Raiou o sol da liberdade

O Contran mostra responsabilidade, afinal, e volta
atrás na questão de mapas eletrônicos no painel

por Bob Sharp

Há muito que venho batendo nesta coluna sobre determinadas omissões ou erros por parte do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), o órgão nacional normativo por excelência que tem a dura missão de ditar as regras e regulamentos de trânsito. Uma dessas questões era justamente a insana proibição de ser exibido mapa eletrônico no painel a partir do posicionamento por GPS. O Brasil era certamente o único país do mundo em que o motorista ficava privado da importante orientação de como atingir seu destino. Agora, acabou: o órgão voltou atrás.

Esta coluna teve a informação oficial, nesta semana, de que finalmente o Brasil se desamarrou da estupidez de não ser possível o motorista ter, no painel, um mapa mostrando a região e as indicações para ir de um ponto a outro. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) está para publicar resolução a respeito a qualquer momento.

Carros importados enfim poderão ter os sistemas de navegação ativados e carregados com os mapas relativos ao Brasil. A indústria nacional de autopeças agora tem caminho livre para fornecer tanto a fabricantes como ao mercado de reposição, embora a primeira solução seja mais conveniente por ser o painel de um carro uma importante parte do projeto. Ficam, assim, os brasileiros livres da pecha de incompetentes, incapazes de ter a seu alcance visual, sentados no banco do motorista, um mapa para navegação — como se fossem "encher" o primeiro poste pela frente enquanto olhassem, deleitados, o mapa.

O que permanece proibido, com toda razão, é a reprodução de imagens no painel, seja por recepção de sinal de TV, seja por videodisco. É assim no mundo todo exatamente por razões de segurança. Ao contrário de um mapa de consulta rápida eventual — nem precisa na maior parte dos casos, porque existe instrução verbal pelo sistema —, assistir qualquer coisa na tela tira a atenção de onde se deve, que é a via à frente. É como querer ler e dirigir ao mesmo tempo, não dá mesmo certo.

No ano passado, quando avaliei o BMW 550i para edição de nono aniversário do Best Cars, pude ver como funciona a coisa lá. Assistindo ao Jornal Nacional enquanto preso no tráfego engarrafado em direção ao Salão do Automóvel, assim que o carro andava a imagem sumia, surgindo a informação do tipo "Para sua segurança, a imagem é desligada com o veículo em movimento", ficando apenas o áudio.

A ordem
A encrenca toda havia começado no final de 2003, quando o Contran publicou em 17 de dezembro a Resolução nº 153, que proibia imagens visíveis para os ocupantes dos bancos dianteiros, estando o veículo em movimento. O texto da resolução chegou à baixaria — só pode ser esse o termo — de exigir uma tampa para ser aplicada quando o carro estivesse andando. Imagine-se lá como seria essa tampa. Será que uma de tampa de caixa de sapato serviria? Ah, mas claro, poderia aparecer o mapa na tela... desde que o carro estivesse parado. E de forma regular, rezava o texto — já pressupondo que alguém fosse fazê-lo de forma irregular, como em plena faixa da esquerda de uma via de trânsito rápido. Demência total.

Entre as explicações e justificativas constantes da primeira Resolução sobre a questão de imagem no painel, a menção, a título de lembrança, de que as disposições do Código de Trânsito Brasileiro se aplicam a qualquer veículo, bem como aos proprietários de veículos nacionais ou estrangeiros. Será que alguém nesta santa terra realmente achava que nem todos têm de cumprir a lei? Isso cheirou a revanchismo misturado com inveja dos que tinham carros importados caros, que cada vez mais vinham com monitores no painel. Coisa típica de petista radical. Pegou mal.

No começo de 2006, o Contran — já sob novo comando, o de Alfredo Peres da Silva, pessoa que tem denotado ter bom senso — amenizou um pouco as coisas. A Resolução nº 190, de 1º de março, desobrigou a famigerada tampa sobre o monitor, mas a proibição de nele ser gerado um mapa continuou, para espanto da comunidade automobilística. Na prática, a nova resolução nada mudou. Continuávamos um país saiba-se lá de que mundo impedido de usar navegador por GPS como item integral ao veículo. Numa comparação, seria como se tivesse ficado proibido o uso da seta, devendo o ou a motorista fazer sinais com o braço — que, por sinal, ainda são válidos de acordo com código de trânsito em vigor.

O clamor contra a postura do Contran foi grande, tanto por parte de alguns veículos de comunicação e determinados colunistas, quanto pela própria indústria desses equipamentos, muitas operando no Brasil há muito tempo como fornecedoras da indústria automobilística. Na coluna de 10/2 deste ano falei bastante dos navegadores por GPS, como ajudam o motorista de uma maneira até poucos anos inimaginável. É uma tecnologia das mais bem-vindas e que veio para ficar. Era inadmissível ficarmos impedidos de usufruir desse avanço só porque algumas cabeças pararam no tempo.

Os navegadores portáteis continuarão úteis como antes, sobretudo pelo fato de acompanharem o motorista e não o veículo. Como o telefone celular. Podem ter utilidade até para o turismo interno, no caso de se sair a pé numa cidade grande que não se conhece, em que é comum a pessoa se perder. Ou no caso de se alugar um carro, usar um emprestado de amigo ou da mesma família que não tenha navegador no painel. Ou, ainda, ser passageiro de alguém que não possua o equipamento.

Parodiando nosso hino, o sol da liberdade — a de se ter um navegador no carro — brilhou no céu da pátria, em raios fúlgidos, com essa decisão do Contran.

Colunas - Página principal - Escreva-nos - Envie por e-mail

Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 30/6/07

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados