Educar sempre resolve

A série televisiva produzida pelo Denatran pode
render bons frutos, mas deve ser aprimorada

por Bob Sharp

Esta semana me mandaram um vídeo, feito a partir de uma câmera de bordo, que mostra um veículo militar — certamente um Hummvee do exército americano — trafegando por uma movimentada avenida de pista dupla de Bagdá. O veículo militar pedia passagem, buzinava e devia estar com faróis ligados, mas os donos da esquerda não estavam nem aí — onde será que já vi essa cena? O Hummvee, então, dava uma leve encostada no carro da frente, com o que seu motorista prontamente fazia o que era sua obrigação, antes de mais nada dar passagem quando solicitado.

Três fatos ficaram patentes no vídeo. Primeiro, essa atração que muitos motoristas têm pela última faixa da esquerda e que ficou evidente não ser coisa apenas nossa. Tem de haver uma explicação para isso à luz da psicologia, talvez algo ligado à sensação de importância, de que ficar na esquerda dá status. Só pode haver. Segundo, vários carros que aparecem levando o toque do veículo militar são Passats de quatro portas, o que tornou o cenário bastante familiar (a Volkswagen exportou 170 mil Passats para o Iraque na década de 1980). Faz bem a nosso ego ver tantos "Brasili", como é chamado o Passat pelos iraquianos, rodando em terras outras.

Terceiro e inacreditável, a qualidade do asfalto — liso, perfeito. A imagem não tremia, apesar de a câmera estar montada num veículo militar, de suspensão mais dura do que a dos automóveis de uma maneira geral. Isso em Bagdá, cidade de um país onde se desenvolvem operações militares há exatos quatro anos. Enquanto isso, temos de enfrentar um piso em absoluto inaceitável na maioria de nossas cidades.

Mas essa questão do comportamento do motorista, brasileiro no caso, começa a sair da esfera do consagrado para a de que é imperativo mudar. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) iniciou sábado passado uma série de programas semanais de TV, num total de 20, destinada à educação do motorista e sua conscientização a respeito de seus deveres. Uma iniciativa que merece todo o aplauso, sobretudo por utilizar o notável meio de comunicação que é a televisão. O programa se chama, apropriadamente, Trânsito Consciente.

A série vai ao ar pela TV Cultura de São Paulo e coligadas no País, sempre às 13h, neste sábado (24) e nos 18 seguintes. O alvo principal do programa são os jovens, e por isso foi escolhido o apresentador Gabriel o Pensador, conhecido cantor, buscando melhor identificação com a juventude.

As falhas
O primeiro programa do sábado passado, contudo, teve falhas que, naturalmente, podem ser atribuídas a cumprimento de prazos exíguos e inexperiência, mas nada que não possa melhorar. O roteiro foi um tanto estranho, como mostrar os dois Brasis em termos de tráfego, o urbano e o rural. Até aí, tudo bem, é sempre importante olhar os dois lados de toda questão, mas o "outro" Brasil era o transporte por... charrete. É claro que elas existem, mas será que não seria melhor mostrar trânsito de veículo motorizado mesmo nas regiões afastadas? Por exemplo, mostrar a charrete parando diante uma placa de parada obrigatória ou sinalizando com a mão a intenção de dobrar.

Se ao menos fosse realçada a necessidade de mesmo quem conduz charrete saber que faz parte do trânsito e observar as regras, tudo bem, mas nem isso. O roteiro se limitou a falar sobre o dia-a-dia de uma dona de casa que usa charrete para transporte da família. Esse, definitivamente, não é o problema do trânsito brasileiro.

Em outra parte do vídeo, aparece um pai de família saindo de casa para o trabalho levando a mulher, pois trabalham juntos, mais o filho pré-adolescente para a escola. É mostrado, como deve ser, o garoto no banco traseiro atando o cinto, mas no trajeto a câmera mostra o motorista efetuando curva na cidade e, acredite quem quiser, ele pega o volante com a mão esquerda espalmada para virar à direita.

Ou seja, pura falta de consultoria técnica na tomada de imagens, pois o alcance da TV faz das imagens uma aula natural e sobretudo eficaz. A mania de pegar o volante por dentro é um dos maiores erros ao dirigir e impressiona como está disseminada. Inclusive, há quem ache que usar o volante de direção dessa maneira é sinal de desembaraço, de experiência no banco do motorista.

Antes que algum leitor ou leitora (noto que as mulheres fazem mais isso do que os homens) pense em me mandar um e-mail desaforado, só faço uma pergunta: e se, na hora em que a mão esquerda estiver espalmada comandando a curva à direita, for preciso fazer um desvio rápido para a esquerda? A ação não será tão rápida e precisa, ao contrário do que ocorreria se as duas mãos estivessem sendo usadas de maneira efetiva e convenientemente afastadas.

E os erros na produção foram se sucedendo, como uma mãe tirar o filho pequeno do carro e não focar o banquinho (o corte de imagem foi tardio), um equipamento que faz toda a diferença em caso de colisão ou capotagem. Ou um ciclista trafegando tranqüilo no acostamento pela contramão.

Mas, repito, todo o aplauso para o Denatran, que, desde que passou a ser dirigido por Alfredo Peres da Silva, no início do ano passado, tem dado mostras estar caminhando na direção certa. Isso apesar de alguns deslizes do Contran (Conselho Nacional de Trânsito), órgão que também preside, como continuar a ser permitido trafegar com engate sem se estar rebocando alguma coisa.

Todavia, uma iniciativa como essa, que pode ajudar a poupar milhares de vidas e a evitar lesões graves como a paraplegia ou a tetraplegia, tinha de ser exibida em cadeia nacional e em horário nobre, tamanha sua importância. Se o governo Lula fez aquela ridícula campanha do desarmamento, que consumiu meio bilhão de reais — nossos, é bom lembrar —, poderia perfeitamente impor transmissão obrigatória e simultânea em todas as redes de televisão.

Jeito o Brasil tem, mas é preciso pensar com clareza as respeito das grandes questões nacionais.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 24/3/07

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