O filho ajuda o pai

Uma tomada de controle que se reveste de toda a
pompa: a Porsche agora manda na Volkswagen

por Bob Sharp

A história do automóvel, que já tem 121 anos, está repleta de fusões e aquisições — algumas fantásticas como a Daimler e a Benz juntarem forças, em 1926, e disso surgir uma fenomenal empresa, a Daimler-Benz. O carro que a Daimler produzia tinha o nome da filha de Emil Jellinek, amigo e depois concessionário da marca em Nice, na França: Daimler-Mercedes. Com a fusão, surgiu a marca Mercedes-Benz.

A presença da Daimler-Benz no cenário automobilístico é por si só notável. Não fosse ela, talvez o Volkswagen não tivesse existido, pois lhe foi atribuída a missão de construir 30 protótipos do "carro do povo" para desenvolvimento e validação. A firma de engenharia de Ferdinand Porsche, encarregada que era, não vinha tendo a rapidez nem a precisão necessária para isso, inclusive com atraso no programa.

Outra atuação não menos importante da Daimler-Benz foi, a pedido do governo alemão, adquirir a Auto Union em 1958, fábrica que se encontrava em sérias dificuldades financeiras. A Auto Union, como se sabe, fabricava o DKW e havia licenciado no Brasil a Vemag, que em novembro de 1956 lançava o primeiro automóvel nacional. Pois foi nesse período sob a tutela da Daimler-Benz que foi concebido e gerado o motor Audi 827, nosso Volkswagen AP, que marcou a revolução na linha VW em 1965, momento em que a Auto Union passou para as mãos da fábrica de Wolfsburg.

Mas recentemente houve outra junção de forças igualmente fabulosa: a Porsche passar a controlar a Volkswagen. Uma união que pode ser chamada de espetacular. Há um motivo para assim ser considerado.

Porsche, o início
A Porsche, como fabricante de automóveis, começou a existir em 1948, ainda na Áustria, na pequena vila de Gmünd. A essa altura o velho Ferdinand Porsche já estava com a saúde debilitada, em função também do período de um ano que passou preso na França sob acusações que provaram ser insubsistentes. As rédeas do negócio estavam com o filho Ferry, que apresentou o tipo 356, o primeiro carro com a marca Porsche. O carro era praticamente um Volkswagen com carroceria diferente, uma vez que trem de força (motor e transmissão) e chassi rolante (suspensão, direção e freios) eram fornecidos diretamente pela fábrica VW. Sem os componentes do Fusca não teria havido Porsche.

Quando Heinrich Nordhoff assumiu a direção da fábrica Volkswagen em janeiro de 1948, já livre da administração das forças de ocupação britânicas, ele bem sabia quem eram os Porsches — e fazia tempo. Tão logo surgiram as notícias de que um carro da marca havia sido lançado, Nordhoff cuidou de assegurar para si os direitos intelectuais do Volkswagen (todos os acordos feitos na pré-guerra haviam virado pó) e contra a cessão definitiva dos direitos propôs aos Porsches o pagamento de um marco alemão — nova moeda que substituía o marco imperial à razão de 1:15 em meio a uma inesperada reforma monetária em junho de 1948 — para cada VW produzido. Em contrapartida, a Porsche ficava impedida de realizar qualquer projeto para terceiros que fosse da categoria do Fusca.

Foi a partir desse momento que estava decidido o futuro da Porsche. Com o dinheiro que não parava (e nem pararia) de entrar, a empresa se capitalizou e pôde voltar para Stuttgart em 1950, já em instalações bem mais apropriadas do que os celeiros em Gmünd. O resto da história todos conhecem: a Porsche logo se tornou uma marca de excelência e mantém esse status até hoje. Além da excelência, é a fábrica mais lucrativa atualmente.

É por isso que o mundo ficou atônito quando começaram ser divulgadas notícias, ainda no ano passado, de que a Porsche pretendia comprar ações da Volkswagen e com isso assumir o controle daquele que é o maior fabricante da Europa.

O motivo do espanto é simples: a Porsche se encontra numa exuberante fase, jamais experimentada, e a Volkswagen está há alguns anos com problemas de pouca rentabilidade, sem saber muito o que fazer. Dessa maneira, a gestão Porsche deverá mudar totalmente o panorama da VW. É uma aposta sem risco. Tudo por causa da própria história da Porsche, que em 1992 se encontrava numa situação crítica (naquele ano a produção seria de apenas 8.000 unidades, contra mais de 80 mil hoje). Foi graças ao alemão Wendelin Wiedeking, que assumiu a presidência executiva naquele ano, que a Porsche começou a acelerar de novo. Aliás, ele é o presidente executivo mais antigo no cargo em todo o mundo.

É uma situação que ninguém ousaria prever, a Porsche conduzir a Volkswagen. E ao contrário de tantas fusões que têm ocorrido na história, esta não terá choque de culturas, pelo contrário. Portanto, uma fusão tem tudo para repetir a que Gottlieb Daimler e Karl Benz fizeram em 1926.

O filho ajudado no começo pelo pai, depois de crescer e prosperar, passa a ajudar o pai. É sempre uma bela história.
 



A coluna Virtude no meio-termo, da semana passada, foi sugestão de um leitor, como eu disse na primeira frase. Achei que ele merecia ser citado: é Paulo Roberto de Miguel, de São Paulo, SP, a quem, de público, agradeço mais uma vez o interesse e a colaboração.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 18/8/07

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