Em busca da perfeição

Há muito para a imprensa se aprimorar na precisão de
informação, e não só a que escreve sobre automóvel

por Bob Sharp

No dia 7 de abril comemora-se o Dia do Jornalista, uma boa ocasião para falar sobre precisão de informação e de dados. Pode parecer bobagem ou mero preciosismo meu querer corrigir o mundo, mas o que essa classe profissional por essas plagas anda escrevendo ou falando errado hoje em dia, especialmente sobre assuntos de automóvel, preocupa.

Por exemplo, já toquei nisso diversas vezes nesta coluna, procuro falar com colegas da imprensa a respeito, mas parece que não tem jeito: tudo leva a crer que não existem mais fábricas de automóveis no Brasil: são todas montadoras agora. Quisera eu entender.

Outro dia me chegou um informativo da Porsche América Latina a respeito do desempenho da matriz na Alemanha. Veio em inglês, espanhol e português. Os dois primeiros se referiam à empresa como fabricante. Não preciso dizer como estava na versão em português. Dei-me ao trabalho de explicar à eficiente assessora de imprensa do escritório de Miami da Porsche que o termo estava errado, o que ela logo entendeu. De lá para cá a Porsche é tudo, menos montadora.

"Que cara chato", pode o leitor me julgar. Mas o fato é que, ao trocar fábrica por montadora, os novos leitores ou os jovens que estão começando a se interessar por automóvel terão uma visão distorcida da indústria automobilística, o que está longe ser adequado.

Vamos sair dos carros e ir para o geral. É mais do que sabido que jogos olímpicos sempre são relacionados a cidades. Olimpíadas de Atenas, Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, e por aí vai. Em alguns meses teremos o Pan do Rio de Janeiro. Será mesmo? Não para a TV Globo, que quebrou a longa tradição e resolveu inventar o "Pan do Brasil". Por quê? Se algum leitor souber me diga, pois não tenho a menor idéia.

Nesta semana houve o final feliz da libertação, pelo governo do Irã, dos 15 militares britânicos presos em águas territoriais daquele país, em que muitos temiam pelo pior. Pois não é que as emissoras de televisão Globo e Bandnews só falavam em marinheiros? Os militares eram marines, palavra em inglês para fuzileiro naval. Enquanto marinheiro é tripulante de navio e não se envolve em combate fora da embarcação, fuzileiro naval é um militar integrante das forças armadas, de operação sobretudo anfíbia e sob autoridade da Marinha de Guerra. E toca a falarem em marinheiros britânicos...

Sei que não é fácil dominar um idioma estrangeiro, mas os redatores dos jornais e emissoras de rádio e televisão têm de se empenhar mais em passar a notícia correta ou falar os nomes de maneira certa.

GP Brasil
Houve um grande jornalista gaúcho radicado no Rio de Janeiro chamado Heron Domingues (1924-1974), locutor do Repórter Esso, noticiário da Rádio Nacional e depois das TVs Tupi e Globo. Pois ele tinha a pachorra de contatar as representações diplomáticas para saber como se pronunciava corretamente os nomes dos chefes de estado e autoridades estrangeiras. Um exemplo de profissionalismo a ser seguido.

Em tempo de Fórmula 1 no Brasil, o que sai de "GP Brasil" não é brincadeira. Só que esta é a prova máxima do turfe brasileiro, o Grande Prêmio Brasil, realizado anualmente no início de agosto no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro. A prova automobilística se chama Grande Prêmio do Brasil, assim como existem os grandes prêmios dos outros países. Será que essa turma nunca vai se tocar?

E o que dizer dos numerais ordinais, que praticamente desapareceram da imprensa? Trigésima segunda delegacia policial, por exemplo, agora é delegacia policial de número trinta e dois e ponto final. A GM divulgou esta semana a produção do 25.000° (vigésimo quinto milésimo) Prisma, mas em vez de usar o numeral ordinal escreveu o "Prisma 25.000". É mais difícil o certo? Sem dúvida, mas é dever de cada um de nós que escreve não deixar morrer essa forma de exprimir quantidade. Se não for usada, morre mesmo. Como o "montadora" que a imprensa mundial não utiliza, a qual só se vale dos numerais ordinais. Seriam os brasileiros inteligentes e os estrangeiros burros?

Outro caso é o de muito locutor de rádio falar em "problema de enchente no ca-eme (km) 25" da rodovia tal. Seria sua obrigação dizer "no quilômetro 25". Quando se trata de peso, a maioria não costumar falar "quilos" em vez de "ca-gê" (kg)? Mas novamente incorre em erro quem escreve quilos, que deve se restringir à linguagem coloquial. Na linguagem escrita deve ser quilogramas ou kg. Vale o mesmo para os cavalos-vapor (cv) dos motores, que muitos escrevem cavalos, como comentou o editor Fabrício Samahá no editorial da edição passada.

Outro assunto que me incomoda é exprimir consumo de combustível como quilômetros por litro. Na verdade, isto é quilometragem, com fazem acertadamente americanos e ingleses com seu mileage, milhagem numa tradução livre. Lá falam em milhas por galão. Consumo, na acepção da palavra, é volume de combustível para percorrer determinada distância, como fazem os europeus e, até onde sei na América Latina, os argentinos. O utilizado nessas regiões é litros por 100 quilômetros (l/100 km). É claro que no fim dá no mesmo se dividirmos 100 pelo consumo "deles", por exemplo, 8 l/100 km: 100 dividido por 8 dá 12,5 km/l. Mas é uma questão de precisão de expressão apenas.

Lembro-me que quando era editor técnico da revista Oficina Mecânica, no início dos anos 90, propus ao editor-chefe e um dos donos da editora, Josias Silveira, passar a publicarmos juntas as duas formas de exprimir consumo, como maneira de facilitar ao leitor de publicações estrangeiras a comparação com carros de fora e os daqui. Para quê? Tomei uma bronca daquelas, por pouco não fui chamado de doido por meu chefe e amigo...

Como digo sempre, perfeito ninguém é, mas perseguir a perfeição deve ser o objetivo maior de todo profissional, não importa o campo.

Nesse Dia do Jornalista, é um caso a pensar.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 7/4/07

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