Expedição flex

Uma das maneiras mais estranhas de promover uma marca

por Bob Sharp

Dizem, com razão, que a propaganda é a alma do negócio. Quem produz ou presta serviço precisa dar o recado ao consumidor, chamar-lhe a atenção. Às vezes esse recado não precisa ser dado, caso de um produto ter uma excelência tal que ele se autopropaga nas mentes das pessoas. Um dos exemplos clássicos é o do Volkswagen Fusca, que chegou aos mercados mundiais em 1949/50 sem a divulgação nos termos que conhecemos, vendeu de maneira incrível e só anos depois é que foi necessário anunciar. Mas isso é raro.

Hoje vemos todo tipo de anúncio, em especial os comerciais de televisão, o que foi muito bem comentado pelo editor do Best Cars em editorial. Fora os anúncios de produto em si, algo perfeitamente natural e cabível, a indústria automobilística às vezes lança mão de certos recursos que abusam da paciência do consumidor ou, pior, o ludibriam.

É o caso de fábricas aqui estabelecidas divulgarem participação e conquista de resultados na categoria Stock Car V8, sem que os produtos que fabricam tenham a menor relação técnica com os carros que competem na vibrante e soberbamente organizada categoria. As "marcas" que tomam parte nessa modalidade de corrida se resumem ao formato da carroceria, uma vez que a parte mecânica é exatamente igual em todos os concorrentes.

Um Stock Car V8 consiste de chassi tubular, suspensão independente nas quatro rodas, motor V8 dianteiro longitudinal General Motors de 5,7 litros, câmbio dianteiro e tração traseira. As quatro "marcas" são Chevrolet, Mitsubishi, Peugeot e Volkswagen e os modelos são, em teoria, Astra, Lancer Evolution, 307 Sedan e Bora, na ordem. Na versão de rua, o japonês tem tração integral e os outros são tracionados pelas rodas dianteiras. E os quatro usam motores transversais de quatro cilindros. Portanto, rigorosamente, nada a ver entre os carros da Stock e os produzidos em série.

Mas se anúncios que se aproveitam da Stock Car caracterizam-se por óbvia "falsidade ideológica", há um outro tipo de divulgação que nem sei como classificar: expedições. Expedição é termo cujo um dos sentidos é o de grupos que viajam a uma região para estudá-la e pesquisá-la, especialmente em caráter científico. Mas não bem isso o que acontece às vezes.

A "Flexpedition"
Como expedição tem conotação de coisa séria, a GM brasileira resolveu organizar uma com modelos antigos de sua gama rumo aos Estados Unidos — a Old Way Expedition, algo como expedição à moda antiga. Uma ótima idéia, produtos do passado serem reverenciados, quanto mais numa jornada tão longa, nada menos que 12.500 quilômetros. Partiram de Manaus no dia 1º de setembro de 2005 e chegaram à cidade de Sterling Heights, no estado de Michigan, em 12 de outubro. Dos três veículos — dois picapes Chevrolet Brasil, de 1960 e 1963, e uma Chevrolet Veraneio de 1980 —, o primeiro foi doado ao GM Heritage Center, que abriga mais de 700 veículos produzidos desde 1903 naquela cidade que é quarta maior do estado.

Esse tipo de promoção tem seu valor, como o "Revezamento Ferrari 60" no começo do ano, para comemorar os 60 anos de fundação da empresa. O programa começou por Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; seguiu para o leste da Ásia, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Américas, rodou pela Europa, até chegar a Maranello, a cidade natal da Ferrari, em junho. Vários convidados dirigiram-no ao longo de todo o percurso em seis continentes e 50 países, num imenso revezamento.

Aí a GM resolveu apostar no tema expedição. É como a velha piada do navio esbórnio que tinha de cruzar o Estreito de Gibraltar, fortificado por ingleses de um lado e alemães do outro, para isso tendo pintado a bandeira de cada país em cada lado do casco. Ao ser saudado ao passar, o comandante tanto gostou que ordenou dar meia-volta e passar novamente...

Até agora foram feitas mais três dessas "expedições". A primeira atravessando o Brasil de Sul a Norte, a segunda percorrendo o Caminho do Ouro, em Minas Gerais, e a terceira, terminada recentemente, de Leste a Oeste do País.

Expedição em estradas pavimentadas e de terra, de um ponto conhecido a outro, é mesmo querer arrasar o sentido nobre da palavra expedição ou passar uma idéia falsa ao consumidor brasileiro. Se ainda se tratasse de modelos experimentais, em que percursos longos prestam-se para uma avaliação mais ampla, também vá lá. Mas usar para isso carros de produção há tempo no mercado, aprovados inclusive num excelente campo de provas da empresa, em Indaiatuba, é passar da conta.

Como todos os carros Chevrolet produzidos no Brasil hoje — fora os a diesel — são flexíveis em combustível, os veículos nacionais utilizados só poderiam ser desse tipo, sem alternativa, a menos que se tratasse de teste de alguma coisa nova, como dito acima. Agora é que o espanto deste colunista é externado e, acredito, o do leitor no momento em que lê estas linhas: além do mau uso do termo expedição, usaram-no combinado com a palavra "flex", o que resultou no ridículo neologismo "Flexpedition" — em inglês, para piorar.

Há também a questão dos "expedicionários" nessa brincadeira toda (assim foram chamados, mas sem aspas, nos textos informativos distribuídos pela GM ao longo dos dias; não é invenção deste colunista). Além de pessoal da fábrica, jornalistas foram convidados a dirigir os carros e, claro, aceitaram. Ao contrário dos que conduziram o Ferrari no "Revezamento 60", como o jornalista mineiro Boris Feldmann, em circunstância de evento especial, único, os "expedicionários" ficaram dias viajando de automóvel num programa de significado zero. Nada desbravaram ou pesquisaram.

Como sempre fiz questão de frisar, a General Motors é uma colossal empresa, respeitada e admirada no mundo inteiro. Só de Brasil tem 82 anos e, enquanto o ano não fechar, é o maior fabricante mundial de veículos desde 1931. Apelar para programas sem sentido como essas "Flexpedições" é o que ela menos precisa.

Como só quero o bem da GM e de qualquer outro fabricante de veículos sério, torço para que ela não venha a organizar a Flexpedition Sudeste-Nordeste e nem a Sudoeste-Noroeste...

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 29/9/07

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