Best Cars Web Site

No tempo das portas suicidas

Depois de décadas, as portas que se abrem ao contrário
voltam em vários modelos: será uma nova tendência?

por Roberto Pontual - Fotos: divulgação

É difícil saber qual foi o primeiro, como todos os “primeiros” da história. Mas o fato é as portas que se abrem a favor do fluxo de ar estão entre nós há muito tempo. Também não se sabe quem foi o inventor do termo porta “suicida”, mas que é um tanto impróprio, é. Pelo menos não se conhece caso de porta desse tipo que se tenha aberto e o passageiro sido projetado do carro. Provavelmente aconteceria o mesmo se a porta abrisse para a frente.

Há inúmeros exemplos de portas que abriam para trás. Até aqui mesmo. Nosso primeiro automóvel, a perua DKW-Vemag chamada Universal (foto abaixo), tinha esse sentido de abertura. Um ano e pouco depois o modelo evoluiu e passou de F-91, o modelo que teria surgido em 1940 não fosse o início da Segunda Guerra Mundial, para a mais moderna e larga F-94. Mas a porta “suicida” foi mantida por mais seis anos, até que finalmente, em 1964, a Vemag alterou o desenho original.

Coube ao então jornalista Mauro Salles, do jornal O Globo, que logo depois fundaria sua agência de publicidade e cuidaria por cerca de 20 anos da conta da Ford, a frase “portas que se abrem no bom sentido”. Coisa de publicitário, e dos bons.

O Volkswagen, desde sua concepção em 1934 até que Daimler-Benz apresentasse a série 30 de 12 protótipos em 1937 (colaboração a pedido do governo), apresentava esta solução de abrir as portas para trás. O mesmo ocorria com carros de alto preço e prestígio como o Mercedes-Benz 540 K da década de 1930. O Citroën 7CV de 1934, depois 11CV, também aderiu ao princípio.

Portanto, se as portas eram feitas dessa maneira, é de se supor que tivesse apreciadores. Nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930 as duas soluções conviveram em harmonia, evidência de que havia prós e contras.

Quem dirigiu carros com essas portas, no caso dianteiras, nunca teve motivo real para reclamar. Inclusive, em climas quentes como o Brasil, ajudavam a ventilar o interior em condições de tráfego lento abrindo-a ligeiramente (leia coluna da edição nº. 149). Mas havia uma reclamação de namorados e maridos ciumentos: mulheres, ao entrar e sair, tinham de ter extremo cuidado em manter as pernas juntas, ou revelavam-se as partes íntimas do corpo....

Outra forma de abertura de porta para trás era nos carros de quatro portas. Alguns ainda se lembram do Fiat 1100 e de seu clone Simca 8 do pós-guerra que, como vários modelos da época, haviam sido projetados na década anterior, antes do conflito. Esse modelo não possuía a coluna central e as portas traseiras abriam “à suicida”.

O acesso ao banco traseiro era inigualável, como é de se supor. O vão de acesso era enorme e as fechaduras funcionavam no princípio da tramela de porta ou janela,

utilizando o teto e a soleira das portas para se encaixarem. Mas o sistema não duraria muito devido à inerente pouca rigidez torcional resultante, pois coluna central normalmente faz falta. Só que hoje a tecnologia consegue contornar essa ausência.

Têm aparecido alguns carros com uma terceira ou terceira e quarta portas abrindo-se para trás. É o caso do Saturn Ion Quad Coupé, da GM americana, com uma porta no lado esquerdo (versão Ion-2), ou em ambos os lados (Ion-3, acima), “para facilitar a colocação de algumas compras de supermercado e a pasta”, como já disse a fábrica em material de divulgação de seu antecessor, o SC2.

Outro que se vale do conceito sem coluna e com portas traseiras abrindo-se para trás é o Mazda RX-8 (foto no alto), um cupê de quatro lugares com motor rotativo de princípio Wankel. Aqui temos o Ford Ranger Supercab (cabine-e-meia), com pequenas portas traseiras que se abrem para trás também. Em todos estes casos, só se tem acesso à maçaneta externa de uma dessas portas após abrir a porta dianteira do mesmo lado.

O sistema tradicional, em que as portas traseiras podem ser abertas de modo independente das dianteiras, parecia extinto até que a BMW apresentasse, no último Salão de Detroit, o Rolls-Royce Phantom (abaixo), primeiro modelo da marca britânica concebido sob o guarda-chuva alemão. O acesso ao banco traseiro do novo Rolls tem sido muito elogiado, sendo de se supor que possa levar outros fabricantes a copiar a iniciativa.

Clique para ampliar a imagem

Só faltava mesmo algum fabricante apresentar um conceito ou modelo de série com as quatro portas abrindo-se para trás, mas quem vive o mundo do automóvel sabe que nada é impossível na indústria automobilística. Afinal, os capôs passaram a abrir para a frente — por razões de segurança — e voltaram a abrir para trás, não foi?

Quem pode garantir que a máquina do tempo não trará o “mau sentido” de volta?


Caros amigos,

Depois de estar com vocês 12 vezes falando sobre as coisas do passado ligadas à mobilidade, estou me despedindo. As razões são de cunho exclusivamente pessoal, uma vez que estou partindo para nova atividade e me ficaria muito difícil arranjar tempo para escrever a Máquina do Tempo e participar deste site fabuloso.

Agradeço a atenção que vocês me dispensaram e fico na torcida, de carteirinha e tudo, para que o BCWS possa ser cada vez mais útil a seus leitores-amigos.

Roberto Pontual

Colunas - Página principal - e-mail

Data de publicação: 10/6/03

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados