Sem parar, só que quase

O pagamento eletrônico de pedágio por débito posterior
veio para ficar, mas há campo para melhora do serviço

por Bob Sharp

No Brasil eles são conhecidos por Sem Parar ou Via Fácil, este uma tradução de E-ZPass (uma homofonia de easy pass), um dos sistemas usados nos Estados Unidos. Quem tem o contrato do serviço sabe como é útil e prático, cujo custo inicial de cerca de R$ 40 (para um contrato de cinco anos) e mensalidade de R$ 9 mais do que compensam. Sobre o custo mensal paga-se apenas o que se usar.

O Sem Parar é bem simples: um transponder aplicado na parte superior do pára-brisa pelo lado interno, nas imediações do espelho, recebe sinal de rádio de uma antena localizada um pouco antes da cabine — que não tem ninguém dentro — e responde para outra, próxima. A resposta identificará o carro como fazendo parte do sistema e o controle do serviço lançará um débito na conta do cliente. A cada mês a conta é fechada e é emitido o débito, que poderá ser quitado em conta-corrente bancária ou em cartão de crédito.

Nunca mais será preciso enfrentar filas longas nas praças de pedágio, sobretudo em dias de grande movimento nas estradas. É só se aproximar em velocidade baixa, que no Brasil é 40 km/h, e a cancela se abrirá, ao mesmo tempo em que um (desnecessário) sinal verde se acende, informando que a transação foi aceita e concluída. Repito: não há nada mais conveniente e todos deveriam aderir ao sistema (causaria desemprego entre os caixas, o que é outra questão).

Mas será que está tudo muito bem, está tudo muito bom? Não está. Há alguns problemas que quero compartilhar com o leitor. Dois me escreveram contando experiências que não deveriam acontecer nunca num sistema moderno como o Sem Parar.

Não vale em todo lugar
Um grande amigo, Ronaldo Berg, de São Paulo, viajou recentemente a Macaé, no estado do Rio de Janeiro, a trabalho. Na volta resolveu tomar outro caminho, pelas serras fluminenses, via Nova Friburgo, Teresópolis, Itaipava e Petrópolis, para aproveitar e apreciar a paisagem e passar pelo Rio para visitar uma velha tia antes de voltar finalmente para casa. Ele tinha o serviço Sem Parar.

Passou por inúmeros pedágios sem nenhum problema — ora Sem Parar, ora Via Fácil, pois os dois fazem parte do mesmo grupo, variando conforme a rodovia e o estado. Mas quando chegou a um pedágio no final da serra de Petrópolis, já no trecho da baixada, a cancela não abriu. Ele teve de parar abruptamente, acender o pisca-alerta e ficar de olho no tráfego atrás, sobretudo o de veículos pesados. Felizmente não houve engavetamento.

A explicação é que a concessionária daquele trecho da estrada não está no sistema de cobrança automática do Sem Parar/Via Fácil, enquanto no mesmo estado diversos outros pedágios estão. Vê-se de tudo em questão de incoerência em nosso trânsito, mas essa realmente é inacreditável. A impressão que dá é que as pessoas não estão nem aí para buscar a eficiência que os meios eletrônicos proporcionam.

O Ronaldo precisou esperar chegar um atendente, dar o dinheiro a ele para pagar o pedágio, esperar ele ir até o caixa e voltar com o troco, pedir para voltar e pegar o recibo — enfim, uma atrapalhação só. Eu mesmo já tive problema idêntico não faz muito tempo, ao pagar o pedágio na Via Amarela, uma via expressa da cidade do Rio de Janeiro.

A maldita cancela
O leitor Fabiano Rodrigues de Lima escreveu relatando que usa o Sem Parar há mais de cinco anos e utiliza habitualmente a ViaOeste entre a capital paulista e Marília. O sistema sempre funcionou à perfeição, até que, após uma troca do transponder por motivo de ter comprado outro carro, a cancela não levantou. Como todos nós nos habituamos com o fato de a cancela invariavelmente levantar, o leitor foi apanhado de surpresa e entrou levemente com a frente do carro sob a cancela, arranhando o capô.

O pior foi ver pelo retrovisor uma carreta se aproximando e não ter certeza se ela pararia a tempo, mas felizmente o motorista o conseguiu. Depois veio a questão da "rapidez" com que os funcionários da concessionária agiram para que o Fabiano tirasse o carro daquela incômoda situação, que é sobretudo de perigo.

No resto da viagem de volta para a capital, a cancela não levantou mais duas vezes. Já em casa e contatando o Sem Parar, disseram-lhe que o transponder seria substituído, mas — e aí vem o absurdo — seria cobrada uma taxa. Só depois de muito argumentar com o ombudsman e supervisores é que a operadora concedeu a troca sem pagamento. Veja-se a que ponto chegamos.

O leitor comentou absurdo que é haver cancela num sistema de leitura eletrônica da passagem, o que lhe foi justificado como necessário para evitar evasão do pedágio, o que as concessionárias temem (o Sem Parar/Via Fácil é apenas agente recebedor). Ele disse que viajou quase dois mil quilômetros pela Europa e não viu nenhum pedágio expresso com cancela, o que tem toda lógica. O que há é uma câmera que registra a passagem de carros sem o transponder, gerando uma autuação que é enviada pelo correio, como já se faz aqui há bastante tempo (a infração por evasão do pedágio é tipificada no art. 209 do Código de Trânsito Brasileiro, infração grave, R$ 127,69 e cinco pontos na carteira).

Cancela e Sem Parar/Via Fácil não combinam nem na lógica de uma criança, mas aqui alguma mente "brilhante" deve ter concluído que dá muito trabalho processar a multa e, como no caso das lombadas, o justo deve pagar pelo pecador.

O problema da cancela não é o de um veículo colidir com ela, mas a retenção — e os riscos de engavetamento — que provoca quando ela não levanta por qualquer motivo, como no caso de defeito do transponder do carro do leitor. A incoerência é justamente a coluna de trânsito parar quando o sistema foi criado para evitar que isso aconteça. Portanto, cancela em faixa de controle eletrônica só pode mesmo ter o adjetivo desse subtítulo: maldita.

Para fechar o caso do leitor Fabiano, foi-lhe dito naquela praça de pedágio que, para ser ressarcido dos danos, ele deveria fazer um boletim de ocorrência e que a responsabilidade era da concessionária e não do Sem Parar...

O Sem Parar precisa logo honrar o nome, seja abrangendo todas as rodovias pedagiadas sob uma conta única, tipo câmara de compensação de cheques, seja eliminando para sempre a maldita cancela.

Há mesmo campo para melhorar o serviço. O rei cliente merece.



A ViaOeste se posicionou ao Best Cars a respeito da coluna anterior. Leia sua manifestação e meu comentário.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 24/11/07

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