Salve-se quem puder

Quando se acredita que as rodovias exemplares
auxiliam o motorista, a verdade é bem outra

por Bob Sharp

Esta é uma história verídica. Aconteceu com um amigo e ex-colega de trabalho na General Motors, Luiz Henrique Alves (trabalhei na GM de 1997 a 2000). É uma acusação contra uma concessionária de rodovia, a ViaOeste, que foi e continua a ser omissa num caso de extrema gravidade. Por isso, a coluna desta semana sai dos temas habituais e parte para uma denúncia.

Por ter sido transferido do Campo de Provas da Cruz Alta, em Indaiatuba (SP), para o Centro Tecnológico, em São Caetano do Sul, Luiz Henrique se viu obrigado a viajar com freqüência entre Sorocaba, no mesmo estado, e aquela cidade da Grande São Paulo, enquanto a mudança da família não se concretizava.

Em 2 de agosto último, Luiz Henrique saíra de Sorocaba em direção a São Paulo dirigindo seu carro. Estava sozinho. Às 5h40 da manhã, ainda na SP 75 "Castelinho", rodovia que liga Sorocaba à rodovia SP 280 Castelo Branco, começou a sentir um mal-estar no estômago seguido de dores no peito e formigamento no braço esquerdo.

A princípio, julgou tratar-se de um mal-estar corriqueiro e resolveu continuar até a praça de pedágio do km 74 da Castelo Branco. Raciocinou que, se o sintoma continuasse, pediria socorro, pois ele sabia que ali a concessionária tem uma unidade de emergência. Um raciocínio lógico e próprio de sua formação, a de engenheiro.

Mas a dor continuou e aumentou muito de intensidade, a ponto de ele quase não conseguir mais agüentar. Ao passar pelo caixa do pedágio, pagou e relatou o fato ao atendente. Este lhe pediu que estacionasse junto à ambulância que havia na área, para ser atendido. Segundo contou Luiz Henrique, o que se seguiu foi uma trapalhada inominável.

Três funcionários, que dormiam no momento, o atenderam, porém mais pareciam comediantes no melhor estilo de Os três patetas do que enfermeiros, práticos de enfermagem ou paramédicos. Um deles pediu-lhe que se deitasse na maca, enquanto outro falava com a central pelo rádio e o terceiro tentava medir a pressão arterial dele, mas não conseguia porque não fechava a válvula do aparelho. Luiz Henrique precisou lhe instruir que o fizesse.

Como na GM os funcionários são treinados para lidar com situações de emergência dessa ordem, ele sabia que estava tendo um infarto e logo deduziu que as pessoas que o atendiam naquela praça de pedágio não tinham a competência necessária. Pediu que o transportassem para o Hospital Unimed de Sorocaba o mais rápido possível, pois naquele momento ele entendeu ser a única coisa a fazer. Para surpresa de Luiz Henrique, disseram-lhe que isso não seria possível, argumentando que seriam necessárias algumas providências de praxe.

Ele pediu uma aspirina, pois aprendera que nesses casos sempre ajuda, mas os atendentes da emergência incompreensivelmente negaram. Rogou-lhes, então, que o levassem no carro dele mesmo e, novamente, outra negativa. Desesperado, ele saiu da ambulância, pegou o carro, efetuou o retorno em frente ao posto policial e rumou direto para Sorocaba, onde há um único hospital que tem pronto-socorro e está capacitado para efetuar angioplastias em caráter de urgência.

Dirigindo até o hospital
A distância entre o pedágio do km 74 e a Unimed em Sorocaba é de cerca de 30 quilômetros. Contou-me Luiz Henrique
nem precisava que foram os 30 km mais longos de sua vida, pois a dor era insuportável. Mas ele tinha de prosseguir. Ainda seguindo o treinamento recebido na empresa, ele tossiu, gritou, até rezou e dirigiu o mais rápido que sabia.

Chegou ao hospital e foi imediatamente atendido. Fizeram um cateterismo e logo colocaram em uma das artérias coronarianas um stent (espécie de mola que se coloca por dentro da artéria para que ela não se dobre), constatando que ele tinha mais três obstruções.

Do início da dor até a desobstrução decorreram menos de duas horas. Isso foi suficiente para que ele não ficasse com nenhuma seqüela. Porém, 45 dias depois ele foi submetido a uma cirurgia no Hospital do Coração, em São Paulo, para a colocação de quatro pontes, sendo duas safenas e duas mamárias. Luiz Henrique está em recuperação e na semana que vem deve voltar ao trabalho.

Ele lembra que, quando a concessionária começou a operar a Castelo Branco, havia até um helicóptero disponível para atendimento que exigisse remoção rápida. Onde estará esse helicóptero agora? Pior do que isso, Luiz Henrique entrou em contato com a ViaOeste pelo Atendimento ao Usuário para relatar e reclamar do fato, mas nem lhe ligaram de volta. Fica patente que a concessionária não está nem um pouco preocupada com seus clientes.

De uma coisa Luiz Henrique tem certeza: se ele não tivesse tomado a atitude de
mesmo quase perdendo a consciência dirigir até Sorocaba, provavelmente essa história não pudesse vir ao conhecimento público. Foi por isso que Luiz Henrique me procurou, um amigo e ex-colega. Para que tenhamos noção do risco a que estamos sujeitos, mesmo utilizando uma das melhores e mais evoluídas rodovias do país. Um alerta de que, apesar de ser cobrado pedágio, o atendimento de emergência da ViaOeste é sofrível. É apenas uma fachada.

É mesmo o velho salve-se quem puder.



Após a publicação da coluna, a Viaoeste se posicionou ao Best Cars da seguinte forma:

"Caro Bob Sharp,

Em resposta às declarações do Sr. Luiz Henrique Alves, referente ao atendimento realizado no dia 2 de agosto de 2007 na rodovia Castello Branco, km 74, sentido capital, informamos que o assunto está equivocadamente tratado como “omissão de socorro”, como adiante esclareceremos. De qualquer forma, para antecipar, é fato que todas as medidas tomadas atendem ao protocolo de atendimento de emergência.

No que se refere à questão do diagnóstico, esclarecemos que a avaliação é realizada por profissionais da área com base em procedimentos médicos e gravidade presumida. Evidente também que, a equipe de atendimento deve interar-se do quadro que se apresenta, tomando em seguida as providências necessárias, inclusive no que se refere à escolha do hospital de remoção, que é baseada nos princípios de regulação médica normatizada pelo Ministério da Saúde.

Ademais, a equipe de atendimento não pode prescrever ou aviar qualquer medicação até que seja concluído o diagnóstico, sem contar as ressalvas de prescrição de medicamentos que podem agravar o quadro ou causar sintomas indesejáveis.

Salientamos que nossa equipe é formada por resgatistas, auxiliares de enfermagem, enfermeiros e médicos com formação, treinamento e prática necessários para atendimentos emergenciais, como todas as equipes das concessionárias de rodovias do Estado de São Paulo. Neste caso, a unidade que atendeu o Sr. Luiz Henrique, fez todo acompanhamento com o médico que estava na base do km 54 da Rodovia Castello Branco.

Com relação à impossibilidade de remoção ao hospital sugerido, esclarecemos que a equipe médica da ViaOeste faz diariamente ao menos dois contatos com os hospitais credenciados, com o propósito de interar-se dos recursos disponíveis naquele dia. Esta conduta tem o propósito de remover a vítima para o local com condições previamente confirmadas de suporte hospitalar para os atendimentos realizados nas nossas rodovias.

Sobre a remoção em veículo particular, o Sr. Luiz Henrique que alega ser conhecedor de procedimentos médicos emergenciais, deve saber que nenhuma equipe médica faria tal procedimento, pois não oferece suporte e equipamentos necessários para o atendimento da vítima, além de se tratar de um veículo sem sinalização, e no caso de uma remoção rápida, implicaria em risco à vítima e à equipe.

Assim, diante de todos estes relatos, a ViaOeste não pode admitir que se coloque em dúvida a capacidade técnica dos profissionais da equipe de atendimento pré-hospitalar, que desempenham suas atividades com competência técnica e responsabilidade com a vida.

Quanto à falta de resposta da manifestação registrada pelo Sr. Luiz Henrique Alves, em 15 de agosto, informamos que temos os registros dos contatos feitos pela Ouvidoria no telefone celular deixado para retorno, mas infelizmente não tivemos sucesso. Temos inclusive gravação da última tentativa de contato, onde deixamos recado na caixa postal do celular. Encerramos a ocorrência em 22 de agosto, e o usuário jamais retornou nossos pedidos de contato.

Fundamentado em nossos valores e agindo de forma transparente, utilizamos este mesmo veículo de comunicação para colocar a nossa concessionária à disposição para visitação de qualquer usuário, sobretudo o Sr. Luiz Henrique, para que possa avaliar o profissionalismo e a dedicação aos nossos usuários."

Assessoria de Comunicação ViaOeste



Comentário do colunista
A ViaOeste contesta os fatos, mas não há dúvida de que, não fosse a iniciativa do Luiz Henrique em buscar ele mesmo atendimento num hospital, poderia ter ficado no mínimo com seqüelas do infarto. O que se espera é o atendimento imediato em caso de risco de vida, mesmo passando por cima dos procedimentos habituais. A vida vale mais do que eles.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 17/11/07

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