Evitando os riscos

A crise aérea faz muitos optarem pelo automóvel para
longas viagens, mas saiba como evitar um acidente

por Bob Sharp

Recebi algumas críticas pela coluna da semana passada por falar de aviação num site automobilístico. Expliquei a esses leitores que nesse caso sou colunista e não repórter, e que colunistas são livres para abordar o que quiserem dentro de um razoável. Comentar sobre a crise brasileira dos ares é algo que, tenho certeza, interessa a todos, mesmo aos automobilistas. E como conheço um pouco de aviação, tanto por interesse quanto por ser piloto, pude falar à vontade sobre o tema.

Mas para que ninguém chie desta vez, volto ao automóvel, em que tento mostrar alguns truques e posturas para evitar acidentes ao pegar a estrada. É evidente que aí vão 47 anos de habilitado, mais alguns antes de completar 18 anos e também os 25 anos em que corri de automóvel.

> Procure só dirigir se estiver bem: estar bem significa estar de plena posse do corpo e da mente. Do corpo, sem dores ou qualquer restrição de movimento. Lembre-se que dirigir muito enroupado por causa do frio tolhe movimentos. É melhor usar o aquecedor do carro para se proteger do frio, usando o agasalho quando for deixar o carro. Da mente, acho que é desnecessário dizer, mas álcool e drogas prejudicam o julgamento de distância e deixam as reações mais lentas. Efeito parecido é quando se está cansado. Também, não tente dirigir fora de seu horário normal de sono. Se você dorme à meia-noite, por exemplo, não dirija muito além disso. O sono ou mesmo sonolência ao volante é uma das grandes causas de acidentes.

> Sono, o grande inimigo: nunca tente esticar uma viagem ao primeiro sinal de que o sono veio. Procure um lugar seguro (acostamento, jamais) e dê uma caminhada ou mesmo corrida; em geral dá para espantar o sono. Se este voltar depois de algum tempo, ache outro locar seguro e dê uma dormida de cerca de uma hora. A maior parte do sono vai embora. Lembre-se que sono pode ocorrer de dia também, o que não é menos perigoso que o sono noturno.

> Carro perfeito: quando comecei a aprender a pilotar avião, meu instrutor me deu um conselho — ou o avião está bom e pode voar, ou não está bom e não pode voar. O recente caso do Airbus da TAM ilustra bem isso. Se o avião tem um reversor em cada motor, os dois têm de estar funcionando. Claro que pode voar (e pousar) sem um deles, mas o acidente dificilmente teria acontecido se os dois reversores estivessem funcionando. Com o carro é a mesma coisa. Todo automóvel, com o passar do tempo, vai tendo alteradas suas características originais e muitas vezes surgem defeitos.

Por exemplo, os freios podem estar sem a eficiência normal, percebe-se alguma dificuldade para reduzir velocidade por meio deles. Então esse carro "não está perfeito e não pode voar". Ou carro está muito mole, oscila muito ao passar sobre ondulações. É certo que pode ser usado com essa anomalia causada por amortecedores com pouca ação, mas, novamente, não está perfeito. Esse é o critério: o carro precisa estar com o jeito de andar normal para que possa ser utilizado para viajar. Qualquer carro razoavelmente mantido pode pegar estrada; não é necessária a prosaica "revisão de viagem".

> Saiba o que se passa a sua volta: vale a pena ficar em alerta constante para tudo o que possa acontecer na estrada. É dirigir fazendo varredura permanente em todos os lados, daí a importância dos espelhos retrovisores interno e externos (corretamente ajustados) e daquilo que já falei diversas vezes aqui, o mal que as películas escurecedoras fazem nessa parte. É esse estado de alerta que pode fazer toda diferença no momento de tomar uma decisão. E não é apenas visual o alerta: o auditivo e o olfativo são muito importantes também. Os dois podem antever problemas. Por exemplo, muitas vezes se percebe a presença de óleo na pista pelo odor característico, antes que ele venha a se manifestar em redução de atrito. É muito importante saber o que acontece atrás, útil no caso de precisar frear de repente, qualquer que seja o motivo.

> Deixe a esquerda livre: sempre use uma faixa de rolamento de tal modo que a outra à esquerda fique livre, independente do ritmo de viagem. Use-a para ultrapassar somente, voltando à faixa anterior ao terminar a manobra. Faça disso uma religião. Há duas vantagens em proceder assim. Uma, você dificilmente se estressará por alguém que pretenda ultrapassá-lo. Outra, você contar com espaço de manobra à esquerda e à direita (neste caso o acostamento em caso de pista com duas faixas) no caso de qualquer imprevisto. Mas lembre-se de que mudanças bruscas de direção sempre são perigosas, é preciso o máximo de cuidado.

> Seguir o fluxo: procure andar dentro do limite de velocidade, mas é mais importante ficar no mesmo ritmo do tráfego. Dessa forma seu carro nunca constituirá um "obstáculo móvel". O ideal seria observar estritamente essa recomendação, mas hoje, com a sede dos municípios e estados em faturar com multas por excesso de velocidade, aplicar esse conceito está mais difícil, pois arriscamo-nos a ser multados por usar um princípio sadio de segurança rodoviária. De qualquer maneira, use o bom senso e não se permita trafegar mais lentamente que a corrente de tráfego.

> Atenção com os pneus: eles constituem um dos elementos mais importantes de qualquer automóvel, independente de potência e desempenho. São sabidamente caros, mas deixar de gastar com eles pode ser pior e acarretar despesas ainda maiores, sem contar o infortúnio que todo acidente representa, por mais leve que seja. Os motoristas mais seguros evitam rodar com pneus que estejam além de meia vida, em que sobre piso molhado tendem a aquaplanar com facilidade.

A profundidade de sulco de um pneu novo é 8 milímetros. Quando chegarem a 4 mm, troque-os. O limite legal é 1,6 mm, embora já haja fabricantes de veículos, como a GM, que sugerem mínimo de 3 mm. Tão importante quanto a profundidade de sulco é a pressão de enchimento dos pneus. Observe estritamente as recomendações do manual quanto a carga no veículo e pressão adicional no caso de uso em rodovias. Lembre-se de que a medida dos pneus deve ser a especificada pelo fabricante do carro e que todos devem ser da mesma marca e modelo.

> Entenda seu carro: embora para se dirigir um automóvel não seja necessário conhecimentos de mecânica, é sempre bom alguma familiarização com o carro que se vai dirigir na estrada. No caso brasileiro, em que grande parte dos automóveis é propulsionada por motores de um litro, é fundamental entender que estes precisam de mais rotação para que produzam potência palpável e que isso não os estraga. Conhecer as características da transmissão, tanto manual quanto automática, é importante também. Há casos em que a última marcha foi calculada para diminuir consumo e ruído (câmbio 4+E ou 5+E) e não proporciona força suficiente para uma retomada ou, pior, uma ultrapassagem, sendo preciso reduzir antes da manobra.

> Alerta constante: faça um hábito o ficar alerta para tudo o que possa acontecer. A quantidade de eventos que ocorre numa rodovia é enorme. Vale a pena ficar atento. Não é ser pessimista, mas tenha sempre em mente que as coisas mais estranhas podem acontecer. Deve-se esperar sempre que o outro motorista vá cometer um erro ou uma imprudência e antecipar uma atitude a tomar. Por exemplo, se numa rodovia de mão dupla você vê alguém iniciar uma ultrapassagem e que venha contra você, saia logo para o acostamento (se for pavimentado), definindo antecipadamente sua decisão para que o outro carro não faça o mesmo.

> Cortesia e paciência: uma das maneiras mais eficazes de evitar problemas e acidentes é praticar a cortesia e a paciência. No começo é até desagradável, mas depois que essas duas atitudes se tornam automáticas nem se notam mais. Além disso, o tempo perdido na viagem é muito pequeno, enquanto os benefícios são enormes. Procure facilitar a vida dos colegas motoristas de veículos maiores e você terá a grata surpresa de ser ajudado por eles também. A paz na estrada beneficia todos.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 4/8/07

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