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Imponderável

Até que ponto a espiral tecnológica do automóvel e do
computador nos torna uma espécie de cobaia?

por Luís Perez

Nesta semana o calendário entra no último mês do ano. Este colunista, por sua vez, entra em uma fase meio introspectiva. Um pouco pela proximidade do final de ano, outro tanto pela virada da idade, que por erro de cálculo (ou inconseqüência mesmo) dos meus pais acontece justamente no último dia do ano.

Fatos ocorreram nos últimos dias que me lembram cenas de filme: pessoas desesperadas pela iminência de um acidente ou por um doente grave na família. Não adianta. A tal evolução custa vidas, sacrifica qualidade de vida, cobra alguns anos da juventude. Por mais que se tente reproduzir as “circunstâncias reais” de determinado fenômeno, com a ajuda de computadores, simuladores etc., a realidade sempre se mostra imponderável. E a vida humana (mesmo a nossa própria) infinitesimal.

Confesso aqui certa influência do fato de, paralelamente com o exercício da atividade de jornalismo automotivo, estar editando uma revista de aviação. Li anos atrás uma entrevista com o comandante Rolim Amaro (que era o dono da TAM) na qual ele dizia que muitas vidas humanas ainda seriam sacrificadas para prevenir outros acidentes aéreos. Ficou chocado, caro leitor?

Pois isso ocorre em todos os campos (no automobilismo, na medicina, na economia, na psicanálise...). Lembra a canção Almanaque, de Chico Buarque (“Diz quem foi que fez o primeiro teto/ Que o projeto não desmoronou/ Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto/ E o valente primeiro morador”). Pois é. Depois que um automóvel é projetado e seu protótipo, construído, os motoristas de teste saem às ruas e às estradas para experimentá-lo em condições reais.

Ao que tudo indica, essa fase jamais será substituída. Milhões de quilômetros são percorridos para que se avaliem as reações de suspensão, freios, comportamento dinâmico, nível de ruído, rádio ligado, rádio desligado. Os profissionais da indústria automobilística chegam a ficar trancados no porta-malas para saber quanto do barulho do motor vaza para aquele compartimento. Simuladores? Microfones? Sensores? Bobagem! Não adianta fazer uso de eufemismos, tentar abrandar a realidade tão simples que relutamos em complicar com argumentos parabólicos: somos assim como ratos de laboratório cada vez mais cobaias, tamanhas e tantas são as inovações.

Assim como no século passado o sistema psicomotor foi praticamente transformado com o advento do automóvel (essa idéia não é minha e sim de um meu ex-professor, o historiador Nicolau Sevcenko; mas não é preciso ir muito longe para concordar com ela), o computador nos está transformando em criaturas de extremos.

Se nos anos 80 e até meados dos 90, gerações como a minha haviam perdido o hábito de escrever cartas, a violência nas grandes cidades combinada com as facilidades da internet resgatou o hábito da escrita (quantos de nós não nos pegamos escrevendo mentiras sinceras para pessoas a quem bem queremos?) ao passo em que nos manteve com os dois pés atrás. Escondido por trás de uma seqüência de cliques (“iniciar”, “desligar o computador”, “desativar”), é possível encerrar uma conversa que não nos agrada, pôr fim a um relacionamento (o qual não temos coragem de fazê-lo pessoalmente), nos dedicar de corpo e alma até que o modem nos separe...

Entramos no automóvel, fechamos a porta, damos a partida, engatamos primeira marcha e partimos da mesmíssima forma que um dia aprendemos a andar, abrir a porta de casa, acender a luz... Assim, naturalmente, vamos nos moldando às inovações que foram feitas a princípio exatamente para nosso bem-estar. O automóvel, assim como o computador, representa uma espécie de armadura. Ao volante ou ao teclado, se processa uma transformação.

O que é melhor, o que é pior? Simplista demais dizer que cidades “de verdade” são ruas estreitas, repletas de praças e calçadas amplas, hostis aos carros (de preferência cobrando pedágio), cada vez menos bem-vindos nos grandes centros urbanos. Afinal, escolhemos essa vida. E há muita gente que não vive sem infinitas highways – e olha que não são os Engenheiros do Havaii.

Um belo dia Sevcenko, o professor, que morou muito tempo em Londres, saiu para caminhar em uma cidade americana, dessas como Brasília, em que não se vive sem carro. A polícia o abordou. Achou que fosse um maluco, um maníaco depressivo ou algo que o valha, pois ninguém em sã consciência sairia para caminhar à beira daquelas auto-estradas de pelo menos quatro faixas de rolamento.

Onde termina o “ser normal” e onde começa a loucura? Até que ponto sabemos que reações vamos ter em relação a determinadas ações? Em que medida somos como aquele veículo que percorre milhões de quilômetros antes de chegar às lojas, que será levado a limites que mais tarde podem ou não, a alto custo, ser superados?

Tive outro dia uma longa conversa com Marcos Cesar Pontes, o único astronauta brasileiro em atividade na Nasa, a agência espacial americana. Ele me contou que, no espaço, o corpo humano perde massa muscular e densidade óssea, sem falar na exposição à radiação. Com que finalidade ele, uma pessoa superqualificada, será lançado ao espaço em 2006 (justamente quando é celebrado o centenário do primeiro vôo de Santos Dumont)?

É um extremo, que traduz com perfeição quase absoluta, em uma perspectiva histórica e científica, uma das razões pelas quais nos primeiros automóveis não havia o conceito de suspensão com amortecedor (ou seja, cada buraco virava um doloroso solavanco para o ocupante do veículo), quanto mais de ventilação (os automóveis eram uma verdadeira fornalha!). Por que duas ou três gerações atrás eram menos “cobaias” do que nós? E em que espécie de ser humano essa espiral tecnológica vai nos transformar?

Roda e avisa
Haja álcool 1 - Deu no Financial Times: com os modelos flexíveis respondendo por um terço das vendas, os investimentos na produção de álcool deram um salto no Brasil.

Haja álcool 2 - Só que a reportagem alerta: a demanda mundial pelo combustível pode aumentar ainda mais com o início do programa colombiano. Sem falar de União Européia, Austrália e Tailândia, que prevêem novos programas baseados em combustíveis fabricados a partir da cana-de-açúcar.

Espírito natalino 1 - Até o dia 20 de dezembro, as autorizadas Volkswagen vão promover a Revisão Solidária. O cliente leva um quilo de alimento não-perecível à revenda e ganha uma revisão de 27 itens em seu automóvel.

Espírito natalino 2 - A cada quilo de alimento recebido, a VW doará mais um (o que dobrará o volume total). O que for arrecadado será doado a entidades assistenciais indicadas pelas próprias concessionárias.

Eu também tenho! - Foi só a Citroën lançar o C3 Stop & Start no Salão de Paris que a Ford prometeu lançar o Liga-Desliga no Fiesta híbrido. Feito pela Valeo, reúne motor de partida e alternador em uma só peça.
 
Shopping
Pequeno grande - É colorido. Parece um chaveiro (e pode ser usado como tal). Só que capaz de carregar 512 megabytes de dados, fotos e música. É o Micro Mini Drive Iomega. Preço: R$ 756.

2005 vem aí - Já está nas bancas o Carros 2005, especial da revista Quatro Rodas com mudanças, lançamentos e versões de 182 modelos, ficha técnica e preço. Foi editada por este colunista, com reportagens de Fabiano Pereira (colaborador do BCWS) e Daniel Messeder. Preço: R$ 9,95.

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Data de publicação: 30/11/04

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