"Cabeça de pudim"

Muitas vezes tenho a sensação de que as pessoas
ao volante não estão raciocinando direito

por Bob Sharp

O inusitado título, explico. Tive um colega na Vemag, isso em 1966/1967, chamado Arno (omito o sobrenome porque não lhe pedi autorização para publicá-lo), que costumava dizer que fulano tinha cabeça de pudim quando fazia qualquer coisa muito errada. Sempre achei esse termo muito divertido e até hoje, quando o encontro, relembro-o da citação. E, claro, me lembro de "cabeça de pudim" sempre que vejo outros motoristas aprontando.

Alguma coisa acontece com os motoristas neste mês de festas. Não sei se é estafa pura e simples ou excesso de preocupação (sim, comprar presente sempre preocupa, do que escolher a quanto gastar). O fato é que tenho notado, como todos os anos, uma incidência maior de gente aprontando ao volante. De apronto leve a pesado. Mas vamos falar só dos leves, senão a coluna vira livro.

É público e notório que as ruas ficam mais cheias nessa época, inclusive pelo maior tráfego de caminhões de todos os tamanhos para as entregas, seja para abastecer o varejo, seja para entregar as compras aos consumidores. Se as ruas estão mais cheias, deve ser preocupação de todos contribuir para a maior fluidez possível, de maneira a atenuar a situação. Uma das formas de assegurar fluidez é manter velocidade razoável, otimizando a capacidade da via. Mas não é o que acontece.

Não sou desses que praticam o Grande Prêmio do Sinal Verde, arrancando desvairado quando este abre, mas também procuro respeitar que está atrás de mim. Pois bem, ao arrancar normalmente fico impressionado como os outros carros ficam para trás. Isso quer dizer que o pessoal arranca mesmo d-e-v-a-g-a-r-i-n-h-o. É fácil adivinhar o que acontece numa metrópole quando boa parte dos motoristas adota essa postura quando o sinal muda para verde: atravanca tudo.

Sempre ilustro essa situação com o exemplo de uma prova de Fórmula 1. Se os pilotos da primeira fila para trás arrancassem como se arranca em nosso tráfego, os ponteiros "encheriam" a traseira dos últimos a largar ainda parados. Claro, é uma caricatura de um quadro, mas quantas vezes somos o 15° ou 20° numa fila, vemos o sinal abrir lá na frente e nada acontece à nossa frente? Em seguida vemos o sinal fechar e só depois é que os carros à frente começam a andar.

Já falei nesta coluna há algum tempo: um primo foi fazer exame de motorista nos Estados Unidos em carro de câmbio manual. Quando parou num sinal, ele pôs o câmbio em ponto-morto, como geralmente se faz para não ficar pisando no pedal de embreagem, visando poupá-la (a placa de pressão e o rolamento de seu acionamento). Para quê.... Tomou um bronca daquelas do examinador, pois meu primo deveria ter aguardado a mudança de sinal com o carro engatado em primeira. O motivo, o leitor já deve ter concluído: para não haver a pequena demora quando for pôr o carro em movimento.

É claro que para os americanos, cujos carros são praticamente todos (mais de 90%) dotados de câmbio automático, essa recomendação não é necessária, pois mantêm-se o carro imóvel com o câmbio em Drive e, ponto final. Sinal abriu, acelera-se e pronto.

Retenção desnecessária
Depois vem a questão dos carros em movimento. A rua é de 50 km/h e o motorista à frente segue a 40 km/h e até menos. Não existe outro carro à sua frente por pelo menos 50 metros. E lá vai ele ou ela segurando todo o tráfego. Será que essa pessoa é incapaz de sentir que está atrapalhando? É, como todo "cabeça de pudim". Também é fácil antecipar o que este evento, multiplicado por 100 mil ou mais, ocasiona num sistema de trânsito.

Os leitores que já tiveram a oportunidade de dirigir num país avançado, qualquer que seja, certamente puderam observar que mesmo em condições de tráfego denso não se tem a sensação de se estar preso, lento demais, pois todos os carros à frente marcham na velocidade que deve ser. Não se é incitado a fazer ultrapassagem porque o jeito que a coluna anda é algo perfeitamente natural, não incomoda e nem se perde tempo. Por que não pode ser assim aqui?

Dia desses vi numa via de trânsito rápido, onde o limite é 80 km/h, um motorista num carro ainda bem novo andando a cerca de 50 km/h. Ele não estava nem aí para o volume de carros atrás, muitos querendo mudar de faixa, enfim, uma confusão só — e completamente evitável. O carro dele havia se tornado um obstáculo móvel, em prejuízo do sistema.

Quando o limite nacional de velocidade nos Estados Unidos baixou para 88 km/h (55 milhas por hora) como medida de poupar combustível, devido ao embargo árabe de petróleo durante a guerra Irã-Iraque de 1979, era freqüente um motorista obediente ficar no limite. Quando isso acontecia, era a história do obstáculo móvel. Pois bem, um carro da polícia rodoviária emparelhava e o patrulheiro, gesticulando como quem diz "Vai!", mandava o motorista acelerar. Esse é um exemplo perfeito da ação policial correta, que visa a segurança da coletividade.

Portanto, o "cabeça de pudim" é um flagelo mundial e, quando essa pessoa se coloca entre o banco e o volante, só se pode esperar problemas. Essa é uma boa questão para ser abordada nos centros de formação de condutores, não parece assim ao leitor?

Acho que seria uma boa idéia para 2008.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 7/12/07

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