Falta bom senso na pista

Tanto fizeram para dar aos Stock Cars desempenho próximo,
que agora querem resolver o "problema" artificialmente

por Bob Sharp

Antes que o leitor pense que sou contra a vibrante e rápida categoria, que é um sucesso indiscutível, saiba não é nada disso. O intuito é esclarecer um pouco mais a opinião pública sobre esta categoria de turismo. Afinal, minha longa vivência no automobilismo, a par da atividade jornalística, me impõe esse dever. De passagem, quero comentar também, depois, a posição de dirigir desses carros.

A novidade que será adotada na temporada de 2007 da agora Copa Nextel Stock Car é típica do programa televisivo Acredite se quiser, encenado vários anos por Jack Palance: alimentar o motor com óxido nitroso para maior e temporária potência e, com isso, facilitar ou mesmo possibilitar ultrapassagens. Esse gás não é um combustível, mas um comburente que, devido à maior presença de oxigênio em sua composição, permite injetar mais combustível no motor, advindo o aumento de potência. Um efeito semelhante ao da superalimentação por compressor ou turbocompressor.

Esse sistema, idealizado para os apertados circuitos de rua da ChampCar, a antiga Fórmula Cart, foi adotado no ano passado. Lá se chama Push-to-Pass, "aperte-para-ultrapassar" em inglês, no caso apertar um botão e contar com de 30 a 50 cv mais. A carga de gás dá para 60 segundos. Deu a louca na categoria, que está morrendo. E, apesar disso, a idéia cruzou rapidamente o Equador e chegou até aqui.

Funciona assim: o piloto aperta um botão e o sistema de óxido nitroso fica em modo de espera, pronto para entrar em ação. O piloto do carro de trás sabe que o tal botão foi apertado ao se acender uma luz piscante na traseira do que está na frente (para quê, não me perguntem). Quando o acelerador ultrapassa 80% do curso, o gás é liberado, ocorrendo aumento instantâneo de potência. A válvula fecha-se quando o pedal retorna e atinge 60% do curso. A telemetria permite que se exiba na tela da TV o "aperte-para-ultrapassar", inclusive o tempo remanescente em segundos para usá-lo novamente, junto com outras informações já conhecidas — marcha usada, rotação, velocidade, aceleração lateral, entre outros. Exibição da mais alta tecnologia, sem a menor dúvida.

A incoerência do uso do óxido nitroso é gritante. Há décadas se persegue igualdade de desempenho, como fator de emoção nas corridas de automóveis, e nisso a Stock Car logrou o êxito. Os carros andam realmente muito próximos em tempo, às vezes questão de alguns milésimos de segundo, e sempre com pelo menos 20 carros no mesmo segundo na linha de largada.

Nas corridas da Stock Car, ultrapassar é mesmo difícil. Só que isso não é do agrado dos organizadores da categoria. Pelo menos é o que se depreende da novidade para este ano. Coitadinhos dos pilotos, temos de ajudá-los, devem ter pensado...

A partir de agora, além da ilusão de haver marcas diferentes competindo, quando na verdade é uma só — só muda a "casca" para fazer de conta que são quatro —, mais uma se junta ao espetáculo: um carro de repente, como num passe de mágica, anda mais do que outro. Que só não acontecerá se ultrapassador e ultrapassando resolverem usar o gás mágico ao mesmo tempo...

A posição de dirigir
A outra questão foi-me lembrada por um grande piloto e amigo, Mário César de Camargo Filho ("Marinho"), que brilhou durante 11 anos ao volante de carros DKW-Vemag e GT Malzoni como primeiro piloto da equipe da fábrica. Ele comentou comigo que outro dia se sentou num stock car e ficou alarmado com a posição tão recuada do piloto em relação ao carro. "Para que isso?", perguntou-me, em tom de crítica.

Está coberto de razão o velho guerreiro: não há por que recuar tanto o piloto, que nesse caso fica mais para a região do banco traseiro que para o dianteiro do Chevrolet Astra — ou "Volkswagen Bora", "Mitsubishi Lancer Evolution" e, este ano, "Peugeot 307 Sedan", o leitor escolhe. Em nenhuma outra categoria o piloto fica fora do lugar que se espera em relação ao veículo, nem mesmo na inspiradora e velocíssima categoria Nascar, a Stock Car americana.

Para que isso, pergunto eu agora. Será que buscam melhor distribuição de peso? Ou o projetista argentino do chassi tubular foi atrás de maior distância possível do painel, pensando na segurança do piloto numa colisão frontal? Se for isso, então os pilotos da Nascar estão pondo sua integridade física em risco além da conta. É mesmo muito estranha essa solução.

É completamente antinatural um piloto se sentar tão recuado, mesmo que seja possível vir a se acostumar. Sem falar que dificulta o acesso da equipe de socorro num acidente, o que é um completo contra-senso num carro de turismo. Esse é um ponto em que o Conselho Técnico-Desportivo Nacional (CTDN) da Confederação Brasileira de Automobilismo deveria ter interferido e batido o martelo quando a categoria passou pela grande mudança em 2000, ocasião em que o Omega foi descartado em favor do formato atual, de chassi tubular e bolha de plástico com desenho de Vectra (trocado pelo de Astra em 2004).

O absurdo da posição tão recuada é o mesmo de determinar novo lugar para os jóqueis montarem os cavalos de corrida. O turfe existiria do mesmo jeito, mas o visual seria por demais esquisito — tal como ocorre hoje na Stock Car. Resultado prático, nenhum.

Por essas e por outras é que não dá mesmo para entender o que se passa na cabeça dos organizadores de nossa Stock Car. E tampouco a inépcia da autoridade desportiva nacional.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 10/3/07

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