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Obras da ditadura

O governo militar que construiu a ponte Rio-Niterói
também contaminou a atitude de motoristas

por Luís Perez

Este colunista acaba de chegar de viagem. A trabalho, foi de carro para o Rio e, de lá, para Armação dos Búzios, cidade do litoral fluminense imortalizada por ter sido nos anos 1960 uma espécie de refúgio da atriz francesa Brigitte Bardot. Para chegar à região dos Lagos, onde está Búzios, é preciso atravessar uma das mais formidáveis obras viárias já realizadas no país – a ponte Rio-Niterói.

Seus 13,9 quilômetros de comprimento por 20 metros de largura, em uma estrutura que atravessa a baía de Guanabara (de onde se avistam os principais cartões postais do Rio, como o Corcovado, a Ilha Fiscal e o aeroporto Santos Dumont), foram entregues ao tráfego em um 5 de março de 1974. Ou seja, há 30 anos, quase dez anos após o golpe militar que derrubou João Goulart.

É uma espécie de símbolo do chamado “milagre econômico”, época em que foram investidos alguns milhões que nunca mais voltaram em outras tantas empreitadas, como a Transamazônica. Sim, não deixaram de ser tempos prósperos. O Salão do Automóvel que acontece a cada dois anos (neste, por exemplo), em outubro, surgiu em 1960. Foi inaugurado em um 25 de novembro, no parque Ibirapuera.

De uma indústria até então incipiente (que merecia ser chamada de montadora, como muitos ainda a denominam), o ano de 1962 foi histórico: nasceram o Simca Rallye, o Renault Gordini e o Toyota Bandeirante a diesel, modelo que ficou 40 anos “em cartaz”. Foi em 1968 que a General Motors lançou seu primeiro automóvel de passageiros, o Opala. Ora, e quantos anos esse modelo reinou...

No mesmo 1974 em que a ponte foi aberta, a Volkswagen começou a fabricar o Passat (sim, esses super-resistentes que superam toda sorte de contratempos no Iraque), seu primeiro carro com tração dianteira e motor refrigerado a água. Dois anos depois, a Fiat desembarcava com seu 147 – motivo de muita dor-de-cabeça para a fábrica, mas nem por isso menos importante.

Então, pelo menos no que diz respeito ao progresso da indústria automobilística (uma das grandes vitrines daqueles governos) e nas obras viárias, a ditadura militar foi positiva? Para certas pessoas, não foi apenas nesse sentido. Vez ou outra ouço alguém dizer que naquela época havia progresso, que os militares é que sabiam governar, pois tinham pulso firme.

Como se a democracia fosse execrável pelo simples fato de expor publicamente as divergências de opinião, de as decisões demorarem mais para ser tomadas porque todos os lados precisam ser ouvidos etc. Ora, há quem chame 1964 de revolução, sem, no entanto, lembrar que dois séculos antes o Iluminismo herdado da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão foi o ideário da Revolução Francesa de 1789.

E não é que, apesar de a regra ser clara (o que virou bordão de um ex-juiz de futebol), muita gente ainda age como se elas mudassem ao sabor dos ventos? O que é isso? Em parte, os efeitos culturais, em sentido amplo, daqueles anos em que eu era criança repreendida por cantar o hino nacional na rua. “Você quer ser preso?”, disse uma amiga a este colunista, que apesar dos sete anos de idade nunca esqueceu a história.

Minha geração (a de quem tem hoje por volta de 30 anos), por mais que não se sinta diretamente afetada pela “redentora”, herdou daqueles tempos uma resistência em explicar o porquê de certas atitudes. A lei é a de quem tem armas e de quem grita mais alto. Nessa viagem ao Rio, segui aquela regra de ouro segundo a qual o melhor, para a segurança, é ver e ser visto.

De tanto ser repreendido por acender os faróis baixos ainda sob a luz do dia, resolvi apagá-los. Um dos que se “vingaram” dos maus faróis altos tratando de acender os seus na minha traseira era um modelo todo filmado (com películas que talvez chegassem a 100%) com um engate traseiro que nunca deve ter visto um reboque na vida. No decorrer da viagem, foram muitos os exemplos.

Pior é lembrar que as regras estão escritas – em um código de trânsito, por sinal. E a impunidade é alimentada pela falta de fiscalização. Pela mentalidade do “porque sim, porque não” semeada nos 21 anos de ditadura, que contamina a atitude de muita gente que vive de alguma forma sob a influência daqueles anos. Triste é constatar que muita da pujança que existe hoje veio tão-somente daqueles anos de chumbo. E olha que muita água já passou sob aquela enorme ponte. Continua

Roda e avisa
Aniversário 1 - O CPCA (Campo de Provas da Cruz Alta), da General Motors do Brasil, que surgiu de uma fazenda de café em Indaiatuba (SP), acaba de completar 30 anos.

Aniversário 2 - Em uma área de 11,3 milhões de metros quadrados e 40 quilômetros de pistas, o campo de provas da GM é o maior da América Latina e o terceiro mais importante do grupo.

Econômicos - Por falar no campo de provas, o local vai sediar no sábado (dia 31) a Maratona DANAtureza, competição com veículos supereconômicos, projetados por estudantes de sete faculdades, capazes de percorrer até 700 quilômetros com um litro de gasolina.

Pela terra - Está quase tudo pronto para a Adventure Sports Fair, feira do mercado fora-de-estrada que reúne também empresas de equipamentos e agências ecoturísticas. Será de 7 a 11 de agosto, no pavilhão da Bienal do parque Ibirapuera.

Falando nisso... - O EcoSport 4x4, da Ford, ainda precisa enfrentar muita lama para conquistar a confiança dos jipeiros profissionais. O carro não tem tanto ibope assim com amantes de trilhas radicais.

Boa praça - Até o dia 31 é possível conferir a mostra “Fuscas e Cores”, do artista plástico Reynaldo Berto, inspirada no modelo da Volkswagen. Os Fuscas aparecem de forma bem humorada, em telas e esculturas de madeira pintada, no Fran's Café da praça Benedito Calixto (Pinheiros, zona oeste de São Paulo).

Confiança - A AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva) realiza no dia 4 de agosto o workshop “Modelos de Confiabilidade e Técnicas de Diagnósticos de Máquinas - Aplicação em Manutenção e em Processos”. O evento será na Unip (Universidade Paulista). O programa tem o objetivo de apresentar os conceitos básicos de confiabilidade de um produto e como desenvolvê-los.
 
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Agora em DVD - ”Técnica 4x4” é o nome do DVD do professor João Roberto de Camargo Gaiotto, que ministra cursos de fora-de-estrada para a DPaschoal. A obra traz iniciação, técnicas de condução e resgate. Seu preço sugerido é de R$ 40. Informações: (11) 276-5311.

Estupidamente gelado - Quem não tem aqueles compartimentos refrigerados no carro pode adquirir a caixa térmica Mini Cooler, que funciona com pilhas. Um mimo é o rádio AM/FM. Pode ser ligado na tomada de 12 volts ou no acendedor do carro. Custa R$ 240.

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Data de publicação: 27/7/04

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