Serviço desnecessário

Com tanto a resolver em questão de trânsito, o Contran
se volta para... detalhes de capacetes e motofrete

por Bob Sharp

Estamos de volta para mais um ano com os leitores, após um breve e necessário descanso para "reinicializar o computador". Nesse pequeno período de festas muita coisa de ruim no trânsito aconteceu, o contrário do que tanto queríamos. Os noticiários já falaram bastante a respeito e não é preciso repetir. Mas o ano sem-CPMF mal começou e duas novidades em termos de regulamentação ocuparam bastante espaço na mídia.

É mesmo impressionante o que se faz de lei no Brasil. Os noticiários falaram à exaustão nas mudanças para os capacetes dos motociclistas assim que o ano começou. Para início de conversa, deveria usar capacete quem quer. No trânsito é péssimo perder parte da percepção auditiva com aquele troço na cabeça. Já me posicionei a respeito disso nesta coluna por achar que está havendo muito patrulhamento por essas bandas.

Agora, obrigar que o capacete tenha selo de certificação do Inmetro e adesivos reflexivos, mais viseira ou, em sua falta, que o motociclista use óculos de proteção para os olhos — um bom Ray-Ban não serve — é demais. Pior, essa enxurrada de leis, no caso as resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), não vão resolver o problema de excesso de mortes no trânsito. O buraco é bem mais embaixo, como se diz popularmente.

No caso de motos, por exemplo, ainda se morre com uma jugular cortada por linha de pipa com cerol. Não é obrigatório, mas muitos que dirigem moto aplicam uma haste no guidão, como se fosse uma antena de rádio, que tem a finalidade de evitar o corte no pescoço pela linha revestida de vidro triturado, que pode atingir facilmente essas vitais artérias (levam o sangue para a cabeça). Enquanto isso, reportagem televisiva anteontem mostrava policiais agindo na Baixada Santista contra o uso de linhas com cerol e a revelação, pelo menos para mim: não são proibidas.

Já perdi um amigo dessa maneira. Era casado fazia pouco tempo e pai de um filho de três meses. Quando digo que o foco das autoridades de trânsito não é voltado para assuntos sérios, tenho certeza de que muitos duvidam de mim. Até hoje ninguém ter criado um dispositivo legal que proíba o uso de linha com cerol é sinal claro do mais absoluto descaso. "Que manda andar de moto?", devem pensar as mentes brilhantes de Brasília.

Pois são essas mesmas mentes que vêm com a novidade do capacete certificado e de adesivos reflexivos. A sinalização traseira da motocicleta, produzida dentro das normas de Sinalização e Iluminação editadas pelo próprio Contran, de repente não tem o menor valor. Deve o motociclista andar com aquele coco brilhante à noite, pois só assim será visto pelos motoristas de automóveis — certamente é o que pensam as "capacidades" lá de Brasília. Como se moto fosse veículo lento e houvesse o perigo de ser abalroada por trás por um veículo de quatro rodas.

Ou seja, deram à motocicleta tratamento idêntico ao de caminhões, em que faixas reflexíveis são justificáveis por geralmente trafegarem em velocidade abaixo da corrente de tráfego e, dessa maneira, constituírem obstáculo. Pior, quem tem o péssimo hábito de trafegar à noite só com faróis de neblina ligados nunca verá o capacete, dadas as características dos fachos desses faróis, o corte de luz bem baixo para não provocar reflexos de luz nas gotículas da neblina.

Tudo isso, todo esse patrulhamento, leva à idéia que andar de motocicleta é por si só uma atividade de alto risco, quando na verdade é a atitude errada e a falta de habilidade do motociclista que o leva ao acidente. Ao contrário do que ocorre numa corrida de moto, ninguém anda em velocidades tão elevadas e nem faz curvas no limite, apenas trafega do ponto A ao ponto B.

O sistema de formação de motociclistas e o exame prático, alguém já viu como é? Anda-se num espaço menor que uma quadra de basquete e deve-se fazer um "8" entre cones, em velocidade de manobra. Isso conseguido, o candidato está aprovado. Mudar esse sistema? Para quê? Dá um trabalho danado... Até hoje existe muito motociclista que não usa o freio dianteiro, o mais importante deles, com receio de que o veículo venha a capotar de frente. Resultado: se tiver de parar com mais vigor, não consegue. Numa dessas reportagens pela televisão sobre os acidentes no período de festas, viu-se uma moto que bateu na traseira de um carro na Rodovia dos Imigrantes.

Os sistemas de aprendizagem e do exame têm de ser completamente reformulados, até para incutir noções avançadas de segurança. Motociclistas antigos, da minha idade (65) e até menos, se sentem incomodados ao trafegar entre filas com todo cuidado pelos motoboys, que não têm idéia do risco que estão correndo ao passar velozmente entre veículos. Só uma atitude corajosa por parte dos administradores de trânsito porá fim ao trágico quadro de um morto e 25 feridos por dia, só em São Paulo.

Medidas para o motofrete
Neste primeiro de janeiro entrou também em vigor a Resolução 219, de 30/1/07, que impõe uma série de medidas para o transporte de carga em motocicletas. É inacreditável, mas as novidades só valem para os municípios onde tal transporte foi regulamentado. Isso quer dizer que uma moto de carga de município vizinho, sem essa regulamentação, pode operar no outro sem as mudanças. Só no Brasil mesmo... Outra é que as placas terão de ser de cor de fundo vermelho com caracteres brancos, como caminhões e ônibus, como se isso fosse fazer algum tipo de diferença.

O mais incrível é que o motociclista dessa moto terá de usar um colete com superfícies reflexivas. Isso mesmo, um colete, peça de vestuário que se justifica em caso de haver necessidade de ser visto à noite, como um policial de trânsito em trabalho noturno. Nessa o Contran viajou, e alto. Se o leitor tiver interesse, pode ver o elenco de exigências no site do Denatran. Garanto que vai ficar tão impressionado quanto eu.

Enquanto isso, aquilo que realmente interessa — a condução segura e respeitadora do Código de Trânsito, que não existe faz tempo — continua como antes. Como tenho dito, fiscalização hoje só em bloqueios ou por radares. Aquela efetiva, ombro a ombro no trânsito, pertence ao passado. Dava muito trabalho também.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 5/1/08

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