Mudança gradual

As cores ficam mais variadas e as irregularidades dos
carros vão acabando, para júbilo da coletividade

por Bob Sharp

Ainda ontem à noite tomei um agradável susto. Um carro branco parou a meu lado num semáforo, tinha todo jeito de novidade e não identifiquei sua marca de pronto. Mas logo depois vi que se tratava de um Ford Focus hatchback. A primeira coisa que procuro verificar ao ver um carro branco rodando na capital paulista é a placa e, quase invariavelmente, é de fora da cidade ou do estado. Mas esse Focus, para contrariar uma já antiga regra, era da capital paulista.

O fato apenas confirmou o que qualquer um pode notar: o reinado brasileiro do preto-prata, sobretudo em São Paulo, começa a desmoronar. Quem realizou o primeiro ataque foi a Fiat, com o Stilo Schumacher há cerca de dois anos, seguida pela VW com o Gol e, recentemente, a Honda com o Civic Si. A paisagem paulistana mudou.

Por coincidência, chegou aos computadores de todo o mundo notícia de pesquisa realizada na Austrália dizendo que os carros mais propensos a se envolver em acidentes são os pretos, e os menos, os brancos. Há muito que acompanho este assunto e sempre li a respeito das qualidades das cores claras no tocante a ser mais visíveis e, com isso, reduzir — não eliminar, é evidente — as possibilidades de envolvimento em acidente.

O leitor pode fazer um teste. É só procurar, no trânsito diário, ver qual cor salta mais à vista. Invariavelmente será o branco, o amarelo e o vermelho. Outra é o laranja, mas são bem poucos os carros com essa cor.

Há momentos em que ter carro de uma dessas cores faz toda a diferença. Numa rodovia, por exemplo, um daqueles caminhões mais velhos resolve cruzar a pista. Ele pára, como geralmente ocorre, e olha para os lados. As chances de o motorista desse caminhão ver um carro que se aproxima são muito maiores se o automóvel for branco, amarelo ou vermelho do que se fosse preto ou, dependendo das condições de iluminação, prata. O mesmo vale para os pedestres, agravado pelo fato de em regra não terem noção de velocidade. Ciclistas também entram nesse grupo, já que nem todo ciclista é motorista.

Ainda esta semana o editor do Best Cars, Fabrício Samahá, contou-me sobre a reação de vários motoristas na serra de Campos do Jordão, SP enquanto ele dirigia um Golf amarelo dos novos. Disse o Fabrício que sempre anda por ali com faróis baixos acesos durante o dia, até por se tratar de rodovia de mão dupla, mas que raramente as pessoas lhe dão passagem com rapidez — às vezes sem pedir, bastando a aproximação do Golf um pouco mais rápido — como aconteceu desta vez. Fácil relacionar o fato à vistosa cor do carro.

Cor é uma questão de preferência pessoal, seja por puro gosto — que não se discute — ou por achar que o carro será mais fácil de vender quando chegar a hora. Isso, lamentavelmente, ocorre com mais freqüência do que se imagina. A coisa chegou ao círculo vicioso: mais e mais pessoas comprando carro preto ou prata por esse motivo, mais e mais concessionárias só encomendando aos fabricantes carros com essas cores.

Já contei há tempo nesta coluna que, quando era gerente de imprensa da General Motors, uma mulher me telefonou perguntando qual o Corsa de cor mais vendida. Eu já sabia o porquê da pergunta, mas quis saber assim mesmo. É claro que era ter a menor dificuldade possível na hora da venda. Um contra-senso, adquirir um bem de consumo durável, caro, e privar-se de tê-lo na cor que mais agrada por pensar em ganhar uns trocados a mais quando for vendê-lo.

Existe um bar na Vila Madalena, em São Paulo, o Bossa Nueva, cuja parede do fundo como um todo (até o pé direito do ambiente é descomunal) é uma enorme foto da praia de Copacabana, no Rio, num domingo de muito sol em 1970. A foto parece uma paleta de cores, tal a variedade de cores dos milhares de veículos rodando e estacionados registrados pela objetiva da câmera fotográfica. Uma hoje rara beleza que dá um toque bem alegre ao trânsito, cujo efeito só pode ser benéfico. Quem puder, vá ao bar e veja a foto, vale a pena.

Quebra-mato
Outra tendência e mudança para ser festejada é o fim dos quebra-matos que, como o próprio nome diz, são para ser usados em meio a arbustos das trilhas — jamais no trânsito normal, por ser altamente contundente num atropelamento. O VW Crossfox modelo 2008 afinal abandonou o equipamento, acompanhando o que a Fiat havia feito há três anos na família Adventure. Vêem-se hoje menos veículos com quebra-mato do que há algum tempo.

Outro item que diminuiu muito a presença nos carros é o útil engate, que pelo uso desvirtuado e inaceitável, como protetor do pára-choque e item decorativo, se tornou uma praga nojenta em terras brasileiras. O pior, ou melhor, é que mesmo não sendo proibido, a regulamentação imposta pela Resolução nº 197 do Contran para a matéria assustou muita gente, pelo receio de multas e de retenção do veículo para regularização. O fato é se vê bem menos engates hoje, para satisfação da coluna e de quantos vêem no equipamento uma ameaça à integridade física das pessoas e ao próprio patrimônio.

Para a festa ficar completa, pelo menos numa primeira fase, falta só o Departamento Nacional de Trânsito determinar às autoridades estaduais e municipais de trânsito a efetiva fiscalização da transmissão luminosa mínima dos vidros dos veículos, fazendo valer a Resolução nº 73 do Contran em vigor há seis anos e meio. Essa não pode ser mais uma "lei que não pega".

Já se notam alguns carros recém-emplacados sem películas escurecedoras, mas são minoria. A quantidade de "carros-esconderijos" ainda é surpreendente e, por isso mesmo, preocupante. Até vidros de pára-brisa escurecidos têm sido mais vistos, esse o absurdo dos absurdos. Que seus donos tenham o mesmo receio do caso dos engates e providenciem a retirada das películas. Motorista tem que ser capaz de olhar o tráfego à volta sem restrição de visibilidade. A coisa é bastante simples.

O caminho para voltarmos a conviver com veículos enquadrados na legislação é longo, mas efeitos começam a ser sentidos. Ainda bem.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 16/6/07

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