País das tragédias

Acidente evitável em Santa Catarina tolhe 28 vidas
e deixa 90 feridos: até quando isso acontecerá?

por Bob Sharp

A coisa está mesmo feia no Brasil. O trânsito vem matando e ferindo numa escala assustadora. Aparentemente, isso não gera nenhuma comoção nos círculos governamentais — é como se fosse assim mesmo e ponto final. Nesta terça-feira (9), na rodovia BR-282, no Oeste de Santa Catarina, um caminhão colidiu contra um ônibus. Sete pessoas morreram. Cerca de uma hora e meia depois, uma carreta não conseguiu parar e invadiu a área do acidente. Mais 21 mortos e a totalização de 90 feridos, sabe-se lá com que gravidade. Entre os mortos, quatro bombeiros que trabalhavam no salvamento das vítimas e um policial militar.

Os leitores devem se lembrar de acidente parecido ocorrido no fim do ano passado, na rodovia BR-381, e que comentei na última coluna de 2006. Uma carreta também não parou diante de um engarrafamento causado por lombada, com saldo de quatro mortos e 15 feridos. Os motoristas simplesmente não conseguem parar a tempo seus caminhões.

Já comentei em outra ocasião que a cabeça dos brasileiros anda com problemas sérios. Dei até como exemplo o aviso de pedágio nas rodovias colocado dois quilômetros antes das praças, enquanto no vizinho Uruguai essa antecipação é de apenas 750 metros. Por que isso? Só pode ser uma coisa: r-a-c-i-o-c-í-n-i-o l-e-n-t-o, causado ou não pelo álcool, entorpecentes ou cansaço extremo. Esses dois graves acidentes não ensejam outra explicação.

Caso das ultrapassagens, por exemplo. Está mais do que evidente que muitos motoristas (de qualquer tipo de veículo) não se dão conta que, quando dois carros se aproximam em sentido contrário, suas velocidades se somam. É como se um deles estivesse parado e outro chegando à velocidade dos dois somadas. Dois a 80 km/h representam um a 160 km/h contra um objeto imóvel. É óbvio que quem está ao volante tem de saber desse pormenor, em que sua alienação não pode ter outro resultado que não uma violenta colisão frontal. Isso só tem uma maneira de incutir, pois ninguém nasce sabendo: pela instrução. Não precisa ter QI elevado para assimilar a noção das velocidades contrárias, mas é preciso ensinar.

Junte-se ao motorista incompetente outro fator não menos importante: velocidade e peso excessivos. Uma carreta de peso bruto total combinado de 40 toneladas não pára imediatamente. Só que todos nós sabemos que o excesso de peso no Brasil é rotina. Claro, se não há fiscalização, não é preciso ser doutor para saber que, quanto mais carga transportada, maior é o lucro. Algumas poucas rodovias têm balanças, mas só isso não basta. Nos países avançados usam-se balanças móveis, portáteis, aplicadas de maneira aleatória, de maneira que o motorista sabe que quando menos esperar será mandado parar para pesagem.

Somem-se esses dois fatores — motoristas despreparados e caminhões com peso além do permitido — e está pronta a receita do desastre.

Sinalização
Uma das maiores carências brasileiras se chama sinalização. Qualquer viagem ao exterior, como a que fiz recentemente, mostra a preocupação com a sinalização de trânsito. Sou capaz de apostar que o motorista da carreta que invadiu a cena do primeiro acidente não teve o alerta visual com a antecipação que o caso merecia (como no acidente do ano passado na BR-381). Note-se que decorreu uma hora e meia desde o primeiro acidente, tempo mais do que suficiente para que a área fosse sinalizada como deveria. Isso conjugado — está mais do que evidente — com velocidade muito acima do limite da rodovia.

A impressão, ou certeza, que se tem é o trânsito brasileiro está de todo descontrolado. É um cenário de abandono completo, percebe-se nitidamente que os responsáveis estão alheios ao que se passa nas rodovias brasileiras. Mais ou menos como a postura do então ministro da Defesa Waldir Pires no episódio da crise do transporte aéreo. Alheio a tudo, nada era com ele, até que o presidente da República resolveu exonerá-lo, embora tenha demorado demais.

A única coisa que parece funcionar a contento é a fiscalização de velocidade pelos simples e eficientes meios eletrônicos, mas muito mais com finalidade de arrecadar pelas multas do que por motivo de segurança. Isso significa impor limites baixos demais que funcionem como armadilhas. Na exemplar rodovia SP-160 Rodovia dos Imigrantes, sentido litoral, vem-se ainda no trecho do planalto respeitando o limite de 120 km/h, achando que está tudo bem, até que chega a multa por excesso. Na notificação lê-se velocidade regulamentada de 100 km/h. Como? Só passando pelo ponto novamente: à direita, no acostamento, está a maldita placa. No mínimo, em respeito ao cidadão, a indicação de redução teria que estar num pórtico, igual ao que existe no início da rodovia. Deve ser um dos pontos mais festejados pela fúria de arrecadação estadual.

Vou repetir, por se inserir no contexto do descontrole de nosso trânsito: se construir lombadas em qualquer rua já é uma aberração inominável, aplicá-las em rodovias de pista dupla, como na federal Fernão Dias, é crime. Além de causar desgaste anormal aos veículos e, pior, provocar acidentes, gradual e inevitavelmente as lombadas estão tirando dos motoristas brasileiros o pouco que lhes resta da noção de que, em determinadas situações, é necessário reduzir velocidade. Por uma questão de responsabilidade, não só porque existe uma lombada a ser transposta. A lombada é um dos maiores, senão o maior cancro do trânsito brasileiro.

Voltando à questão da sinalização, quantos de nós já vimos uma placa de velocidade máxima antes de uma curva, combinada ou não com aviso de "curva perigosa", para logo se deduzir que o aviso é falso, ou pelo menos não se aplica a automóveis? O efeito funesto dessa má prática é deixar-se de acreditar em tais placas e avisos, até que um belo dia o aviso é verdadeiro. Que eu me lembre, só vi uma placa de velocidade até hoje que especifica "Caminhões", na Via Dutra, sentido Rio, numa série de curvas após o retão de Lorena. Tinha de ser assim em todas as rodovias "deste país".

A tragédia que foi o acidente em Santa Catarina chocou a todos. Era evitável e portanto não tinha que acontecer. Um empenho descomunal do governo federal para mudar o tenebroso quadro é o mínimo que se pode esperar. Vai dar trabalho, mas não é possível esperar mais.

Vamos ver o que acontece em mais um feriado prolongado pelo fim de semana, esse de 12 de outubro. É torcer muito para que os motoristas, como num clique, se conscientizem de suas responsabilidades.

Temos de acabar com a pecha de país das tragédias.

A coluna dá os pêsames aos que perderam parentes e amigos nesse grave acidente, bem como às famílias dos quatro bombeiros e de policial militar, mortos quando cumpriam seu dever.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 13/10/07

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