O que o consumidor procura

Estética vende carro, mas exemplos antigos e recentes
mostram que outro atributo também vende: espaço

por Bob Sharp

Quando o Brasília foi lançado em 1973, não foi bem entendido pelo concessionários, que viam no novo Volkswagen um automóvel bastante diferente do Fusca e da família de motor de construção plana que fazia sucesso na época, a Variant e o TL. E, de alguma maneira, muitos ainda não tinham se esquecido do 1600 quatro-portas "Zé do Caixão", de porte parecido, que nunca foi sucesso.

Assim, a expectativa de venda do novo carro era muito pequena. Mas não demorou para que o consumidor descobrisse o maior atributo do Brasília — o espaço interno — e o modelo, exatamente por isso, pegasse no mercado com força total. O Brasília teve durante anos procura bem superior à oferta, resultando em vendas sempre com ágio. Quase um milhão deles chegaram às ruas em nove anos de produção.

Do ponto de vista de projeto, no que tange aproveitamento de espaço, o Brasília era mesmo notável. Com a mesma distância entre eixos de toda a linha VW (2,40 metros), o espaço para pernas dos passageiros do banco traseiro era surpreendente. Mais que isso, porém, a largura interna surpreendia: três pessoas sentavam-se atrás sem se espremerem. O Passat, que chegou um ano depois sinalizando a revolução de conceito de produto da VW, não era tão espaçoso quanto o Brasília, apesar de ter entreeixos 7 cm maior (2,47 m).

Essa questão do espaço significou tanto na época que ninguém deu muita atenção ao fato de que o espaço para bagagem era diminuto. Malas, só na frente, pois a fábrica resolveu que o motor seria o de turbina alta, o que impediu que houvesse qualquer espaço atrás do encosto do banco traseiro. Fato idêntico se repetiria agora com o novo Honda Civic, com seu porta-malas de apenas 340 litros, mas o carro é também um sucesso inegável.

O que ocorreu com o Brasília logo me veio à mente quando vi e andei no Renault Logan, levando-me a me perguntar: como pôde a indústria automobilística se esquecer tão facilmente da mensagem do VW de mais de 30 anos atrás? Desde que comecei a atuar com mais consistência na imprensa automobilística, em 1982, não me lembro de algum carro compacto que fosse tão generoso com os passageiros do banco traseiro como o Brasília. Nem de muitos médios. Por isso, foi mesmo uma surpresa ver o Logan com aquele "salão" atrás. E, ao contrário do Brasília de maneira absoluta, com um respeitável porta-malas de 510 litros de capacidade.

Estética não é ponto forte no Logan — eu disse isso na avaliação por ocasião do lançamento e acho que todos concordam —, mas esse aspecto de espaço para as pessoas é suficiente para relegar seu visual a um segundo plano. Quem precisa levar pessoas no banco traseiro sabe disso.

A menos que o veículo seja bem largo, a inclinação das laterais para dentro a partir de linha de cintura, que realmente proporciona um visual muito bonito — exemplo clássico disso está nos Audis —, na verdade subtrai espaço interno. Se observarmos o Brasília (e a Variant II) e o Logan, veremos que eles são bem verticais lateralmente, olhando-os de frente e de traseira. Com isso, o banco traseiro, já bem largo, fica realmente dimensionado para três pessoas.

O espaço de pernas no caso do Logan é ajudado pelo entreeixos de 2,63 metros, considerável para um compacto e por isso mesmo coisa de carro médio. Já no Brasília, como já visto, os projetistas da VW foram bem hábeis ao posicionar o banco traseiro o mais para trás possível, nesse caso ajudados pelo teto reto até atrás. Caso fosse época da moda atual de tetos bem caídos (Clio, Peugeot 206), talvez não conseguissem o mesmo resultado.

Espaço interno é um importante atributo de um automóvel familiar. Esperemos que a indústria automobilística daqui tenha tido uma boa sacudidela com a chegada do Logan, que — a exemplo do que aconteceu na Europa, onde é um sucesso absoluto — já dá mostra de ter caído no gosto dos brasileiros. E aposto que não é só pela garantia de três anos.

Por falar nisso, tenho lido algumas ponderações criticando a garantia de três anos (não apenas do Logan, mas de outras marcas e modelos também), no sentido de que isso "prende" o consumidor às concessionárias e com isso elas teriam assegurado para si uma fonte de receita. O próprio editor Fabrício Samahá chegou a tocar nesse ponto em recente editorial. De fato prende, se o consumidor fizer questão de ter direito à garantia durante este período. Mas, analisando bem, não existe outra maneira de conduzir esse assunto.

A contrapartida de receber a garantia é o consumidor operar e manter o veículo dentro daquilo que a fábrica considera como adequado e correto, uma sistemática adotada desde os primórdios da nossa indústria automobilística, 50 anos atrás. Mas o editor do Best Cars foi ao cerne da questão ao sugerir uma mudança de atitude das concessionárias no tocante à manutenção programada, visando baixar seu custo. No caso específico do Logan, se o mercado achar que sua manutenção pesa no bolso, o grande trunfo do modelo — o espaço interno — irá para segundo plano, algo a que a Renault precisa estar atenta.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 25/8/07

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