Essas coisas tolas

As pequenas más atitudes são como formigas: se
numerosas, podem derrubar uma gigantesca sequóia

por Bob Sharp

Esta semana fui fazer minha fezinha na Mega Sena na casa lotérica aqui perto de casa, uma loja sob um prédio de apartamentos, não muito alto e já meio antigo, no bairro de Moema, em São Paulo. Ao chegar à loja, um carro — Palio preto, de vidros com películas e engate, mas isso não quer dizer que seja preconceito meu — tinha acabado de estacionar antes de mim. Na larga calçada defronte há demarcação de lugar de estacionamento para dois carros.

O leitor já deve estar adivinhando: o sujeito parou como avião taxiando, a linha divisória bem no meio do carro dele. Ou seja, senhor absoluto, dono da rua, ocupando duas vagas. Dei o toque de buzina e gesticulei com sinal de "duas". O idiota fez cara feia — "esse f....... estragou meu prazer", deve ter pensado —, mas voltou ao volante e manobrou o possante, ocupando uma das vagas, que é o que deveria ter feito logo de primeira. Na loja, ainda de cara feia, fez sua fezinha também, pagou e foi embora.

Mas sou capaz de apostar que ele não entendeu a mensagem, ou se entendeu fingiu que não, e vai continuar a fazer isso. Afinal, ele é o bom, não é?

Esse é apenas um dentre centenas de casos em que o desrespeito e/ou a ignorância de motoristas faz de nosso dia-a-dia na rua um inferno. Sem querer dar uma de psicólogo, tenho certeza de que, para muitos, estar dirigindo um carro é a própria manifestação de poder. Se for mesmo isso, não existe postura mais idiota nesse mundo de Deus e muita pouca fé resta na humanidade.

O velho provérbio "Não faças aos outros o que não queres que te façam" devia ser mensagem obrigatória em todo automóvel, da mesma forma que o "Fale ao motorista somente o indispensável" nos ônibus. Ou, numa visão hodierna, ser a primeira mensagem a aparecer no head-up display (mostrador elevado projetado no vidro do pára-brisa) que começa a se disseminar nos automóveis.

Todo-poderoso
É muito comum nos grandes centros, naquelas vias de trânsito rápido de pelo menos três faixas de rolamento. Você vem andando normalmente e há um carro na faixa à sua direita. Já bem perto dele, você o vê dar seta para esquerda e esboçar sair. Aí você, numa atitude gentil, colaborativa, tira o pé do acelerador para lhe dar espaço. Em vão: esse motorista não está acostumando com gentilezas desse tipo e desiste da manobra. Mas não importa, procuro fazer isso sempre, pois gosto quando sou eu a receber a gentileza.

Quase todo mundo já passou pela experiência de alcançar um veículo mais lento na estrada e se preparar para ultrapassar, quando quem está atrás começa a manobra antes. Você completa a manobra assim mesmo, mas o nervosinho atrás pisca os faróis. Claro que ele, o todo-poderoso, achou que era quem tinha direito, pois tinha começado a ultrapassar antes de você e era sua obrigação dar-lhe preferência. Só que você e ele vinham à mesma velocidade e, portanto, você é que está comandando a ultrapassagem, não ele.

Caso semelhante é quando, de repente, o tráfego fica lento numa rodovia de duas faixas e se nota a da direita impedida por qualquer motivo. Em vez de todos que estão nesta faixa continuarem até o ponto da interrupção e só então mudar de faixa, muitos espertalhões já começam a mudar de faixa muito antes, querendo se livrar da lentidão. Só que ao fazer isso eles engrossam a faixa da esquerda e toda a corrente de tráfego acaba ficando mais lenta.

Ao estacionar ao longo do meio-fio (guia da calçada, em algumas regiões), seu julgamento diz que há espaço para dois carros. Você, como motorista que colabora com os "colegas", ocupa apenas uma. Isso você, que tem a consciência de fazer parte de um complexo sistema de trânsito. Só que não é todo mundo que pensa assim — aliás, bem poucos. O que acontece é o individuo estacionar sua máquina de tal maneira que não caiba outro carro nem atrás, nem na frente. Uns fazem isso de modo inconsciente; outros, não.

Os que fazem isso intencionalmente estão sempre no mesmo grupo — ou são os próprios — dos que colocaram "respeito na traseira do carro", isto é, um engate. Para eles, parece que nada é mais importante na vida do que o rico pára-choquinho intacto. Nem é o caso de bater, mas se alguém encostar na traseira do infeliz, certamente danificará o pára-choque dianteiro ou algum elemento dele, como a placa de licença.

Ainda no tema poder, há a questão do pedestre, considerada plebe na cabeça (oca) de muitos motoristas, que se esquecem de que também são pedestres. Assim, desrespeitam-nos costumeiramente, por exemplo, ao sair da garagem para ganhar a rua e cruzar a calçada sem olhar que tem gente caminhando nela. Quando um motorista consciente, ao dobrar uma esquina, pára para um pedestre que está atravessando a rua, muitas vezes escuta a buzinada do carro de trás. Mais do que um pedestre, trata-se de uma vida humana — e quem dirige precisa respeitá-la ao máximo sempre, em qualquer situação.

Da capital federal vem o bom exemplo: pedestre levantou a mão e pôs o pé na faixa de segurança sem controle semafórico, os carros param. Se funciona lá pode funcionar em qualquer ponto do Brasil.

Podem parecer coisas tolas, mas, se cada um fizer a sua parte, será bom para todo mundo. É só começar que as sequóias ficarão de pé.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 19/5/07

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