Só o volante

Muitos preferem o comando de buzina no volante, mas
será que isso faz diferença na direção defensiva?

por Bob Sharp

Ainda esta semana discutíamos, entre um grupo de amigos que se falam todos os dias o dia inteiro trocando e-mails, sobre a questão de onde é o melhor lugar para o interruptor de buzina, se no volante ou fora dele, no caso na alavanca do indicador de direção. Sou meio sozinho nessa questão, ao preferir na alavanca em vez no volante, talvez por ter aprendido a dirigir num Citroën 11 de um tio, que foi meu grande instrutor. Cheguei a dizer que o volante é um peça sagrada, só ele e mais nada.

Um desses amigos condena o interruptor na alavanca e comentou até ter havido ocasiões em que o interruptor no volante foi providencial, pois impediu que o outro motorista fizesse uma besteira. Quando li isso, pus-me a pensar: e se esse tal motorista fosse surdo ou estivesse com o volume do equipamento de áudio muito alto? Teria havido acidente? Acredito que sim.

Isso traz à baila a questão da decantada direção defensiva. Muito mais do que uma técnica, considero-a uma atitude. O mais engraçado que desde os primeiros quilômetros ao volante sempre tive o hábito de dirigir com essa atitude. Acho que vim ao mundo "programado" para isso. Dirigir na defensiva é como um jogo de adivinhação, do tipo, "O que será que aquele sujeito pode fazer?", ou "E se alguém entrar na curva, desgarrar e vier para cima de mim?". São pensamentos que me assolam o tempo todo em que estou no banco do motorista, mas sem que eu fique impedido de fazer outras coisas, como falar com quem está no carro ou no outro lado da linha. É um processo contínuo. Não vá pensar o leitor que sou pessimista, pelo contrário, sou otimista até demais em tudo na vida.

Quando vou passar sob um viaduto, por exemplo, sempre olho para ver se há alguém na mureta, em atitude suspeita. São mais do que conhecidos casos de pessoas jogarem pedras nos carros que passam debaixo — por pura maldade ou para correr e assaltar o motorista que parou adiante. Há até placas avisando sobre o problema e pedindo para entrar em contato com a polícia, com o número informado na placa. Há alguns anos, um motorista de ônibus da Viação Cometa morreu ao receber uma dessas pedradas, que varou o pára-brisa. Isso foi numa das excelentes vias rumo noroeste de São Paulo, a Anhangüera ou a Bandeirantes.

Se vejo que há pessoas lá em cima, acelero tudo, pois desse modo aumentam as chances de a "balística" do marginal falhar e uma pedra atirada não me atingir. Se houver um radar sob o viaduto e eu for autuado por excesso de velocidade, paciência, depois tento justificar, mas felizmente isso nunca aconteceu.

Um caso típico, que o leitor pode constatar: veículos de serviços públicos, como os caminhões do corpo de bombeiros, têm preferência de passagem sempre, inclusive nos cruzamentos, com semáforo ou não. Mas notem como eles, apesar de todo o escarcéu das sirenes atuais, das luzes giratórias ligadas e outras piscantes na dianteira, diminuem a velocidade diante de possível tráfego transversal, algo que efetivamente não precisariam fazer à luz do código de trânsito. Isso é o quê? Direção defensiva, sem nenhuma dúvida.

Cruzamentos
Certa vez li um relatório da Administração Nacional de Segurança de Tráfego dos Estados Unidos que falava do aumento de acidentes em cruzamentos rodoviários e ferroviários, nas chamadas passagens de nível abertas. Estudos mostraram que por estar cada vez mais o motorista isolado auditivamente do tráfego à volta, em razão da boa climatização e dos excelentes sistemas de áudio dos carros atuais, sirenes de bombeiros, ambulâncias e carros de polícia, bem como as buzinas das locomotivas, são cada vez menos ouvidas pelos motoristas. Precaução, então, era a palavra de ordem — razão mais do que suficiente para não nos escorarmos na buzina para evitar uma colisão ou um atropelamento.

O mais curioso é que a direção defensiva muitas vezes não é para a própria defesa. Há um caso que talvez já tenha contado nesta coluna, mas vale a pena repetir. Via Dutra, um pouco antes de chegar a Aparecida, sentido Rio de Janeiro. Saio para ultrapassar uma carreta e, pouco antes de começar a emparelhar com ela — a diferença de velocidade era de uns 30 a 40 km/h —, vejo outra carreta, na mesma faixa da direta, freando forte para entrar num posto de abastecimento. Não vinha nada atrás de mim e freei meio forte, o que o motorista que eu ia ultrapassar logo entendeu, vindo imediatamente para minha faixa. Um acidente de dois caminhões, certamente bem grave, foi evitado. Pelo meu julgamento, daria para eu concluir a ultrapassagem com segurança, mas o caminhão que eu havia acabado de ultrapassar ficaria sem espaço de manobra.

Depois de passado o perigo, ele voltou o mais rápido que pôde para a faixa da direta e seu agradecimento até hoje não esqueço — gestos com a mão, buzina, faróis relampejando.

Sempre procuro passar em casa e para o círculo de amigos essas noções de direção defensiva, ficar permanentemente tentando adivinhar o que pode acontecer no trânsito do dia-a-dia. Qualquer fato anormal, um ônibus parado, tudo é motivo para ficar preparado para parar o carro. Uma situação muito comum é vermos um carro tentando sair da calçada após ter deixado a garagem, já meio que embicado para a rua. Muitos motoristas buzinam nesse momento, enquanto eu prefiro tirar o pé do pedal do acelerador e encostá-lo no do freio ou frear levemente, dependendo do quadro.

Isso sem contar uma velha regra brasileira que, felizmente, parece estar diminuindo: buzinar para pedestres e frear com tudo para cachorros...

Certa vez, numa cidade do Vale do Paraíba, eu e a família acompanhávamos um carro dirigido por um motorista local, rumo a um clube onde se realizaria um casamento. Como é comum na região, o tráfego de bicicletas é intenso, e nessa cidade não é diferente. Pois bem, o que o tal sujeito buzinava cada vez que passava por uma bicicleta ultrapassa a mais fértil imaginação. Eu, minha mulher e os dois filhos não sabíamos se era para rir ou para chorar diante daquele comportamento completamente absurdo e anti-social. E não era um toque breve, cortês, na buzina, não, mas um toque intermitente durante alguns segundos, dois ou três. Isso a cada bicicleta, que eram muitas.

Buzina, só para breves toques, uma comunicação com o outro motorista, até para agradecer uma gentileza. Para evitar acidentes, é melhor fazer de conta que ela não existe. Por isso, para mim tanto faz onde esteja o interruptor, mas que o toque pode ser mais bem modulado quando ele fica na alavanca da seta, isso é irrefutável. Além de ficar estacionário, sempre no mesmo lugar, e não girando junto com o volante — com exceção do Citroën C4, cujo centro do volante é fixo é só o aro gira, mas que não considero uma boa solução.

Se dirigir fosse religião, o volante seria o altar do templo. Só ele e mais nada.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 12/5/07

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