A hora do pesadelo

Tudo que é manufaturado um dia precisa de reparos, e aí começa
o problema: onde levar o carro e obter um serviço de qualidade

por Bob Sharp

Acho que não existe motorista que nunca tenha precisado mandar fazer um conserto no automóvel. Qualquer que seja, desde a primeira revisão gratuita a um reparo mais extenso. Não que nosso carro seja como um filho, longe disso, mas tem hora que parece. É por esse motivo que muitos gostam de entrar na oficina “para ver o que estão fazendo no meu carro.” Para várias pessoas, eu inclusive, soa bem antipático aquela famosa placa “É proibido entrar na oficina”. Uma vez vi numa concessionária, “Para sua segurança, não entre na oficina sem acompanhamento do seu recepcionista”. É uma maneira delicada de dizer que o cliente não devia entrar naquela área de trabalho.

As razões para isso vão desde perturbação do serviço a pedidos diretos ao profissional que está trabalhando no veículo, desse modo subvertendo a ordem, e passando pela já falada segurança. Um mangueira do sistema do arrefecimento que se rompa com motor em temperatura normal, por exemplo, é capaz de produzir queimaduras sérias em quem estiver ao lado do motor, estando o capô aberto. Ou uma criança pôr o dedo onde não deve, podendo se machucar com gravidade. Por isso, é melhor o dono do carro não entrar nessa área.

É aí que entra a questão da confiança ou falta dela. De um modo geral, temos tendência a desconfiar de tudo, cada vez mais, tamanho o atual volume de falcatruas e estelionatos. Quando nos ligam e dizem “É da operadora de telefonia x”, ficamos logo desconfiados. É uma pena, mas é assim o mundo de hoje. Com as oficinas, de concessionárias ou independentes, ocorre praticamente o mesmo. Sempre desconfiamos que querem nos vender serviço ou peça de que o carro não precisa.

Como a velha história do já-que: “Já que tem de trocar o disco, vamos aproveitar e trocar o platô e rolamento de embreagem”. Ou a atual febre de limpeza dos bicos injetores, a intervalos curtos como 20 mil quilômetros. Não há profilaxia para os bicos: ou estão bons, e funcionam bem, ou não estão e funcionam mal.

Atualmente popularizam-se os chamados centros automotivos, nos quais grande parte dos serviços de manutenção podem ser realizados sem que seja preciso recorrer a uma concessionária ou oficina independente. Caso de serviço de freios, de escapamento e de amortecedores e buchas. Nessas o cliente pode acompanhar o serviço, se desejar. E o carro não entra “lá para dentro”, pois os elevadores de trabalho ficam, em regra, próximos à calçada.

Questão de precisão
Como pessoa que sempre vivenciou automóvel em seus mais variados aspectos, noto como é comum falta de precisão dos profissionais que efetuam os serviços em nosso carro. Outro dia precisei fazer troca de dois pneus (veja por que mais abaixo) e vi que o funcionário de uma rede de venda de pneus (DPaschoal Moema) montou o pneu novo, no aro, deixando a pinta vermelha dele afastada do ponto em que fica a válvula de enchimento no aro. Alertei-o para o fato e ele disse que não tinha problema. Expliquei-lhe que a pinta vermelha é o ponto mais leve do pneu, assinalado na fábrica, e que deve sempre se contrapor à válvula, a parte mais pesada do aro. Ele separou o pneu do aro e colocou na posição certa. Este é apenas um exemplo de como falta precisão nos serviços de automóveis.

Um dia retirei um carro da concessionária (Rumo Norte Congonhas, capital paulista) onde, entre outros serviços, foi realizado alinhamento da convergência (em um Celta, e é o único ajuste de ângulo de rodas previsto pelo fabricante). Notei que o carro cantava demais pneus nas curvas da garagem do prédio onde moro. Fiquei de voltar lá, mas não o fiz. Sete mil quilômetros depois, totalizando 30 mil km, vi numa viagem, ao estacionar o carro com as rodas esterçadas num posto para tomar um café, que o lado interno dos dois pneus dianteiros havia se desgastado completamente. Como ainda tinha de ir ao Rio de Janeiro e depois voltar, era evidente que talvez nem desse para chegar lá, quanto mais voltar.

O que fiz (era sábado) foi passar em um serviço de alinhamento de rodas no caminho — em Pindamonhangaba, cidade de meu amigo e editor do BCWS, Fabrício Samahá, a quem pedi que recomendasse uma empresa de sua confiança. Dito e feito: a convergência, que é de 0 a - 2 mm (aberto) estava com quase - 10 mm, o que acabou com os pneus.

Pior, para retirar as calotas integrais para montagem do equipamento de alinhar, o funcionário teve de se valer de um cano para aumentar bastante o braço de alavanca da chave de roda, tal havia sido o aperto anterior — outra falta de precisão, da concessionária Rumo Norte Congonhas, no caso. Ou se tem prática em apertar roda, o que é perfeitamente possível, ou se usa um torquímetro. Se eu tivesse um furo de pneu não teria como retirar a roda com a ferramenta que vem no carro.

Finalmente, o gerente da firma de alinhamento (Pinda Pneus), muito solícito, queria passar os pneus (gastos) dianteiros para a traseira e vice-versa, alegando que o carro “ia puxar muito a direção”. Eu lhe disse para deixar como estava, não ia puxar. Claro, não puxou. Fui ao Rio e voltei sem problemas.

O que fica de tudo isso é a certeza de ser necessário ficar atento — e ir atrás de recomendação de pessoas que já se serviram de determinada oficina ou concessionária. Pode-se confiar, sim, mas desconfiando, o que é sobretudo um direito.

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Data de publicação: 23/4/05

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