Circuito interrompido

Parece mentira, mas conseguiram realmente acabar
com a indústria do transporte aéreo no Brasil

por Bob Sharp

Era uma vez um país localizado abaixo do equador, descoberto apenas oito anos depois de outro que viria a se chamar Estados Unidos da América e quase tão continentalmente grande quanto. Esse país, como inúmeros mundo afora, tem um sistema de transporte aéreo bem desenvolvido, com companhias aéreas nacionais voando pelos quatro cantos do mundo... ou quase, desde que a mais nacional delas, a Varig, entrou em parafuso (desculpem o trocadilho) e hoje vive praticamente de seu glorioso passado.

Além de termos inventado o avião — o chamado aparelho mais pesado que o ar, há 100 anos, completados em 23 de outubro do ano passado —, inventamos também a operação de ponte aérea para passageiros, coisa de que poucos sabem. Houve uma ponte aérea antes, quando em 1948 os russos resolveram impedir o livre acesso por terra à parte ocidental de Berlim (que mania!) e os americanos passaram a usar o ar para chegar lá. Foi uma operação ininterrupta que durou 444 dias. Berlim, como se sabe, ficou na zona de ocupação soviética após a divisão do país entre as nações aliadas, terminada a Segunda Guerra Mundial, mas havia sido estabelecida a Berlim Ocidental. E não era mais possível chegar lá por terra.

A Varig era o espelho de um Brasil que se modernizava, desde meados dos anos 50, e era a referência em transporte aéreo brasileiro. Seu serviço de bordo tornou-se famoso pela qualidade do que era servido e pela gentileza e eficiência de aeromoças e comissários de bordo. Não esqueço minha mãe contando que uma amiga vira o filme Tarde demais para esquecer, de 1957, no qual o galã Cary Grant servia à bela Deborah Kerr champagne rosé, e num vôo pela Varig resolveu perguntar se tinham essa bebida. O comissário pediu licença e instantes depois voltou com champanha cor-de-rosa. E a passageira, maravilhada.

Essa excelência de serviço se somava à de operação e por isso a Varig era a empresa preferida de muitos viajantes de todo o mundo. Seu declínio e quase ostracismo foi uma decepção para todos nós. Mas o pior ainda estava por vir.

De repente, acabou
Apesar dos percalços e de empresas tradicionais como Cruzeiro do Sul, Transbrasil e Vasp sumirem do mapa, outras como a TAM e mais recentemente a Gol passaram a ocupar os céus do Brasil e de alguns pontos no mundo. Passada a fase de acomodação, tínhamos de novo uma pujante aviação comercial no Brasil. O avião se consolidava como meio de transporte rápido, eficiente, seguro e — boa notícia — barato.

Podia-se contar com avião para viagens programadas com muita antecedência ou não. Por exemplo, era possível acordar no domingo e resolver, de repente, ir a outra cidade distante para um encontro familiar, como um almoço com a idosa mãe, e voltar para casa à noite. Era a coisa mais normal desse mundo. Ou marcar uma reunião de negócios com almoço no Rio para as 13 horas e pegar o vôo das 11h30 no aeroporto de Congonhas. A certeza de chegar a tempo era questão de mera aritmética.

Tudo ficou assim durante anos, mais de três décadas seguramente — até no dia 29 de setembro do ano passado acontecer um grave acidente, uma colisão aérea, no qual 154 pessoas pereceram. Foi como se alguém apertasse um botão para, da noite para o dia, toda a aviação comercial brasileira entrar em colapso. O mais revoltante foi saber que tudo, absolutamente tudo, foi causado por inconseqüentes controladores de vôo, que resolveram cruzar os braços à moda deles, especializada — ou seja, dar maior separação horizontal entre aviões por meio de maior tempo entre decolagens. Em vez de dois minutos, quatro e mesmo dez. Os atrasos aumentaram de modo exponencial, derrubando a malha área brasileira com um castelo de cartas.

O mais intrigante nessa história toda é a relação que se formou entre o acidente e o caos que se instaurou em nossa aviação comercial, pois a rigor um fato nada tem a ver com o outro. Como já apontado por esta coluna em duas ocasiões (14/10 e 4/11), a operação de controle de tráfego aéreo na região na hora do acidente falhou — deixou de evitar a colisão quando poderia tê-lo feito, isto está provado —, mas isso jamais poderia dar causa à mudança de atitude dos controladores que, cinicamente, alegaram "razões de segurança".

A atitude deixou transparecer a falta absoluta de profissionalismo, de respeito para com seus semelhantes-cidadãos, para com o dever a cumprir dessa categoria profissional e para com o Brasil, do qual provém seu sustento.

O mal que os controladores causaram, como um câncer que dá metátese, espalhou-se por todo o sistema aeronáutico brasileiro. Mas ainda pioraria muito com o grave acidente com o avião da TAM, dia 17 deste mês, que está provocando a derrubada total do sistema — igualmente sem nenhum motivo plausível para isso. De repente também os pilotos passaram a olhar com desconfiança para o aeroporto mais movimentado do país. Anos e anos pousando com e sem chuva (eu mesmo, passageiro, já pousei com chuva forte incontáveis vezes) sem nenhum problema.

Aqui vai uma crítica para a TAM: avião, para voar, tem de estar perfeito. Tudo bem que o cálculo de distância para o pouso não leva em conta o efeito de reversão dos motores, mas ele sempre ajuda, sem a menor dúvida, sobretudo com pista molhada. Por isso, e aí falo como piloto, voar com um dos reversores inoperantes é um erro. Não se pode dar nenhuma chance ao azar.

Para os brasileiros, o rápido e prático avião não é mais o meio de transporte mais conveniente, diante de tantos atrasos e cancelamentos de vôo inadmissíveis. A confusão nos aeroportos passou a ocupar lugar de honra nos noticiários.

Para os estrangeiros, tanto passageiros quanto companhias aéreas, voar para o Brasil passou de rotina a aventura, o que pode constituir perigoso fator de isolamento do país do resto do mundo, refletindo-se até em redução dos investimentos aqui. Coincidência ou não, General Motors e Honda acabaram de anunciar ampliação da capacidade de produção... na Argentina.

A indústria do turismo, que se vale em especial de vôos vindos do Sul e Sudeste brasileiro, dos Estados Unidos e da Europa, está seriamente afetada com o caos instaurado. O desemprego ronda o setor, algo desalentador.

Incredulidade
Como golpe final, a incredulidade ao ouvir a notícia de que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) proibiu a venda de passagens de avião por algum tempo. Milhares de pessoas estão tendo de recorrer ao transporte rodoviário na falta do aéreo.

Incredulidade também com a falta de comando do governo em um assunto tão sério, a começar pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, exonerado nesta quarta-feira. Sem contar o comportamento chulo da ministra do Turismo, Marta Suplicy, uma completa idiota ao proferir o já folclórico "Relaxa e goza", gozação suprema para cima de quem sofre nos aeroportos. Mas pior mesmo foi o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dizer que a crise no transporte aéreo se deve ao crescente volume de passageiros. Parece que ele parodiou antiga piada popular carioca de que "O mal da Central é passageiro".

A situação está tão grave que alguém disse dias atrás: "Eu, particularmente, toda vez que o avião fecha a porta, entrego minha sorte a Deus porque estou na mão de um comandante, que é um ser humano; estou na mão de uma máquina ultramoderna, mas que é uma máquina; estou na mão de um controlador, que diz quando devo parar ou não; e estou na mão das intempéries, que nem sempre o ser humano consegue controlar." Essa pessoa é nada mais, nada menos que o chefe da nação, o presidente Luiz Inácio L. da Silva, no discurso por ocasião da posse do ministro Nélson Jobim na pasta da Defesa. Entre outros absurdos, o presidente do Brasil — não é o meu presidente, como sempre deixei claro — desconhece que tempo se prevê e mau tempo se evita. Também...

O circuito que possibilita a existência do sistema de transporte aéreo no Brasil está interrompido. Até quando, só Deus sabe.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 28/7/07

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