Sob o céu de Paris

Viajar sempre nos mostra coisas interessantes,
inclusive quando o assunto é trânsito

por Bob Sharp

Três dias em Paris foram suficientes para constatar como temos que aprender. É certo que o trânsito da capital francesa é típico de qualquer cidade grande atual, onde sempre parece haver mais carros do que as ruas suportam. Um volume de trânsito ao qual São Paulo e outras capitais brasileiras nada devem. Só que as coisas se passam e se resolvem de maneira diferente daqui e, de certa maneira, o tráfego parece andar bem melhor lá do que aqui.

Semáforos, por exemplo. Jamais se tem a impressão de permanecer mais tempo parado do que o necessário, mesmo para cruzar avenidas largas e de grande movimento. Também não se percebe o famoso abre-aqui-pára-logo-ali, tão corriqueiro aqui. Há uma visível sincronização dos sinais de trânsito. Mesmo quando o trânsito engarrafa, como nas horas de pico, a coisa anda devagar, mas anda. Completamente diferente daqui.

Não existem as faixas de rolamento exageradamente estreitas, portanto não há a incômoda proximidade de veículos, em que um pacato utilitário esporte parece-nos ameaçador. Motos passam sem dificuldade entre filas de carros, mas com um detalhe: sempre em velocidade relativa baixa, com toda segurança. E elas não têm o inimigo que são os tachões refletivos nas linhas divisórias de faixas, uma invenção paulistana de tamanha burrice que seu autor deveria ser preso: eles só têm utilidade na estrada, onde não há iluminação pública e a luz dos faróis nelas se reflete para marcar o caminho.

Outra prova de clareza da administração pública é o estacionamento permitido para motocicletas e scooters nas calçadas onde isso seja possível em função da área, em que não causam incômodo algum ao trânsito de pedestres. Não se justifica nosso sistema de impedir o estacionamento de motos em ruas de estacionamento proibido. Lembro-me de que no Rio, onde morei até agosto de 1978, podia-se estacionar motos nas calçadas. Não sei como está hoje. Como muitos leitores cariocas do Best Cars dirigem motos também, agradeço se puderem me informar.

Por falar em veículos de duas rodas, as muitas bicicletas em Paris têm um singelo equipamento chamado farol, marcando sua presença facilmente para os motoristas. Por incrível que pareça, não foram tornados obrigatórios pelo código de trânsito que entrou em vigor há exatos 10 anos. E, claro, as bicicletas têm luz traseira, de fundamental importância para a segurança dos ciclistas. Essa é obrigatória aqui, mas reflexiva somente, sem fonte própria de luz. Como ainda há muitos imbecis à solta que insistem em trafegar à noite só com lanternas acesas, esse tipo de sinalização em bicicleta para nada serve.

Bicicleta lá segue as regras de trânsito como qualquer outro veículo. Se o sinal fecha, a bicicleta pára. Trafegar pela contramão? Jamais, isso não existe. É bastante simples. Há um entendimento de que todos fazem parte do trânsito, e não uma classe viver às turras com outra.

Foi bom também constatar que motoristas vêm uns aos outros, pois não existe a bizarra prática do vidro "filmado" que já se tornou uma regra por aqui. Sinal de inteligência de um povo. Em alguns utilitários esporte e "navettes" (vans), sim, mas nunca para o motorista, que desse modo pode enxergar tudo à sua volta. Exatamente como vi nos Estados Unidos há um ano.

Diesel em profusão
É algo que impressiona ver a quantidade de carros a diesel na França. Só não tem em Ferrari, Porsche e Lamborghini. Todo o resto, de veículos comerciais a luxuosos Mercedes e BMW, é movido a diesel. O mais curioso é que não se percebe o odor característico que sai do escapamento desses motores, ao contrário do que ocorre aqui. A única coisa que se nota é um leve, mas bem leve ruído do motor quando em marcha-lenta. Andei num táxi Audi que dava gosto. De câmbio manual, notava-se que o motorista sabia o que estava fazendo. Era apertar mais o acelerador e lá vinha o agradável empurrão nas costas. Apenas um leve murmúrio do motor acompanhava a boa sensação.

Enquanto isso, nós brasileiros estamos privados de ter automóveis a diesel, algo que foge à mais simples razão. Alguém lá na "ilha da fantasia" resolveu que não e, fim de conversa. Combustível na França está longe de ser barato, a 1,40 euro o litro, cerca de 3,50 reais o litro da gasolina comum de 95 octanas RON. Em compensação, é gasolina sem álcool, não a indecente mistura 1:4 álcool-gasolina que somos obrigados a engolir aqui, também ordem "lá de cima, da ilha".

Na verdade, a 2,40 reais por litro estamos pagando por menos 13% em poder calorífico devido a todo esse álcool na mistura, que é como se estivéssemos pagando 2,73 reais por gasolina "gasolina". Assim, os parisienses estão gastando mais 28% que nós para rodar em seus automóveis, e não 46%, como pode parecer à primeira vista. Só que se formos comparar a renda per capita da França com a do Brasil, mesmo tomando a população economicamente ativa (70 a 80 milhões dos 185 milhões), o peso é muito maior para nós, aliás um fardo que parece que teremos de carregar para sempre. Como eu já disse em inúmeras ocasiões nesta coluna, paira sobre nós uma inexplicável maldição energética.

Outra coisa que logo se nota nesses países é a qualidade da pavimentação. Os carros não seguem aos saltos como aqui. Buraco é algo que simplesmente não existe. Lombada, pelo jeito, também não, e veja-se que rodei bastante. Valetas e aqueles tampões de inspeção de galerias desnivelados, nem pensar.

Inveja é um sentimento baixo, mas não puder deixar de invejar aqueles europeus com seus carros com altura de rodagem decente, não as suspensões típicas de carro fora-de-estrada que temos por aqui devido a nosso hostil piso. Perde-se em estabilidade e em consumo por conta do "nosso chão". Fora que obriga os fabricantes e importadores a redefinir a suspensões dos carros que vão rodar aqui, um custo que evidentemente é repassado ao consumidor.

Piso ruim só mesmo na pista de taxiamento do Aeroporto Charles de Gaulle, instantes antes de ganhar o céu de Paris na volta para casa: dava impressão que o Airbus A330 ia quebrar o trem de pouso a qualquer momento.

Nada é perfeito mesmo.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 6/10/07

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