Histeria carbônica

O Inimigo Público nº. 1 agora se chama carbono e, de
repente, a histeria em combatê-lo tomou conta do mundo

por Bob Sharp

O termo do título não é meu, mas do jornalista e meu amigo Fernando Calmon. Parabenizei-o por isso e disse-lhe que passaria a usá-lo daqui para frente sempre que fosse necessário. Pois nada reflete melhor a histeria mundial sobre o famigerado aquecimento do planeta e as previsões apocalípticas do que chamá-la de histeria carbônica.

Para o leitor do Best Cars entender, nosso planeta recebe calor do sol e este calor se dissipa no espaço. Só não se dissipa mais porque existe providencialmente uma camada gasosa a cerca de 60 quilômetros de altitude, composta de gases como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), que impede a dissipação excessiva de calor. Não houvesse essa camada, provavelmente o mundo seria gelado. A camada produz o chamado efeito estufa, que é o calor entrar e não sair. Como num viveiro de plantas, todo envidraçado, destinado a fazer as plantas ignorarem o inverno rigoroso das regiões da alta latitude, enganando-as, levando-as a pensar que é primavera.

Quando a Groenlândia, maior ilha do mundo, com área de 2,166 milhões de quilômetros quadrados (1/4 do Brasil), foi avistada no século 10 pelos vikings que partiram da Islândia, não era nada parecida com a de hoje, em que tem 81% de gelo em sua superfície. Era predominantemente verde, apesar de localizada no que se chama de região ártica. Por isso recebeu o nome de Greenland, em inglês, que significa terra verde. Isso só para explicar que mudanças climáticas no mundo não são de hoje.

Os cientistas mais alarmistas afirmam que a produção dos gases de efeito estufa, dos quais o CO2 é o grande vilão, supera de longe sua eliminação natural pela fotossíntese, processo em que as plantas "seqüestram" o carbono do gás e liberam oxigênio para a atmosfera. Os oceanos também participam do seqüestro, embora o atual desequilíbrio já os leve em conta.

É preciso entender que o gás carbônico nada tem de tóxico, pois não entra na corrente sangüínea se inalado. É simplesmente o ar que soltamos dos pulmões. O que ele faz de mal, aí sim, é reduzir a quantidade de oxigênio num ambiente fechado. Caso, por exemplo, do interior de um automóvel em que o ar apenas recircula, não é captado ar externo. Por isso é que nos sistemas de controle eletrônico há comutação automática de recirculação para ar externo depois de certo tempo, em geral 20 minutos. Não havendo essa previsão, o motorista deve ficar atento e nunca deixar em recirculação por muito tempo. Pode ficar sonolento ou mesmo adormecer por falta de oxigênio (hipóxia).

Com um grande desequilíbrio entre produção e seqüestro de CO2, tem-se o aumento da espessura da camada que age como capa térmica — de defensora ela passa a atacante. O aumento da produção de CO2 provém sobretudo da queima de combustíveis de origem fóssil, ou seja, os derivados do petróleo ricos em carbono com os quais convivemos há pouco mais de 100 anos: gasolina, diesel, óleo combustível para caldeiras e querosene (no caso, o de aviação).

Como este é um site automobilístico, convém saber que, da emissão global de CO2, apenas 20% se referem a energia para transporte. Os 80% restantes cabem a residências, indústria e geração de eletricidade. Portanto, o leitor não precisa se sentir tão culpado por estar contribuindo para o aquecimento do mundo onde vive.

O rebanho mundial também contribui de maneira decisiva para a produção desses gases, inclusive o esterco, que libera toneladas de metano para a atmosfera. Fora a flatulência — nome científico do pum — desse rebanho.

A histeria carbônica instalou-se de vez nas mentes com o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, realizado há duas semanas em Paris, que chamou a atenção do mundo — e, não poderia deixar de ser, do Fantástico da TV Globo, que como sempre prima pela inexatidão — pelas previsões catastróficas para a humanidade no final do século. Entretanto, vários cientistas no mundo se levantaram contra essas previsões por considerá-las inexatas e sobretudo alarmistas.

Histeria até no carnaval
O jornal Folha de S. Paulo publicou domingo passado (18) artigo de Eduardo Athayde, administrador, pesquisador e diretor do Worldwatch Institute no Brasil (portanto, não é opinião do jornal), dizendo que cada trio elétrico do carnaval baiano precisa plantar cerca de 100 árvores para neutralizar o carbono emitido no chamado circuito da folia. Segundo o artigo, "trios elétricos, hotéis, aerolinhas (sic), telefonia móvel e cervejarias fazem inventários para neutralizar suas emissões. A partir de agora, festivais, congressos, seminários e mesmo a Fórmula 1 terão de ser descarbonizados".

Adiante, diz o autor que "A Bahia, de olho no fluxo de turistas, está oferecendo para [o prefeito de Nova York] Bloomberg, trios elétricos descarbonizados, únicos no mundo para ajudar nos seus objetivos". Essa seria perfeita para Jack Palance e seu Acredite se quiser.

Ainda segundo Athayde em seu artigo, o alcaide nova-iorquino teria anunciado planos para que sua cidade venha a ocupar a liderança na redução de gases de efeito estufa, como uma das formas de melhorar a economia e atrair turistas (o grifo é meu). Se Bloomberg realmente tem esse plano, a histeria carbônica é a mais nova pandemia.

Pandemia que atinge os sistemas de refrigeração, inclusive os de ar-condicionado. A Comissão Européia (EC) já determinou que em 2011 veículos de plataforma nova, e em 2017 todos os veículos, não poderão usar mais o gás refrigerante R-134a hoje empregado. É fácil imaginar o tamanho da dificuldade de engenheiros arranjarem um gás substituto e alterarem os sistemas em menos de quatro anos.

Fala-se muito no CO2 — sim, o próprio, mas rebatizado R-744 —, mas há outros em estudo, como o iodeto trifluormetil (CF3I). Em todos os casos, a pressão de trabalho terá de ser entre cinco e dez vezes maior que a atual, significando mais trabalho para o compressor e, logicamente, maior absorção de potência. Motores de baixa cilindrada, abaixo de 1.500 cm³, podem se tornar inviáveis.

Embora possa parecer pela tônica desta coluna, não condeno de forma alguma a busca por menores emissões de gases de efeito estufa. Por exemplo, a Comissão Européia decidiu acertadamente reduzir as emissões de CO2, quando se tratar de combustível utilizado em transporte, para 130 gramas por quilômetro já em 2012 (atualmente são de 180 a 230 g/km nos carros maiores e de 150 a 180 g/km nos pequenos). Mas é uma meta muito audaciosa para implementação em apenas cinco anos. Tanto que a EC já admite discutir níveis diferenciados em função do porte do veículo e cilindrada do motor.

O importante, nesta e em qualquer questão ambiental, é raciocinar de cabeça fria, rechaçar radicalismos e não achar o mundo está à beira do desastre, porque não está. Histeria, quanto mais a carbônica, nem pensar. Mesmo porque, se exagerarmos na dose do seqüestro de CO2, poderemos ter novo período glacial em poucos séculos...

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 24/2/07

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