Falta de uniformidade

Regras de trânsito confusas só ameaçam a segurança

por Bob Sharp

Esta semana estive no lançamento da família Corsa com motor de 1,4 litro e, no percurso determinado pela General Motors, andamos por Bragança Paulista e Jaguariúna, no interior de São Paulo. Fora o verdadeiro inferno chamado lombada — algo a que os brasileiros parecem definitivamente condenados, enquanto cabeças idiotas permanecerem cuidando de assuntos de trânsito no Brasil —, pôde-se notar outro absurdo imensurável: parada obrigatória, com a devida placa de sinalização (Pare), na entrada das rotatórias.

Justamente uma solução que foi criada para evitar a parada nos semáforos e impor uma regra eficiente para a transposição dos cruzamentos, mas é solenemente ignorada por quem deveria se preocupar com trânsito, para isso se inteirando do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Para ficar claro, a rotatória exige que se dê preferência a quem já está nela — e dar preferência não é parar. Existe até placa própria para esse caso, que é o triângulo de bordas vermelhas e fundo branco. O próprio Código é claro a esse respeito, inclusive trata-se de infrações diferentes. É inadmissível que não haja uniformidade numa questão tão simples, mas que pode trazer problemas sérios. Sinalização e regras têm de ser uniformes no macro, ficando as diferenças regionais apenas para casos específicos. Por exemplo, no Rio de Janeiro as motos têm preferência na faixa mais à direita, enquanto em São Paulo a idéia é ser na esquerda (há uma faixa exclusiva para elas numa importante avenida).

O perigo, no caso das rotatórias, se dá de algumas maneiras. Por exemplo, quem está acostumado com dar preferência pode não perceber a placa Pare e entrar direto na rotatória, situação para um potencial acidente. Outro caso (como existe em Pindamonhangaba, cidade-sede do Best Cars) é a passagem totalmente livre na rotatória da avenida que leva da Rodovia Presidente Dutra ao centro da cidade. Quem é de fora pode estar rodando na rotatória e achar que a preferência é dele, quando não é. É outra situação das mais perigosas.

Essa ambigüidade de critério simplesmente não pode existir, e custa a acreditar que pessoas engajadas nos assuntos de trânsito desprezem essa questão importante. É só sentar e ler o diabo do Código, o que é bastante fácil de fazer.

Outro dia, a autoridade máxima de trânsito de São Paulo, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), respondeu a um leitor do jornal O Estado de S. Paulo que quem deveria fiscalizar a emissão de fumaça preta dos motores a diesel era o estado. Pois está redondamente enganado quem assinou a carta-resposta, ninguém menos que o presidente da CET, Roberto Scaringella: essa fiscalização cabe tanto ao município quando ao estado. Está no CTB.

Por aí pode-se ter uma idéia do grau de desinteresse misturado com balbúrdia das coisas do trânsito brasileiro. Nosso código é bom, como já ressaltei em diversas oportunidades nesta coluna, mas continua o eterno problema da falta de fazê-lo cumprir. Esse caso da rotatória é gritante.

Solução geral
Outro sério problema nosso é achar que semáforo é solução para tudo. Se um determinado cruzamento apresenta elevado índice de colisões, a solução hoje, invariavelmente, é a instalação de semáforo, como se esse equipamento existisse para essa finalidade. Na verdade, o semáforo serve para regularizar o tráfego de vias que se cruzam a partir de determinado volume, para que os motoristas que seguem por essas vias tenham oportunidade de tempo razoável para efetuar a travessia do cruzamento.

Não sendo necessário o semáforo — conclusão a que se terá chegado após estudo —, usa-se o princípio de preferência de quem vem pela direita do outro carro ou então a parada obrigatória para uma das vias. Digo sempre e repito: grande parte do tráfego congestionado está associada ao elevado número de semáforos. Os mais atentos notam que quando há falta de energia elétrica que afeta até os semáforos, o trânsito flui melhor do que quando funcionam, exceção, é claro, aos grandes cruzamentos, com grande volume de trânsito nas duas vias.

Digo, também mais uma vez, que as pessoas que cuidam de trânsito no Brasil precisam ir ao exterior e ver como eles resolvem esses e outros problemas lá. Problemas de frota numerosa e vias que não estão na mesma proporção atingem praticamente o mundo todo. Mas viajar para estudar mesmo, não para fazer turismo ou comprinhas. Quando viajamos e dirigimos no exterior é que nos damos conta de que como as coisas por aqui são atrapalhadas.

E que, por favor, não me venham com a já desgastada ladainha que no Brasil é diferente, que brasileiro tem características próprias ao volante. Nós não somos diferentes, autoridades (e governo) é que nos fazem diferentes. Por quê? Sinceramente, não tenho essa resposta.

Um pouco mais de dedicação e, sobretudo, interesse pode operar um verdadeiro milagre nesse nosso grande problema nacional chamado trânsito. Temos todos direito a um trânsito melhor.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 23/6/07

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