Direção defensiva

Como exercer esse método, que pode fazer a diferença
entre se envolver em um acidente e escapar dele

por Bob Sharp

Dia desses escreveu-me um diretor de centro de formação de condutores perguntando se eu tinha alguma obra, algum texto sobre direção defensiva para ele utilizar nas aulas, ou lhe indicasse onde encontrar. Não pude ajudá-lo por não saber, de pronto, da existência de algum trabalho desses, e confesso que isso me incomodou. Mais ainda porque sei como dirigir na defensiva, sem nunca ter lido especificamente nada a respeito, fora um ou outro artigo em todos esses meus anos — pelo menos 50 — de ávido leitor de revistas.

Essa percepção de "defesa", adquiri-a usando muita lógica e bom senso em meus 46 anos de motorista habilitado e, claro, com muita vontade de me desenvolver. Muitos ensinamentos vieram também de meu pai e do tio que me ensinou a dirigir.

A essencial pergunta antes de passarmos ao assunto: o que é direção defensiva? Defino-a como o dirigir em estado de permanente alerta contra tudo que possa ameaçar a integridade física do motorista e seus passageiros, provocada por outro veículo ou não. Dito de outra forma, é ser pessimista, mas no bom sentido. Vamos ver o que significa esse estado de alerta:

>  Não existe sinal verde ou ausência de placa de parada obrigatória, de dia e de noite, nos cruzamentos: atravesse-os como se fosse surgir um veículo a sua frente, olhando para os dois lados, e em velocidade que dê para parar.

>  Depois de o sinal mudar para verde, só ande depois de ter certeza que o tráfego transversal parou.

>  Ao ir parando num sinal, verifique o tráfego à retaguarda para ver se não vem alguém distraído rumo a sua traseira, de maneira a poder tomar uma atitude evasiva.

>  Parado no sinal, mantenha os retrovisores externos desobstruídos. Nada de produtos para comprar colocados sobre eles, comum no comércio informal dos sinais.

>  Mantenha separação mínima de dois segundos do carro da frente, ou três segundos se o piso estiver molhado.

>  Não faça curvas cegas em velocidade que não dê para parar em caso de uma obstrução qualquer (por exemplo, curvas de rodovias com muretas divisórias altas).

>  Fique atento às rodas dianteiras dos carros à frente: qualquer mudança de direção será precedida de pequeno movimento destas, antes que o carro efetivamente mude de trajetória.

>  Nas ruas estreitas, ter em mente que um pedestre, sobretudo uma criança, poderá tentar atravessar de repente ou um carro poderá sair de maneira imprudente de uma garagem. Por isso, devagar nessa situação.

>  Fique atento a ciclistas, que muitas vezes desviam abruptamente para seu lado.

>  Um carro à frente que vá dobrar para um dos lados pode ser impedido de concluir a manobra, por qualquer motivo, e parar de repente a sua frente. Considere sempre essa possibilidade.

>  Não importando a velocidade imprimida, sempre deixe uma faixa de rolamento a sua esquerda, que aumenta sua área de escape se houver qualquer problema à frente.

>  Tenha em mente que desvios abruptos de direção — o "golpe de direção" — sempre são perigosos. Muitas vezes o carro perde o controle e bate em algo ou sai da estrada.

>  Trechos pelos quais você nunca passou podem ter armadilhas: vá mais devagar neles.

>  Ao passar sob viadutos, considere a possibilidade de algum vândalo atirar uma pedra lá de cima. Se houver alguém em atitude suspeita, procure trocar de pista quando estiver quase passando sob o viaduto, com a devida consulta aos retrovisores.

>  Se o carro aquaplanar, o que praticamente só ocorre nas retas, não tente virar o volante: quando os pneus voltarem a ter contato com pista, o carro desviará inesperada e abruptamente.

>  Tenha em mente que, maior a velocidade, maior distância é requerida para parar — não na mesma proporção, mas com o quadrado da velocidade. Se a 50 km/h é preciso determinada distância, a 100 km/h é necessário espaço quatro vezes maior, não o dobro.

>  Ao frear numa emergência, saiba que o carro percorre distância maior se as rodas forem travadas. Não é tão fácil, mas você pode aprender a modular a frenagem, isto é, aplicar força no pedal de freio o suficiente para produzir forte desaceleração sem levar ao travamento.

>  O sistema ABS dos freios serve para evitar que as rodas travem, mas há momentos em que o ABS pode prejudicar mais do que ajudar, como precisar parar rápido sobre asfalto ondulado. O ABS interpreta errado a situação e os freios atuam menos. Os manuais de proprietário alertam a esse respeito.

>  Leve em conta que um carro carregado perde grande parte de sua estabilidade em curva, aceleração — em particular os de motor de 1,0 litro — e frenagem.

>  Jamais descuide da pressão dos pneus em função do carregamento do veículo.

>  Sob nevoeiro diurno, mantenha os faróis baixos ou os de neblina ligados, para seu carro ser visto. O mesmo vale para chuva de média para forte.

>  Em rodovias de mão dupla e sob nevoeiro, é arriscado ao extremo ultrapassar, por não se enxergar adiante o espaço necessário. Exercite a paciência nesses momentos, não é vergonha seguir outro veículo lentamente.

>  Sente-se corretamente ao volante, braços não esticados e nem dobrados demais. Ajuste o banco de maneira que braço e antebraço formem ângulo de 90°, as costas fiquem bem apoiadas e você consiga apertar o pedal de embreagem até o fim, sem que a coxa faça pressão no assento do banco.

>  Nas curvas, segure o volante firmemente com as duas mãos, com os polegares apoiados nas extremidades dos raios do volante. Segurar firme o volante significa imaginar segurando um passarinho: muita força fere a ave, pouca a deixa escapar (ouvi isso de um leitor, Daniel Shimomoto de Araújo, e nunca me esqueci).

>  Sempre use óculos escuros para dirigir: a vista cansa menos e sua acuidade visual melhora, além de deixar a vista melhor preparada para o período noturno.

>  Embora seja moda, evite ter os vidros laterais dianteiros escurecidos mais que o permitido, 70% de transparência do conjunto vidro e película. Pára-brisa escurecido, nem pensar: deixe-o como saiu de fábrica. Sua visibilidade precisa estar assegurada, sobretudo à noite e no interior dos túneis.

>  Nunca utilize o veículo se ele estiver com qualquer deficiência mecânica ou elétrica, em especial na estrada.

>  Nunca dirija se privado de plena capacidade física, seja cansaço, doença ou por efeito de qualquer substância ingerida ou inalada.

Como o leitor vê, a lista é enorme. Pretendo voltar ao assunto proximamente. Mas o importante é considerar o dirigir como uma atividade de risco e, justamente por isso, ficar na defensiva sempre.

Vale a pena.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 3/3/07

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