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O renascimento de um marco

Depois de três décadas, o Fittipaldi FD 01 de Émerson
começa a ressurgir, restaurado pela empresa Dana

por Arnaldo Keller

Quase 30 anos atrás, a 16 de outubro de 1974, era apresentado ao então presidente Ernesto Geisel o primeiro carro da Equipe Fittipaldi de Fórmula 1, o FD 01. Nesse mesmo ano Émerson venceria pela segunda vez o Campeonato Mundial de Pilotos, dessa vez com um McLaren-Ford.

O FD 01 era um carro de linhas originais e arrojadas, enquanto sua mecânica, com o comprovado motor Ford Cosworth DFV e câmbio Hewland, procurava garantir a confiabilidade.

Uma das coisas que eram interessantes entre os F-1 de então é que havia pouca padronização entre os carros das equipes concorrentes. As soluções aerodinâmicas eram buscadas de várias formas: radiadores de água logo à frente das rodas traseiras, ou um só, no bico do carro; carenagem aerodinâmica adiante dos pneus dianteiros, para abrir caminho a eles, ou não. Motores de oito cilindros (Ford Cosworth, os mais usados pelas equipes) ou 12 cilindros (Ferrari, Lamborghini, Alfa). A distância entre eixos variava muito de carro a carro e até mesmo o número de rodas chegou a variar — um modelo Tyrrel, o 008, chegou a ter seis.

Experimentava-se de tudo e, como dizia o Caetano Veloso, era proibido proibir, ao menos a imaginação. Muitas das regras aerodinâmicas e mecânicas ainda eram desconhecidas, e leis desconhecidas levam a leis burladas... As idéias brotavam com mais liberdade, soluções estapafúrdias surgiam, sumiam, e as boas ficavam. Hoje, as leis da Natureza que regem a aerodinâmica são mais conhecidas e isso impõe um número maior de regras para as formas dos F-1, o que os deixa meio padronizados. Em geral, só se diferenciam pela pintura ou pequenos detalhes.

Veja que não estou dizendo que era melhor ou pior: só digo que era mais interessante para nós, os curiosos, que a cada ano procurávamos entender e tentar julgar as novidades. Discutíamos, apostávamos, divertíamo-nos.

Nem mesmo o ronco dos motores de hoje é variado como então. Sabíamos de longe quem vinha vindo. Um estridente, esgoelado, escandaloso Ferrari, com seus 12 cilindros, era identificado do outro lado da cidade. Um Lotus roncava som grave, vibrante e poderoso, dos oito cilindros dos Cosworths. Hoje, sabe-se que o mais eficiente é o motor de 10 cilindros e todos têm essa configuração — mais uma vez, as leis da Natureza padronizaram os carros.

Além disso, para que motor do ciclo Otto? Émerson chegou a correr com um Lotus movido a turbina — era uma loucura, não tinha freio-motor, o que os levou a usar quatro discos de freio nas rodas dianteiras, dois para cada roda, e mesmo assim eles não agüentavam o aquecimento.

O lançamento da Equipe Fittipaldi em 1974 foi um grande acontecimento para os anos do “Brasil Grande”, tempo em que, apesar do manto opressor da ditadura, os jovens tinham mais esperança e, por conseguinte, valentia. A Copersucar patrocinou a valente empreitada dos Fittipaldi. Wilson Fittipaldi Jr. coordenou tudo, o engenheiro Ricardo Divila projetou, Darci Medeiros foi um dos construtores, Jo Ramirez, o primeiro chefe de equipe. Émerson e Keke Rosberg, dentre outros, pilotaram — um já havia sido campeão por duas vezes, e o outro viria a sê-lo em 1982.

A equipe Fittipaldi competiu por oito temporadas e não fez feio. Os resultados comprovam: ao todo acumulou 44 pontos, sendo um segundo lugar, dois terceiros, cinco quartos, quatro quintos e sete sextos. Em 1978 a equipe terminou o Mundial de Construtores à frente da McLaren, Williams, Renault e Arrows. Émerson, em 1980, concluiu o Mundial de Pilotos empatado com Prost, da McLaren, e à frente de Andretti, da Lotus. Isso prova que o que faltou à equipe foi tempo e dinheiro — a Copersucar, a patrocinadora inicial, pulou fora em dado momento, deixando-os num mato sem cachorro. O que competia aos construtores, e aos pilotos, foi bem executado.

Ingo Hoffmann e Chico Serra, nossas grandes esperanças naqueles tempos, também tiveram suas chances na F-1 a bordo de carros da equipe. E muitos outros pilotos brasileiros, caso a equipe continuasse, teriam nela sua porta de entrada à mais competitiva categoria do automobilismo mundial, onde poderiam mostrar a garra brasileira. Senna não teria sua chance ali, no começo de carreira? Wilsinho e Émerson deixariam escapar um piloto desses?

Mas isso são águas passadas. Paciência. E agora tratemos de comemorar a iniciativa da Dana Albarus, fabricante de peças automobilísticas, que patrocina a restauração do primeiro F-1 brasileiro. Ele vai voltar às pistas, reluzente e veloz, para nossa alegria e para, certamente, nossos olhos se encher de lágrimas.

Wilson Fittipaldi Jr., o Wilsinho, que é o proprietário do carro, juntamente com o mesmo Darci Medeiros construtor, coordena o restauro. Posso imaginar o quanto ele está ansioso para sentar no cockpit, ordenar para darem a partida, bombear o acelerador, embrear, engatar a primeira, dar o gás e soltar a embreagem do bicho.

Wilson! Quero vibrar vendo fumaça subindo desses pneus traseiros! Estou só esperando! Parabéns a você e à Dana!
 



Alguns dados técnicos do Fittipaldi FD 01:

Motor Ford Cosworth DFV, 8 cilindros em V (90º), 2.993 cm³, potência máxima de 470 cv a 10.500 rpm
Câmbio Hewland FG-400 de 5 marchas
Pneus Goodyear, dianteiros com largura de 10 pol e diâmetro de 13 pol, traseiros com largura de 18 pol e diâmetro de 13 pol
Freios: Lockheed a disco
Peso: 590 kg

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Data de publicação: 8/5/04

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