Está faltando honestidade

Adulteração, flex, consumo: tudo leva a um estado de
confusão que contribui para lesar o consumidor brasileiro

por Bob Sharp

As recentes reportagens televisivas sobre adulteração de combustível deixaram o país atônito. É assunto longe de ser novo, mas o que se viu esses dias ultrapassa toda e qualquer imaginação. Foi descoberto, por exemplo, que um posto tinha dois tanques ligados a uma mesma bomba e o frentista podia "escolher" de qual tanque a gasolina seria retirada para ser fornecida ao consumidor. Uma gasolina, dentro do padrão, enquanto a outra continha bem mais álcool do que o especificado. Dependia da cara do freguês ou do carro — se flexível em combustível ou não — qual gasolina era eleita para ir para o tanque do veículo.

Isso só se tornou viável depois do advento do carro flex, que, como se sabe, funciona com gasolina e álcool puros ou misturados em qualquer proporção. Assim, o motor não "sente" a gasolina com mais álcool do que os 23% permitidos e obrigatórios hoje (dependendo das condições de oferta, o governo pode variar o porcentual entre 20% e 25%). Só quem sente a diferença é o bolso do consumidor, uma vez que o consumo aumenta.

Já contei nessa coluna que certa vez abasteci um carro de teste flex (um Citroën C3), escolhi gasolina e, uma vez cheio o tanque, o computador de bordo logo calculou a autonomia, como sempre baseado na média de consumo até ali. Pelo instrumento, eu tinha autonomia para 600 quilômetros, mas, ao reiniciar a marcha, menos de dois quilômetros adiante, a autonomia despencou para 430 km. O sensor de oxigênio no escapamento fez seu trabalho, deixando evidente que o veículo não fora abastecido com gasolina dentro da norma.

O álcool possui poder calorífico de 26,8 megajoules por kg (MJ), enquanto a gasolina tem 42,7 MJ. O álcool, portanto, tem apenas 62,7% do poder calorífico da gasolina, mas como a nossa tem hoje 23% de álcool, podemos dizer que ela só tem 39 MJ. Resulta que essa diferença diminui e nosso álcool mostra 68,7% do poder calorífico ante nossa gasolina — 70% em números redondos.

Com menor poder calorífico, resulta que é preciso mais volume de álcool para o motor funcionar corretamente, resultando em mais consumo do que com gasolina. Uma experiência que o Brasil conhece desde o final de 1979, quando surgiram o Fiat 147 e logo em seguida o Passat, ambos movidos pelo então novo combustível alternativo.

Porcentagem
Considerando o menor poder calorífico do álcool em relação à gasolina em 70%, com álcool o carro só roda 70% do que rodaria com gasolina. Dito de outra maneira, o consumo com álcool é 1 / 0,7, ou 42,8% a mais — não 30% a mais, como pode parecer à primeira vista. Por exemplo, numa viagem em que se gastariam 40 litros de gasolina, seriam consumidos 57 litros de álcool.

Para que o álcool valha a pena do ponto de vista financeiro, seu preço tem de ser no máximo 70% daquele da gasolina, se a diferença de consumo for mesmo de 30%. Se, por exemplo, a gasolina custa R$ 2,40 o litro, o álcool pode custar até 0,7 x 2,40, que dá R$ 1,68. Nessa situação, tanto faz abastecer com gasolina ou com álcool, em termos financeiros. Um empate, vai-se gastar o mesmo para rodar.

Com base nos números acima, um carro flexível que rode 12 km/l com gasolina ou 8,4 km/l com álcool terá o mesmo custo de combustível por quilômetro, exatamente R$ 0,20. Por isso é importante verificar os preços dos combustíveis antes de reabastecer e fazer a conta explicada acima, litro da gasolina multiplicado por 0,7. Se o álcool custar, por exemplo, R$ 1,40 o litro, o custo por quilômetro a 8,4 km/l cai para R$ 0,166 — 83% do que custaria rodar com gasolina, uma economia de 17%. Já se o álcool custasse R$ 1,80, o custo por quilômetro subiria para R$ 0,214. Com ele se gastaria mais 7% em reais.

O leitor pode ver que é muito importante analisar o porcentual da diferença de consumo com gasolina e com álcool, que nem sempre é de 70%. Os dados de consumo fornecidos pela Ford para o novo Focus 1,6 flex, por exemplo, indicam diferença de 66,6% na cidade e 67,3% na estrada. É importante salientar, por questão de justiça, que isso não é demérito como pode parecer. É que as melhorias aplicadas ao motor, como a taxa de compressão de 12,3:1, certamente fizeram reduzir ainda mais o consumo utilizando-se gasolina.

Esta semana viajei com o modelo ao Rio de Janeiro e deu para chegar sem reabastecer, um total de 455 km ponto a ponto. Como o tanque é de 55 litros e não chegou ao fim (cinco litros pelo menos ainda tinha, pois a luz de alerta de fim de tanque não acendeu), isso significa que o consumo ficou acima de 9 km/l, isso andando sempre no limite de velocidade mais a tolerância regulamentar de 7% dos equipamentos de medição (mas sem usar o ar-condicionado, não foi necessário). Portanto, um bom resultado diante dos 12,3 km/l informados, que são obtidos em laboratório segundo a norma brasileira NBR 7024, sabidamente muito branda.

Na viagem de volta, reabasteci em Barra Mansa, RJ, onde a gasolina estava por R$ 2,60 e o álcool R$ 1,79. Feita a conta 2,60 x 0,67, deu 1,74, ou seja, o álcool estava um pouco mais caro do que seria compensador. Esse é só exemplo de como o motorista de carro flex (que é mais de 80% das vendas hoje) pode tirar partido da flexibilidade mesmo que a vantagem seja insignificante, sendo por isso aconselhável deixar uma calculadora barata no porta-luvas. Mas, mesmo com a vantagem, há o inconveniente da menor autonomia com álcool.

Tudo isso cai por terra quando algum comerciante de combustíveis safado fornece álcool "aguado", com mais água do que os 7% regulamentares, o que certamente merece campanha de fiscalização por parte da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), por enquanto restrita à gasolina. Enquanto um litro de álcool pesa 0,79 kg, o mesmo volume de água pesa 1 kg. Toda bomba de álcool possui um densímetro que acusa peso específico diferente do álcool se contiver água a mais, ao que o consumidor deve ficar atento. Mas é possível que haja densímetros adulterados, e essa é mais uma missão para a ANP. Um pouco mais de água no álcool também passa despercebida pelo motor, se flex ou só a álcool.

Seria muito bom que esse quadro de honestidade em baixa mudasse.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 26/5/07

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