Dirigir com suavidade, uma arte

O benefício é imediato e o carro agradece quando dirigido assim

por Bob Sharp

Uma das coisas que aprendi cedo é que vale a pena dirigir com suavidade. Mesmo coisas simples como usar o acelerador têm seu jeito bom. Quando se é suave ao volante, quem está no carro logo percebe – ou quando se anda rápido, não percebe.

Uma das "lições" de suavidade recebi de um famoso jornalista, historiador e autor de livros inglês, L.J.K. Setright. Claro, sempre sobre automóvel. Não me lembro, por terem se passado mais de 40 anos, se foi numa revista Car and Driver ou Road & Track, onde ele tinha uma coluna na última página. Falava sempre sob a ótica do automobilista que era (e ainda é, ele vive, está com mais de 70 anos), com um inglês vitoriano de dar gosto.

Nessa coluna ele conta que foi convidado para passar o fim de semana no sítio de um casal amigo que não tinha filhos, num local bem ermo no interior da Inglaterra, distante de tudo. No sábado à noite a mulher do amigo começou a se sentir mal, fortes dores no peito, todo jeito de infarto. Pelo telefone o médico da família recomendou levá-la para um hospital – que distava 120 quilômetros do sítio – o mais rápido possível.

Setright descreveu como os três embarcaram no carro do amigo (acho que era um Jaguar Mark II 3,4-litros), ele ficando no banco traseiro com a mulher, segurando-a para que se sentisse confortável. E começou a viagem até a pequena cidade onde ficava o hospital.

O que se seguiu foi a detalhada descrição de como andaram rápido – era uma emergência, afinal, e convinha poupar a paciente de tensões e solavancos. E de como o amigo dirigiu com suavidade mesmo explorando os limites do motor, do câmbio, dos pneus, dos freios. Os ocupantes não "jogavam" nas curvas, apenas sentiam a aceleração lateral começar, crescer, estabilizar-se, e depois o processo se invertia, para cessar no trecho de reta seguinte.

Não havia trancos de transmissão mesmo com as trocas de marchas feitas em regime de corrida. Os freios atuavam forte sem que ninguém fosse jogado para a frente (não havia cinto de segurança então). Em 50 minutos chegaram ao hospital, onde a mulher do amigo foi atendida e felizmente se salvou. Para poupar ao leitor o trabalho de fazer a conta, média de 144 km/h, numa estrada de mão dupla. Não era uma auto-estrada.

Mudança de estilo
Nunca me esqueci disso e a minha maneira de dirigir mudou completamente. Essa técnica, a suavidade, passei a exercitá-la e aplicá-la no meu dia-a-dia. Foi nesse período de minha vida também que comecei a aprender a pilotar avião, no Rio de Janeiro e, outra vez, sorte: meu instrutor, um filho de alemães – seu nome é Salo Roth – que tinha a pinta de piloto de caça da Luftwaffe (força aérea alemã), incutiu-me a suavidade com os comandos mostrando-me como se fazia isso. Manche e manete de aceleração, por exemplo, eram segurados com as pontas dos dedos.

Todo avião tem um instrumento chamado indicador de curva e inclinação, em que o primeiro é num pequeno tubo curvo de vidro e dentro dele vai uma esfera de aço em meio a um líquido amortecedor. Ele me dizia, na maior parte das vezes rispidamente (sempre lhe serei grato por isso, instrução não é divertimento), para manter a esfera no centro. Isso significava iniciar uma curva suavemente e coordenando pé e mão (leme e ailerões), para que a esfera se mantivesse no meio da escala.

A suavidade do Salo era tanta que ele fazia looping com o Paulistinha P-56, avião de treinamento elementar que não é homologado para acrobacia, sem impor carga excessiva a asas e estrutura. Uma puxada mais forte para iniciar o looping ou um estol quando o aparelho estivesse de dorso, e eu não estaria aqui escrevendo a coluna. Um grande – e suave – piloto, o Salo, que depois de longa e brilhante carreira na aviação executiva aposentou-se e vive em São José dos Campos, SP.

Deixando o céu e voltando para a terra, tive algum tempo depois outro "instrutor" de como dirigir com suavidade: Jorge Lettry, no tempo em que era o chefe de competições da Vemag. Quando saíamos eu o via dirigir com tal delicadeza, que me impressionava. E, quase sempre, bem rápido. Embora nunca tivesse tomado parte de uma corrida, Jorge ensinava a seus pilotos, entre eles Mário César de Camargo Filho, o Marinho, como extrair o máximo rendimento do DKW-Vemag na pista.

Outro dia, conversando com o Jorge sobre isso, ele me confidenciou que teve um inspirador: o piloto paulistano Cláudio Daniel Rodrigues, de quem guarda as melhores recordações como um mestre na arte de pilotar. Particularmente, sua habilidade nas trocas de marcha em pista no MG TC eram admiráveis, contou.

Anos depois eu viajava pela BR-101 Rio—Santos em meu Passat LS na companhia de um casal de primos. A mulher, Anna, havia comprado uma filmadora Super 8 e me pediu para "baixar a bota", pois queria fazer umas tomadas de mim andando rápido, por pura farra. Dias mais tarde, filme revelado e projetado, decepção total: a objetiva registrara apenas uma pessoa dirigindo normalmente. O motivo, é óbvio, foi a suavidade em usar o volante e o câmbio mesmo andando no limite.

Foi por isso que alguns meses mais tarde, ao participar de uma reportagem da TV Tupi sobre a iminente reinauguração do Autódromo do Rio após reforma, e ter um cinegrafista no banco traseiro gravando uma volta na pista, mudei a tática. Apesar de rodar em velocidade muito aquém do normal num circuito, efetuei movimentos constantes e rápidos no volante, como se estivesse corrigindo atitudes do carro, e o resultado foi magnífico. Parecia uma volta de tomada de tempo.

Dirigir suavemente compensa. É mais agradável para todos, o esforço sobre os diversos componentes e sistemas do veículo diminui consideravelmente e, muito importante, a segurança aumenta bastante, em especial com piso molhado.

Logo no começo falei que quem está no carro não percebe que se está andando rápido, se feito de maneira suave. Fica, então, a dica para quem gosta de acelerar e leva passageiros receosos, como a mãe ou a esposa: inicie a marcha ou a viagem calmamente, sem grandes acelerações, e vá aumentando o ritmo de modo gradual, sempre com a máxima suavidade. Ninguém vai perceber e, melhor ainda, reclamar.

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Data de publicação: 11/9/04

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