacéias universais para todos os males da estrada.

Não adiantou, obviamente. Só nas rodovias federais o número de mortos no período de Natal praticamente igualou o acidente como o Airbus da TAM, com 197 vidas tolhidas. Só que desta vez a bordo de veículos.

Em todas as estradas houve mais acidentes e fatalidades. Alguma coisa está mesmo errada e muito no trânsito brasileiro, e não me parecia haver alguém nas três esferas de administração pública que estivesse muito preocupado com isso — até que o ministro da Justiça Tarso Genro saísse com a "brilhante" solução, de multa de valor igual à do carro na reincidência de infração gravíssima. A tática do 8 ou 8000. Juristas já se manifestaram contra, com razão.

O que é de causar espécie é que nem no inverno as pistas das estradas ficam lisas como sabão, devido à neve e ao gelo, ao contrário do que se verifica em muitos países. Mesmo assim acontece todo tipo de colisão, com as frontais nas retas liderando a classificação. Ônibus bater de frente contra carretas já se tornou lugar-comum. Caminhão tombar nas curvas é cada vez mais freqüente.

Se formos fazer uma análise fria da coisa toda, o problema está na capacidade de dirigir, pois não é admissível que haja tantos casos como esses. E por que esta visível falta de capacidade? A formação deficiente de motoristas e falta de reciclagem, ver se o indivíduo não "desaprendeu", se sua condição física e mental decaiu, posso seguramente apontar como principais causas.

Do outro lado, o policiamento rodoviário parece mesmo pertencer a um passado distante. Antes da crise (brasileira) do fornecimento de combustíveis, em 1976, era comum verem-se carros da polícia rodoviária circulando para baixo e para cima, patrulhando de fato. Com a crise, soube-se na época, as forças policiais tiveram bastante reduzidas suas cotas de combustível e o patrulhamento estancou. Hoje, com o Brasil nadando em gasolina e álcool, a velha e eficiente sistemática ficou esquecida — pelo jeito, para sempre.

Há alguns dias troquei e-mails com um policial rodoviário federal, por uma observação que fiz numa outra coluna sobre um carro trafegar pelo acostamento nas barbas dos policiais em seu posto. Vi um carro de polícia sair atrás e anotar a placa do carro em vez de abordar o irresponsável. Desse policial veio a explicação de estarrecer qualquer um: a ordem do comando é não abordar mais devido ao risco para os patrulheiros. Isso quer dizer, simples e tristemente, que o crime e a ilegalidade estão vencendo a guerra. Mais ou menos como no Iraque hoje.

Assim, "policiar" uma rodovia hoje significa: 1) instalar radares/detectores de velocidade e 2) efetuar bloqueios para teste de álcool no sangue. Esse é o entendimento atual de segurança nas estradas. Dá pouco trabalho, está mais do que evidente, e não há risco para os patrulheiros. Não existe mais a visão da estrada, a análise do comportamento das pessoas ao volante, se cometem erros, se dirigem abaixo do padrão mínimo necessário.

Aviso-gozação
Pouco antes do Natal, a concessionária NovaDutra, que administra a BR-116 Rodovia Presidente Dutra, ligação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, emitiu uma nota à imprensa que dizia: "NovaDutra vai instalar sistema eletrônico de controle de velocidade na Via Dutra". Prosseguia a nota: "Objetivo é controlar a velocidade média da rodovia e, com isso, reduzir a quantidade de acidentes na rodovia".

Fiquei indignado com a notícia e na mesma hora lhes escrevi dizendo: "Muito errado o que a NovaDutra está fazendo, chega a ter ares de gozação em cima dos usuários. Concessionária de rodovia é apenas concessionária, não polícia." Não houve resposta, é claro.

Por aí se vê como as cabeças andam estranhas ultimamente — cabeças de pudim? —, ao ponto de uma concessionária instalar sistema de controle de velocidade. Uma coisa é certa: boazinha, fazer um favor dessa magnitude à Polícia Rodoviária Federal, é que ela não é. Disse o comunicado que "caberá à NovaDutra instalar e operar o sistema, sem qualquer interferência nos dados captados. As informações dos radares serão operadas exclusivamente pelo DNIT [Departamento Nacional de Infra-estrutura e Transportes, a quem a Polícia Rodoviária Federal é afeta], que ficará encarregado de emitir os autos de infração". Vamos fazer de conta que NovaDutra não agirá e nem verá a cor do dinheiro...

Aliás, o comunicado bem poderia ter falado em "emitir eventuais autos de infração". Como foi escrito, é líquido e certo que haverá autuações a rodo, pois a Dutra é uma daquelas rodovias de velocidade hipócrita que infestam o país.

Eu não gostaria de voltar a esse assunto agora em janeiro, mas o dever falou mais alto. Ninguém quer ver tantos brasileiros perdendo a vida sem nenhuma glória, sem contar o elevado número de feridos, cerca de dez vezes maior que os óbitos. Porque não existe nada mais idiota do que perder a vida ou ficar inválido num acidente de trânsito.
 



Em relação à coluna da semana passada, o leitor Bruno Maia H. Lana, de Belo Horizonte (MG), gentilmente enviou para a coluna páginas digitalizadas dos manuais de capacetes importados que possui, nos quais consta a recomendação de não aplicar adesivos neles. O motivo é alteração da estrutura do capacete e assim alterar suas características de proteção. Valeu, Bruno!

No caso da linha com cerol, comentado na mesma coluna, o leitor Fábio Teixeira Rezende, de São Paulo, informou existir lei no Estado de São Paulo proibindo sua venda e uso, a de nº 12.192/06. Deveria ser aplicada, pelo perigo que existe no cerol em levar à morte motociclistas e até ciclistas. O muito obrigado da coluna pela informação.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 12/1/08

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