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Em tempo real

Nossa mania de controlar e o que está por trás
da vigilância a que somos submetidos o tempo todo

por Luís Perez

Bem antes de George W. Bush (o filho) sair à caça de Saddam Hussein, em 1991 houve a Guerra do Golfo. Só quem era muito novo não se lembra da tela verde, que mais parecia videogame (um jogo, se não me engano, chamado Demon Attack), com o logotipo da CNN, que despontava para o mundo. Era a guerra ao vivo.

Três anos depois, Ayrton Senna morreu na curva Tamburello, no GP de Imola, na Itália. Sonolento no sofá, fui acordado pelo grito de Galvão Bueno: “Senna bateu forte!” Até hoje acho estranho que não existam imagens da câmera de bordo da Williams – se havia, foram providencialmente abafadas. De qualquer forma, ouvi na época milhares de versões: Senna poderia ter sofrido uma parada cardíaca (como, assim, do nada?) e perdido a direção; não precisaria do impacto com o muro, pois só a desaceleração já seria fatal; na gritaria, teriam sido confundidos o nome do projetista Patrick Head com “o problema de Senna é na cabeça (head)” ou “está morto (dead)”.

Nem precisa ser repórter por um dia do Fantástico. Todo mundo pode palpitar – algo que ficou ainda mais evidente na era da internet, com seus fóruns e afins. Nas provas de Fórmula 1, as câmeras, que mais parecem fazer a corrida parecer um big brother da velocidade, procuram não deixar escapar nenhum detalhe. O diretor de imagens deve ficar enlouquecido, com um nível de tensão talvez semelhante ao de controladores de vôo no aeroporto de Congonhas. Há câmeras até no asfalto.

Já o público (sobretudo os aficionados) tem motivos para ficar indignado, pois vê exatamente o que o locutor (que tem a inglória tarefa de narrar e informar) está vendo. Alguns com mais informações do que o próprio locutor. Não é à toa que multiplicam-se na internet os sites na linha “eu odeio o Galvão Bueno”.

Neste domingo, no entanto, vi algo que me impressionou. Foi na transmissão da Stock Car. Câmeras que mostram o trabalho e a fisionomia dos pilotos já não chegam a ser novidade. Agora existem aquelas que registram o trabalho do motor em funcionamento. Ou seja, é como descobrir que problema o carro teve – claro que não é para qualquer um – ao mesmo tempo em que os mecânicos da equipe. Assim, em tempo real.

Não é de hoje que, quando saímos às ruas, somos vigiados o tempo todo. Por câmeras que só nos monitoram – ou por algumas que nos multam.

Então decidimos ir ao litoral, descansar um pouco. Alguém já entrou na sala de controles da Ecovias, a concessionária que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, estradas que levam ao litoral paulista? Pois lembra a sala do tal diretor de imagens da corrida de F-1. É possível acompanhar um mesmo automóvel ponto a ponto até a Baixada Santista.

Acompanhar? Para quê, se já inventaram rastreadores que, por um código digitado na tela da internet, mostram onde o veículo está? É mais difundido em transporte de carga (a Autotrac, empresa do ex-piloto Nelson Piquet, tem um sistema assim), mas para chegar aos modelos de passeio é um pulinho.

Dez anos depois da morte de Senna, vivemos a era dos reality shows. Necessidade de bisbilhotar a vida alheia, saber como os outros "funcionam". Toda essa vigilância tem um lado muito bom. Sentimo-nos seguros. Todos sabem nossos passos o tempo todo – é praticamente impossível sumir, desaparecer, voluntária ou involuntariamente. Neste último caso, o caráter big brother da tecnologia tem muito a nos ajudar.

Por outro lado, isso tudo é um sinal: o ser humano não está sabendo conviver com regras mínimas de civilidade, de respeito ao próximo. A ponto de precisar ser vigiado o tempo todo. Mau sinal.

 



Na entrevista, converso com Cecilia Bellina, psicóloga especializada em medo de dirigir, que conta fatos interessantes sobre as pessoas com fobia do trânsito. Continua

Roda e avisa
Realidade - Só na última semana a Ford lançou o novo Fiesta com motor flexível. Alguém se lembra que esse (quem diria!) foi o primeiro flex apresentado ao mercado, estaticamente?

Ainda a Ford - O Fiesta hatch passa a adotar a nova nomenclatura de catálogos que distingue as versões da linha, agora divididas em First, de entrada, e Trend, mais equipadas. O motor tem 111 cv com álcool e 105 cv com gasolina e promete fazer até 14 km/l (com gasolina, é claro).

Barbárie 1 - Este colunista pensou que já havia visto tudo em termos de absurdo no trânsito. Até que se deparou, dia desses, com um motociclista que levava uma criança de seus cinco anos sobre o tanque da moto. Detalhe: ele usava capacete fechado. A criança, nem capacete nem óculos.

Barbárie 2 - Não só é comum ver crianças no banco da frente (do passageiro), como já se tornou freqüente que elas estejam no colo de adultos.

Barbárie 3 - Não é que o motorista do Omega, na marginal Pinheiros (São Paulo), fazia um absurdo de barbeiragens? Acredite: no colo do motorista, um poodle cor-de-rosa...

Paraolímpicos - A locadora Hertz anunciou ter automóveis adaptados para portadores de deficiência. Este colunista foi ao centro de São Paulo no sábado. Procurou tal regalia em cerca de 10 locadoras de várias marcas. Ninguém tinha. E a Hertz já havia fechado às 12h.

Diversificação - Enquanto não descobrem os deficientes, as locadoras diversificam suas atividades: motoristas particulares e gerenciamento de frotas são alguns filões explorados.
 
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Dia das Crianças - Não é só para quem é pequeno: o Ford Modelo A Pick-up de 1913 é uma miniatura em série limitada em comemoração aos 100 anos da Ford, no ano passado. Custa R$ 580.

Artesanal - Quem prefere pôr a mão na massa tem à disposição o Rotomatic, um kit de ferramentas completo, com 60 acessórios, que poupa espaço de caixa de ferramentas. Sai por R$ 190.

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Data de publicação: 21/9/04

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