Nossa maldição energética

Já meio gasto de tanto eu usar, o termo continua firme e forte

por Bob Sharp

Os leitores mais antigos certamente se lembram de minhas críticas, nesta coluna, à política de combustíveis no Brasil. Desde que me entendo por gente, e olhem que neste mês completo 65 anos, sempre tivemos algum tipo de confusão quando o tema é combustível.

A coisa começou nos anos 1930, quando o extinto Instituto do Açúcar e do Álcool inventou produzir álcool para reduzir a produção de açúcar — devido ao excesso de oferta nos mercados mundiais, que baixava sua cotação — e pegar esse álcool e adicionar à gasolina, em proporção que variava de acordo com a safra de cana-de-açúcar, que ia de 3 a 6%. Não se tinha, portanto, uma gasolina uniforme.

Depois foi a octanagem da gasolina, bem mais baixa do que a oferecida no mundo de vanguarda e que obrigava reduzir a taxa de compressão dos motores dos carros que rodariam aqui, importados ou nacionais. Com isso, ficamos inferiorizados durante mais de 30 anos com automóveis de desempenho inferior e que consumiam mais, comparando com o que havia no mundo.

Aí veio a crise do petróleo de 1973, com preços do produto subindo vertiginosamente, o que levou o governo a criar o Proálcool em novembro de 1975 como maneira de driblar a crise. Só que o combustível alternativo viria para substituir gasolina, não o petróleo como um todo, um erro primário. Sem contar que o Brasil precisou continuar a importar petróleo — só produzíamos 20% de nossas necessidades — para refiná-lo aqui, de modo que a frota a diesel pudesse continuar rodando. Subentenda-se ônibus e caminhões, estes nosso principal ator no modal de transporte de carga.

Como não se pode deixar de produzir gasolina de cada barril de petróleo, assim como não é possível deixar de obter filé mignon de cada boi abatido, gasolina nunca foi problema para o Brasil naquela crise do petróleo. Por uma simples razão: o derivado que comanda o consumo de petróleo no Brasil, até hoje, é o diesel.

Entretanto, os brasileiros foram submetidos a uma situação vexatória, a de não poder abastecer o carro das 20h às 6h e nos fins de semana, acarretando todo tipo de problema para todos. O governo, numa sublime gozação, chamou a medida de "racionalização do uso dos combustíveis". Fomos o único país do mundo a passar por isso. Corridas de automóveis chegaram a ser proibidas, enquanto no resto do globo elas apenas foram reduzidas em 10% da sua duração, dando sua parcela de contribuição. Isso tem nome: respeito ao cidadão, coisa que por aqui não ocorre muitas vezes.

A gozação vinha também do jornalista Cid Moreira, no Jornal Nacional da TV Globo, ao anunciar aumentos da gasolina às oito da noite: não dava mais para encher o tanque de gasolina a preço de antes do aumento.

Em meio a tudo isso, chegou o carro a álcool, feito às pressas e causando problemas de toda ordem para os donos de carros, de difícil partida a frio a corrosão dos carburadores pelo ataque químico do álcool. Enquanto isso, o país não tinha onde armazenar tanta gasolina. Chegou-se ao extremo de, em 1988, praticamente só se vender carro a álcool no Brasil.

O subsídio e incentivo ao uso álcool não foram nada baratos: custaram ao Brasil 16 bilhões de dólares em 10 anos. Tudo para substituir um combustível que tínhamos à vontade.

Gasolina "diferente"
Quando a gasolina voltou a ter uso irrestrito, no começo dos anos 90, ao acompanhar o mundo na eliminação do venenoso chumbo tetraetila da gasolina, o Brasil resolveu usar oxidante à sua maneira, colocando 22% de álcool nela. Mundo afora foram usadas outras soluções que não descaracterizassem tanto a gasolina, como melhoria do refino e adição de MTBE (éter metil-terciário butílico), para manter a octanagem sem o chumbo.

Novamente os carros brasileiros ficaram "diferentes", pois tinham de ser calibrados para funcionar com a gasolina alcoolizada. Os mais antigos, ajustados para gasolina pura, como ficariam? Ora, os carros mais antigos que se danassem. Como se danam até hoje.

Pelo menos agora tínhamos octanagem igual à do resto do mundo (95 octanas RON), mas os importados começaram a chegar aqui em grande quantidade — o Fiat Tipo, em 1995, foi o carro mais vendido no Brasil durante dois meses. Mas o problema de ter de recalibrá-los continuava. Foi quando a Petrobrás, em 1997, vislumbrou um mercado para gasolina sem álcool, mas de 95 octanas, e tentou lançá-la (como eu disse antes, já saía assim das refinarias).

O governo disse não: gasolina brasileira, só com álcool. A Petrobrás não teve saída senão produzi-la e distribuí-la com 22% de álcool, o que resultou na gasolina premium que os carros brasileiros não precisavam e continuam a não precisar, exceto alguns poucos que ganham alguma potência se ela for usada.

Depois, em 2003, começou a onda do carro flexível em combustível, o popular "flex", estimulando o consumo do álcool — justamente quando o Brasil caminhava para auto-suficiência em petróleo, conseguida no ano passado. Éramos e somos o único país que não precisa da solução flex, já disse isso em outras oportunidades. Flex é para quem está implementando programa do álcool e não conta com o combustível alternativo em volume e distribuição suficientes, caso dos Estados Unidos, que começaram a ter carros flex muito antes de nós, em 1991.

A maldição energética fez ainda outra vítima, o proprietário de carro convertido ou comprado pronto para consumir gás natural. De repente, o Brasil não tem mais gás suficiente para todo mundo: automóveis, indústria e usinas termelétricas. O governo oficialmente já recomendou que não se converta mais veículos para usar gás natural. Vire-se a página, vire-se quem investiu no carro a gás — a Fiat inclusive, com o Siena Tetrafuel.

Em meio a tudo isso que vem ocorrendo, nesta quinta-feira a Petrobrás anunciou a descoberta de uma gigantesca reserva de petróleo no campo de Tupi, no litoral sudeste, de algo entre cinco e oito bilhões de barris — equivalente a 40% de todo o petróleo descoberto no Brasil até hoje. Se o Brasil já exportava um pouco de petróleo, agora poderá se tornar grande exportador, praticamente tanto quanto a Venezuela.

E em meio a tudo isso também, fica o Brasil brincando de ser "Opep do etanol", ampliando a cultura da cana-de-açúcar para novas fronteiras, modificando a paisagem do interior, gerando especulação das terras para plantio, emporcalhando o interior com as queimadas. Tudo a troco de absolutamente nada. O automóvel só contribui com 10% do total de emissões de CO2, um dos gases do efeito estufa, e a frota brasileira é apenas 3,3% da frota mundial. Portanto, nossa "contribuição" para atenuar o aquecimento do planeta é ínfima. E queremos ser a nação-líder em etanol com todo esse nosso petróleo em casa...

Nossa maldição energética nunca foi mesmo tão forte.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 10/11/07

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