Cidade colorida

A capital federal, livre da escravidão do preto-prata

por Bob Sharp

Estive em Brasília esta semana e fui surpreendido com algo inesperado: a capital federal não é escravizada pela onda do preto-prata que domina a maior cidade brasileira, São Paulo. Não é a primeira vez que falo nisso nesta coluna e vejo que a preocupação com essa questão não é apenas minha. Há quinze dias o jornal Folha de S. Paulo publicou em sua edição dominical ampla matéria a esse respeito.

O colorido de Brasília, cidade que já completou 47 anos de existência, está em vários aspectos, a começar pela arborização e que chega à ponte Juscelino Kubitschek sobre o lago Paranoá, uma bela e imponente obra. Mas é no tráfego que a vista descobre um imenso colorido de automóveis que, em São Paulo, sucumbiu ante o império do preto e prata. E isso é muito agradável, respira-se um ar de racionalidade.

Vi, por exemplo, pela primeira vez, um novo Honda Civic branco, que realçou de maneira ímpar suas belas e modernas linhas. Vi também carros importados produzidos nos dois lados do Atlântico, de marcas de prestígio, brancos, amarelos, vermelhos, vinhos, marrons, azuis, verdes, beges, numa autêntica paleta de cores. Como é agradável olhar essa variedade!

Aliás, aqui vai uma dica para quem está pensando em comprar um carro usado: pense em adquiri-lo em Brasília. São vários os motivos para isso. O asfalto da cidade é de Primeiro Mundo, não há praticamente buracos e ondulações (falei nisso há dois anos por ocasião do lançamento do novo Vectra). Além disso, é um tipo de asfalto bem liso, de modo que a abrasão dos pneus é bem baixa. É sabido que lá um jogo de pneus chega facilmente a 100 mil quilômetros. Portanto, quem comprar um carro com cerca de 50 mil km rodados ainda rodará um bom tempo sem se preocupar em comprar pneus.

Os motivos continuam com o tipo de percurso médio, maior que o de São Paulo, de modo que os motores funcionam mais tempo à temperatura normal, o que é saudável para seus componentes internos. E chegam finalmente à importante questão do clima: em Brasília não existe maresia e a umidade relativa do ar geralmente é bem baixa. Ambos os fatores contribuem para fazer o carro durar mais. E se alguém ainda achar que os carros de Brasília são identificáveis a distância pela poeirinha vermelha acumulada nos cantos e nas guarnições de borracha, é bom saber que isso pertence ao passado.

E é claro, a oferta de cores é ampla para quem quer sair do domínio do preto e prata.

Escravidão
Pode parecer estranho falar em "escravidão", mas na prática isso acontece bastante, sendo fácil de entender. Como o preto e prata não têm problema de aceitação em São Paulo, as concessionárias se concentram nessas duas cores nos pedidos aos fabricantes. Daí que quando um cliente vai a uma para comprar um carro novo, não há escolha. Se quiser a cor que lhe agrade e não for uma dessas, logo vem a conversa do vendedor de que é preciso esperar tantos meses, ou que o preço não será o mesmo das unidades em estoque, desencorajando o comprador logo de cara. Este não tem outra saída senão levar o carro da cor que tem, não necessariamente a que quer.

Assim, é claro que no mercado de usados, nos carros que entraram como parte do pagamento para os novos, as chances de só se encontrar a dupla preto-prata são grandes.

Fica difícil estabelecer se a compra de um preto ou prata é franca escolha do comprador ou se resulta da imposição da concessionária, devido à "dificuldade" de haver outra cor no estoque. Ou se resulta do que veio antes, a preferência do mercado ou a simplificação da operação pelas concessionárias, mediante concentração de duas cores apenas. O fato é que uma coisa puxa outra, num verdadeiro e quase inquebrantável círculo vicioso.

Não vou entrar no mérito da segurança em razão da cor — como recente estudo na Austrália ter revelado que os carros brancos são menos envolvidos em acidentes —, mas esse é um aspecto que conscientemente não se deve descartar. Por isso, quanto mais conciliados estiverem os dois aspectos, tanto melhor.

Não que preto e prata não sejam cores bonitas para um automóvel, pelo contrário, mas não são as únicas bonitas que ficam bem. Isso vale para qualquer automóvel. Portanto, quem realmente gostar de preto ou prata não deve se deixar levar pelo lado segurança apenas. Evitar acidentes vai muito além da cor do veículo.

Mas o fato de os brasilienses exercerem a plena liberdade de escolha sem se deixarem dominar por aspectos paralelos da cor — tanto que se vêem muitos carros pretos e pratas lá — talvez seja devido aos ares bem menos poluídos do Planalto Central oxigenarem melhor os cérebros.

Será que seria essa a explicação para a cidade colorida?

Colunas - Página principal - Escreva-nos - Envie por e-mail

Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 3/11/07

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados