Irracionalidade

Há mesmo coisas sem explicação em nosso dia-a-dia

por Bob Sharp

Que eu me lembre, os elevadores de porta automática existem no Brasil há pelo menos 30 anos. Eles têm um sensor de presença nas portas que impede o fechamento enquanto houver pessoas embarcando ou desembarcando. Em geral, cessado o entra-e-sai, as portas fecham-se após dois segundos. Pois bem, apesar disso e há tantos anos às voltas com esse mecanismo, persiste o hábito de um passageiro ficar de prontidão para barrar o fechamento da porta enquanto pessoas passam, especialmente como gesto de cortesia ou atenção. Desnecessário e irracional.

No meu prédio há dois elevadores, um ao lado do outro, sendo um social e outro de serviço. Na prática, os dois são usados indistintamente. Pois bem, fico impressionado com o número de moradores que chama os dois em vez de apenas um. O resultado é aumento desnecessário do consumo de energia elétrica — que quem paga, embora rateado, é o próprio que chamou os dois elevadores. Isso fora o desgaste de peças. Já cansei de falar sobre isso, avisos foram feitos, correspondência foi enviada para cada unidade e... nenhum resultado. Outra irracionalidade.

No trânsito vê-se irracionalidade a toda hora. Por exemplo, o que leva alguém a achar que não precisa ligar faróis à noite? Será que não vê a quase totalidade dos carros com os faróis acesos? Além, claro, de ser obrigatório. Já contei aqui: numa noite houve um blecaute no bairro em que moro — desses gerais, até da iluminação pública — e vi diversos carros trafegando só com lanternas, completamente no escuro.

Outra questão de iluminação: qual será o encantamento de trafegar com os faróis principais desligados e os de neblina acesos? A mim parece haver um fascínio do motorista, embora incompreensível, em saber que o próprio carro tem o equipamento, pois este farol só serve dentro do nevoeiro. Entretanto, o que se vê de carro com os "neblinas" acesos não é brincadeira. Do mesmo modo, usam-nos em velocidades de auto-estrada, quando também de nada servem — seu alcance é previsto para baixas velocidades, como em geral se trafega quando há nevoeiro. Portanto, só em questão de iluminação, são duas irracionalidades.

Há irracionalidade maior do que passar de motocicleta zunindo entre filas de carros parados ou em movimento lento? Eu não conheço. Pois isso já virou rotina em cidades como São Paulo. É praticamente uma tentativa de suicídio. Sim, porque não há margem para uma manobra evasiva se qualquer coisa acontecer no "caminho" do motociclista, tampouco há condições para uma freada segura. "Adrenalina pura", como vi um motoboy dizer à repórter que o entrevistava, numa reportagem televisiva, quando perguntado como se sentia fazendo aquilo.

Outra irracionalidade de doer — ou de matar — é ver automóveis com mais de três passageiros no banco de trás, na maior parte das vezes crianças. Vê-se muito isso nas reportagens de televisão, por ocasião dos grandes congestionamentos em época de fim de semana prolongado. Como não existe nenhum carro com quatro cintos de segurança no banco traseiro, um eventual quarto ocupante nesse banco está solto dentro do carro. Ou seja, o motorista que permite isso é irracional.

Outra irracionalidade inacreditável é mandar escurecer os chamados vidros de comando do motorista, aqueles dos quais ele depende para rodar com segurança em meio ao tráfego. É um péssimo hábito que se generalizou de tal forma, no Brasil, que me põe a pensar onde está o certo e onde está o errado. É como se automóvel tivesse se transformado em esconderijo de motorista e, ponto final, algo que teremos de conviver para sempre com. Enxergar bem à volta? Ora, enxergar bem... para quê?

Do outro lado
Há grande dose de irracionalidade do outro lado também, o que tem a missão de cuidar de trânsito no Brasil. Uma que não canso de repetir é a placa de advertência A-18, que tem dois propósitos. Um, informar ao motorista sobre o perfil da estrada em lombada, ou seja, um trecho em subida seguido de outro em descida, em que não se pode ver o outro lado. Só que as "brilhantes" cabeças dos órgãos de trânsito resolveram usar a mesma placa para a famigerada lombada. Como essa placa é universal, é fácil imaginar o que pode acontecer quando um estrangeiro vem dirigir aqui.

Outra irracionalidade dos que mandam no trânsito brasileiro é adotar placa de contramão diferente da usada na Europa, por exemplo. A da esquerda, igual à européia, é a antiga daqui e a da direita, a atual, R-3:

Deixo para o leitor decidir qual a mais visível...

Já vi não faz muito tempo placas montadas em pórticos na Via Dutra que dizem: "Farol baixo na rodovia". Nada é dito do farol alto, que é para ser usado sempre que não for ofuscar o tráfego contrário ou incomodar o que segue no mesmo sentido. Não é dito nem que se pode e deve usar.

Sem contar a irracionalidade-mor da autoridade de trânsito, colocar placas de aviso em determinados cruzamentos avisando que aquele é perigoso — como se houvesse cruzamento que não é perigoso. Nem preciso falar também da irracionalidade da lombada, que dá aulas diárias a milhões de motoristas que só se deve andar com devagar e com cautela quando houver uma. Este aviso é tão absurdo que nem existe em nosso sistema de sinalização. Entretanto...

Irracionalidade não faz bem à coletividade, mas o oposto faz mesmo um bem danado.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 27/10/07

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