Fora de foco

Estudo sobre acidentes divulgado pela Volvo surpreende e
decepciona, ao não ir a fundo no grave problema do trânsito

por Bob Sharp

A Volvo do Brasil, fabricante de caminhões e ônibus sediada em Curitiba (a Volvo dos automóveis é a Volvo Cars, pertencente à Ford, e não tem fábrica aqui), ajudou a divulgar há alguns dias resultado de pesquisa que, em princípio, merece todo o aplauso e que interessa a quem se preocupa com o destino dos jovens e, por que não, do Brasil.

A pesquisa, denominada "O Jovem e o Trânsito", foi realizada em cinco regiões brasileiras e revelou, entre outros pormenores, que o jovem tem consciência de que é imprudente ao volante, mas não se considera peça importante na redução de acidentes, o que é no mínimo intrigante.

O levantamento foi realizado pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) por solicitação da Volvo através do Programa Volvo de Segurança no Trânsito (PVST), da Perkons (empresa de equipamentos de fiscalização eletrônica), do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot). Foram entrevistados 1.000 jovens entre 16 e 25 anos de 66 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes.

O relatório da pesquisa será encaminhado à Organização das Nações Unidas/Organização Mundial de Saúde, em Genebra, na Suíça. O objetivo, obviamente, é desenvolver ações que contribuam para a redução do número de acidentes e mortes envolvendo jovens.

Toda pesquisa que procura analisar fatos relacionados a problemas graves é bem-vinda, mas neste caso se nota que a raiz do problema foi deixada de lado. Essa raiz se chama sistema de trânsito brasileiro. O mais estranho, entretanto, foi uma empresa privada do ramo de equipamentos de fiscalização eletrônica, a Perkons S.A., de Colombo, PR, a 70 quilômetros de Curitiba, ter participado do pool de empresas que patrocinaram a pesquisa.

Estranho porque perguntas podem eventualmente ter sido feitas visando o interesse da empresa, induzidas aos entrevistados com a intenção de favorecê-la de algum modo. A pesquisa revelou, por exemplo, um "descrédito dos jovens em relação às autoridades de trânsito e a falta de respeito às leis". Do total de entrevistados, 55% declarou que a fiscalização eletrônica é mais eficiente que a feita por agentes de trânsito. É esquisito.

Esquisito porque a Perkons produz a atual parafernália de fiscalização que, mais do que salvar vidas, engorda o caixa de prefeituras, estados e governo federal com as mais injustas e descabidas multas de trânsito. Logo a odiada fiscalização eletrônica (não só aqui como também no resto do mundo), que leva até a acidentes dos mais graves, como o da rodovia BR-381 Fernão Dias em dezembro (comentado nesta coluna quase um mês atrás — Autoridades alienadas), foi tida como "mais eficiente" que a feita por agentes de trânsito, quando é justamente o contrário. E, com certeza, o resultado da "pesquisa" será usado como argumento de venda dos equipamentos "dedo-duro" a prefeituras, governos estaduais e departamentos de estradas de rodagem.

Todo mundo (no sentido amplo) sabe que a fiscalização eletrônica é a versão hodierna da galinha dos ovos de ouro das autoridades de trânsito, nas três esferas de administração. É só instalar o equipamento para se começar a ouvir o plim-plim das caixas registradoras. Todos hão de convir que é muito mais cômodo encher as ruas e as estradas com tais equipamentos do que efetuar um patrulhamento responsável e digno — que a Constituição Federal nos assegura, só que dá um trabalho danado...

Enquanto isso, os acidentes continuam a crescer em números alarmantes, dirigir fica cada mais parecido com o que se descreve como o inferno. E nada parece sensibilizar quem realmente deveria se preocupar com esse estado de coisas.

Dados da pesquisa
Vamos ver alguns dados da pesquisa. Para 88% dos entrevistados, o jovem dirige mais depressa. Destes, 39% acreditam que o que impulsiona este comportamento é a adrenalina e 30% acreditam que é a bebida. De acordo com os resultados da pesquisa, para 86% dos jovens entrevistados o comportamento de risco no trânsito é intensificado quando o jovem está em grupo de dois ou mais amigos.

Dados de 2005 do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) demonstram que, dos 26.409 mortos em acidentes no país, 7.132 tinham entre 18 e 29 anos, ou seja, 27%. No entanto, o jovem não pensa que ele, como motorista, é o responsável pela redução dos índices de acidentes de trânsito. Apenas 10% dos entrevistados que já se envolveram em acidentes declararam, em respostas espontâneas, que o motorista jovem é o responsável pela redução de acidentes. Apesar disso, 37% acreditam que o motorista é o responsável pela queda desses números. Entre os que já se envolveram em acidentes de trânsito, 57% declaram que o motivo dos acidentes é imprudência do motorista, seguida do excesso de velocidade, com 15% das respostas, e pela bebida, com 9%.

O mais intrigante nisso tudo é que em nenhum momento foi tocado no grave problema brasileiro que são as vias de trânsito, com erros gritantes de traçado (parece que nem temos engenheiros capazes de fazer ruas e estradas) e sinalização caótica. Também não se falou no flagelo nacional chamado lombada, ou ondulação transversal. A coisa chegou a tal ponto que a noção de responsabilidade de trafegar em velocidade compatível com a situação simplesmente desapareceu: onde não há lombada, pode-se acelerar à vontade. Os imbecis que advogam a lombada conseguiram acabar com o pouco de responsabilidade que restava ao motorista brasileiro.

Na divulgação do relatório foi falado também nos jovens com menos de 18 anos que dirigem, portanto sem serem habilitados, e há uma citação da coordenadora da pesquisa, a pedagoga Nereide Tolentino, dizendo que os pais são coniventes com "esse comportamento imprudente" ao ensinar os filhos a dirigir. Mas ela não falou no absurdo que é a preparação do candidato à habilitação, que recebe o documento e não tem a menor condição de dirigir.

Só para dar um exemplo, no fim de semana passado minha cunhada, motorista nova, veio me mostrar o carro que ela havia comprado — o primeiro — e fomos dar uma volta, ocasião que serviu também para eu avaliá-la ao volante. Pois bem, ela mal sabe movimentar o veículo e não tem noção de posicionamento na corrente de tráfego. Chegou a avançar uma placa "Pare" como se ela não existisse. Sem contar a operação em si do veículo, em que engatou primeira em vez da terceira duas vezes num pequeno percurso. Ela nunca seria culpada de um acidente, mas vítima. Vítima de um sistema de aprendizagem que, há tempo, não atende mais as necessidades de tráfego e me atrevo a chamá-lo de criminoso.

É por isso que, embora seja crime de trânsito, as chances de uma pessoa vir a dirigir melhor aprendendo com os pais são muito maiores do que se apenas aprender num centro de formação de condutores o suficiente para passar no exame. É lamentável, mas é verdade.

Todo nosso sistema de trânsito está realmente fora de foco. Até quando?

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 5/5/07

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