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Entrevista

"Cheguei para uma palestra de terno e gravata, dirigindo a Kombi. Veio um cara e disse: 'O senhor não pode parar aí'"

Heródoto Barbeiro

Jornalista, apresentador do Jornal da CBN e do Jornal da Cultura, e ex-auxiliar de mecânico


Autogiro – Heródoto, a primeira coisa que eu gostaria de saber é: o que seu nome tem a ver com sua maneira de dirigir?

Heródoto Barbeiro – Bom, para você ter uma idéia, há duas questões. A primeira coisa que a pessoa lembra quando se fala "barbeiro" é alguém que dirige mal. Mas isso não foi o que mais me pesou. O que mais pesou foi quando tirei brevê. Quando você tira brevê, você tem um nome de guerra. E seu nome de guerra pode ser qualquer um de seus nomes. Aí o pessoal brincava, perguntando: "Escuta, você quer que seu nome de guerra seja 'piloto Barbeiro'?" [risos]. Eu respondia que era melhor não colocar esse nome, pois não iam me deixar voar.

AG – Mas dirigir mal não é o seu caso?

Heródoto – Não. Em que pese eu já ter perdido a carta de motorista recentemente. Fiquei 30 dias suspenso, porque estourei de pontos. Os meus motivos pessoais foram utilização de celular no carro. Isso realmente é fato, porque jornalista mexe com isso.

Mas eu também tentei explicar dizendo que o carro era usado pela minha mulher e pelo meu filho. Daí disseram que não iam aceitar essa desculpa, porque todo mundo fala a mesma coisa. Então, entre ficar esperando a renovação da carteira, na qual eu seria suspenso por 60 dias, e entregar espontaneamente, ficando 30, eu preferi entregar e fiquei 30 dias sem dirigir.

AG – Arriscou a ficar dirigindo sem carteira?

Heródoto – Não. Aí ia ser pior, até por uma questão de ordem moral. Fiquei moralmente comprometido em não dirigir. Aí andei de táxi ou de carona. Portanto você vê que meu nome pesou um pouco...

AG – Agora, quem ouve rádio sabe que você tem uma Kombi...

Heródoto – É, eu tenho.

AG – E a usa no dia-a-dia?

Heródoto – Uso mais para ir para um sítio que eu tenho próximo a São Paulo. Vou sempre e volto de Kombi no fim de semana. E, quando tem rodízio, eu uso a Kombi. Mas já fui, por exemplo, dar palestra no [hotel] Transamérica, de gravata e paletó e de Kombi, porque era dia de rodízio. Aí estacionei, e o cara falou: "O sr. não pode estacionar essa Kombi aí". Falei: "Pô, mas eu vou dar palestra. Quero deixar no estacionamento". Daí larguei a Kombi lá e, quando voltei, estava no fundo do hotel. Não haviam deixado a Kombi na frente...

E também mais de uma vez já cheguei a lugares, como feira do livro, com um monte de gente na frente, fui encostar a Kombi, e o cara falou: "Não, não pode. Acabou o horário de entrega".

AG – É uma Kombi branca?

Heródoto – Sim, atualmente é branca. Mas essa daí é minha terceira ou quarta Kombi.

AG – Você não acha que é um carro meio antiquado?

Heródoto – Eu acho, mas, se você fizer uma análise de custo-benefício, ele ainda é muito bom. Melhor do que esses carros por aí. Para você ter uma idéia, por essa Kombi zero-quilômetro eu paguei R$ 20 mil. Quanto é que vou pagar por um carro semelhante? R$ 40 mil? R$ 38 mil?

AG – É, na Alemanha, a Kombi como conhecemos aqui já é peça de museu...

Heródoto – É, eu sei. Apesar de que, nessa nova, coloquei GNV [gás natural veicular]. E está mais estável. Eu não me arriscava a andar a mais de 100 km/h com as anteriores. Com essa, eu ando a mais de 110 km/h.

AG
– Você já pensou no carro não só do ponto de vista técnico, mas sob uma perspectiva histórica?

Heródoto – Já pensei... O meu pai foi dono de uma casa de peças de automóveis e de conserto de carros. Eu trabalhei como auxiliar de mecânico dos 14 anos até os 20. Então, o que você possa imaginar de remendo e conserto de carros antigos, de arrancar motor na rua, eu fiz.

Agora eu não entendo absolutamente nada. Sou da época do carro com dínamo, carburador, bobina, cachimbo, condensador, platinado. Para você ter uma idéia, peguei uma época em que o limpador de pára-brisa era movido por sucção do motor. Não era elétrico. Hoje é tudo eletrônico. Mas na época era movido por um tubo que sugava a maquininha, e ela limpava o vidro do carro.

Trabalhei muito em carros antigos, na época não tão antigos. Isso foi 40 anos atrás, e andei muito com as mãos sujas de graxa e queimadas pelo ácido sulfúrico que tem na bateria. Queimava a mão e parecia encardido...

AG – Mas você acha que o automóvel ajuda a contar a história do país, determinado tipo de modelo, em certas épocas?

Heródoto – Não, acho que no Brasil só recentemente. Eu diria que o carro só conta a história do Brasil após a era Juscelino Kubitschek [1955-1960], que é quando você efetivamente tem uma indústria de carros no Brasil. Antes você tinha montagem. Cheguei a conhecer montadoras de caminhões. Eu trabalhei, por exemplo, quando começou a circular o DKW-Vemag, que era fabricado no Brasil sob licença da Auto Union, e mexi muito com os primeiros Volkswagen fabricados no Brasil. Eram carros simples de mexer, mas não eram eletrônicos. Hoje não pode pôr a mão. Eu, por exemplo, colocava carro no ponto só com chave de fenda.

AG – Uma coisa que pode parecer fora do assunto, mas não é, é o seguinte: você dorme quando? Você dorme de tarde? Abre a CBN, fecha a TV Cultura [o Jornal da CBN vai ao ar das 6h às 9h, e o Jornal da Cultura, das 21h às 21h40]...

Heródoto – Não, não durmo de tarde. Eu acordo 4h50 e chego aqui [à sede da CBN] às 5h30. Vou dormir às 23h30. Durmo umas quatro horas e meia, cinco horas, por dia.

AG – Porque tem a ver com o assunto...

Heródoto – Por dormir ao volante? Já dormi no volante, mas trabalhando, à noite. Houve momentos de ter de parar fora da estrada para dormir fora do carro e depois prosseguir. Mas passei por situações perigosas.

AG – O segredo de manter essa sua rotina é a regularidade?

Heródoto – Sim. Primeiro você tem de treinar. Depois, você não pode cometer excesso nenhum. Não pode beber, não pode comer muito, não pode comer à noite. Tem de levar uma vida bem organizada. Senão, você não consegue.

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Foto: Luís Perez

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