Bush veio. E daí?

A espalhafatosa visita ao Brasil não deu em nada para
nós, a não ser tumultuar a vida dos paulistanos

por Bob Sharp

O etanol está na ordem do dia. Aqui estamos mais acostumados a chamar o combustível produzido a partir da cana-de-açúcar simplesmente de álcool. Convenhamos, fica mais simpático dizer 'carro a álcool' do que 'carro a etanol'. Mas não importa, é a mesma coisa, embora etanol diga com mais precisão do que se trata, pois 'álcool' sozinho não quer dizer nada — tem de ter o complemento 'etílico'. É isso o que etanol é, ethyl alcohol, abreviado ethanol lá. Aliás, pouca gente sabe que o nome completo do álcool a venda nos postos é álcool etílico hidratado carburante (AEHC). Há outro álcool, o anidro (sem água), que é misturado à gasolina, chamado álcool etílico anidro carburante (AEAC).

Na visita de Bush falou-se muito em "Opep do álcool" — bem que poderiam ter aproveitado e criado o termo Opea, Organização dos Países Exportadores de Álcool —, mas na prática nada de concreto ficou resolvido, fora as habituais assinaturas que raramente dão em alguma coisa de concreto ou delas pouco se sabe. Os americanos continuam a taxar o álcool brasileiro em US$ 0,14 o litro, disso não querem saber de abrir mão. "Isso é com o Congresso", esquivou-se Bush, num estilo parecido com outro nosso, bem conhecido, o "Não sei de nada". Talvez o Congresso deles altere a taxação ou a retire daqui a dois anos, mas nada garante que isso aconteça. Há muitos interesses em jogo. Usineiro é usineiro em qualquer lugar.

O mais curioso é a imprensa brasileira, ou grande parte dela, até hoje estar em dúvida sobre os reais motivos que estão levando os americanos a ficar de butuca no álcool brasileiro. Uns acham que é pelo aquecimento do planeta, outros que é para se livrarem de tanta dependência de petróleo importado. Acertou quem citou a segunda hipótese.

Eles precisam de combustível para veículos leves e não querem ficar na mão dos árabes (e, mais recentemente, de Hugo Chávez). Os atuais 60% de dependência deles de petróleo importado para tocar a nação abalam-lhes a sensação de segurança, tanto quanto os criminosos ataques suicidas de 11 de setembro de 2001 com aviões comerciais. Não tem nada de reduzir aquecimento global nessa história.

Para o empresariado do álcool, melhor panorama não poderia haver. É um mercado tão gigantesco que até o tal imposto sobre o etanol brasileiro vira mero detalhe. Estão rindo de orelha a orelha, da mesma forma que estão rindo depois que os brasileiros caíram no conto do carro flexível em combustível. Preferiram fomentar o flex a virem a público assegurar fornecimento de álcool a preços compatíveis, que seria o caminho para viabilizar outra vez os carros só a álcool. Não faz muito tempo, o presidente da Única (União da Agroindústria Canavieira de São Paulo), Eduardo Pereira de Carvalho, disse na TV com cinismo que subir preço do álcool está certo, que era devido ao aumento da procura na férias...

A coisa ficou tão boa para eles (foi por isso que chegaram ao cúmulo de co-assinar anúncios desses carros, como a Única) que a última edição da Forbes 500, edição anual da revista que aponta as 500 maiores fortunas do mundo, indicou Rubens Ometto Silveira Mello, empresário dessa agroindústria, em quadringentésimo octogésimo oitavo lugar, com uma fortuna pessoal de R$ 2 bilhões. É a primeira vez que um brasileiro da indústria do álcool entra para o seleto clube dos bilionários em dólares que, pelo jeito, terá mais sócios do País no ano que vem.

O volume de etanol a ser produzido é de estarrecer. Em no máximo 10 anos estaremos com 30 bilhões de litros por ano, contra 17 bilhões hoje. Os americanos falam num mercado de etanol de 132 bilhões de litros anuais também em 10 anos (hoje produzem pouca coisa mais do que nós), prazo em que querem reduzir em 20% o consumo de gasolina e, por conseguinte, de petróleo. Podemos exportar para eles e ainda sobra muito para nosso consumo, hoje perto de 13 bilhões de litros entre hidratado e anidro.

O mais engraçado é ouvir todo mundo, da agroindústria e da imprensa daqui, falar no carro brasileiro consumir todo esse álcool como que esse fosse o único combustível para veículos leves no Brasil e ponto final. Como se gasolina não existisse mais. Ora, só será assim se o governo continuar a meter a mão no bolso do consumidor, cobrando o que quer pela gasolina que é produzida com nosso próprio petróleo. Na Venezuela, produtor do "ouro negro" como o Brasil, o litro da gasolina custa R$ 0,20. Lá o etanol não tem a menor chance.

Nem os Estados Unidos, com toda a dependência externa, exploram tanto seu povo na questão dos combustíveis. Quando o preço do galão chega lá a US$ 2,50, que equivale a R$ 1,40 o litro, há consternação nacional. E note-se que lá os impostos sobre a gasolina chegam a 20%! Aqui, o litro custa módicos 70% mais. Tudo bem, brasileiro é rico mesmo...

O petróleo
Tragicômico, porém, é vermos nosso petróleo caminhando para o ostracismo, o petróleo por que tanto lutamos para ter quando, lá em 1953, a Petrobrás foi fundada, precedida da intensa campanha "O petróleo é nosso". A auto-suficiência obtida no ano passado parece não significar mais nada. Como é possível sermos tão inconseqüentes? E nossa produção de petróleo de 1,9 bilhão de barris diários (por enquanto), as plataformas para operação em águas profundas, cuja tecnologia foi desenvolvida aqui, como fica tudo isso?

Um assíduo leitor meu, desses que com o tempo tornam-se amigos mesmo sem nunca ter havido um encontro pessoal, fazendeiro no interior de São Paulo, deu-me um panorama do que está ocorrendo no campo que é preocupante. Contou-me ele, que pediu para não revelar seu nome:

"Além das queimadas, têm-se a questão social: as usinas estão expulsando do campo os pequenos e médios proprietários de terra. Os primeiros vendem, pressionados pelo enorme poder da usina; os outros arrendam terras para plantio, sendo que neste arrendamento as usinas simplesmente "acabam" com tudo o que havia na propriedade anteriormente (cocheiras, cercas, casas de colonos, enfim), o primeiro passo que muitos proprietários rurais deram antes de venderem definitivamente suas fazendas para os usineiros. Isso sem falar na cadeia que isso gera, tal como desemprego de pessoas que anteriormente trabalhavam em fazendas, fechamento de pequenos comércios de insumos agropecuários, enfim, um sistema nefasto incentivado pelo governo para a produção de um combustível que tem que abastecer veículos em diversas regiões. Além dos perdões de dívidas concedidos aos usineiros (paga-se 10% do devido e quita-se a pendência). E esteja certo que os usineiros farão de tudo para manter a paridade com a gasolina em torno dos 70% devido à onda dos flex."

E assim vamos caminhando. Deixei para o final a explicação de por que a vida dos paulistanos foi tumultuada desnecessariamente: antiamericanismo barato. Nada do que foi feito em termos de bloqueio de ruas e avenidas existiria, não tivessem os serviços de inteligência detectado que haveria hostilidade contra o presidente americano. Faltou-nos (não foi só no Brasil) o respeito ao poder constituído, eleito pelo voto popular: o governo brasileiro recebeu um chefe de estado estrangeiro e é dever de cada cidadão aceitar o fato, goste ou não do visitante.

Será que esses grupelhos anti-Bush atirariam flores sobre o aluno de Fidel Castro, Hugo Chávez, ou o índio ladrão Evo Morales, que usurpou instalações petrolíferas da Petrobrás na maior cara de pau? Aposto que atirariam. Ou será que alguém acha certo filhos hostilizarem quem os pais convidaram para vir à casa?

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 17/3/07

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