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Comprar carro era bem diferente

Mudaram bastante as relações entre comprador e
vendedor, para sorte do primeiro e desespero do segundo

por Roberto Pontual - Fotos: divulgação

Não há como negar: comprar carro hoje é bastante simples. Nem é preciso mais ir a uma concessionária ou loja para conhecer o carro, ou pedir ao fabricante que envie catálogos e brochuras para nossa casa. A internet veio facilitar a procura e a escolha e, por que não, revistas e jornais multiplicaram-se para essa finalidade. Bom para o comprador.

A GM brasileira deu passo pioneiro ao associar ao novo modelo Celta a venda pela internet, em setembro de 2000. Outros fabricantes seguiram, ainda que timidamente no começo. Hoje é uma realidade comprar pela grande rede.

Nem sempre foi tão fácil. A partir dos anos 1930 estabeleceu-se de maneira mais ordenada o sistema das “agências”, precursoras das concessionárias de hoje (no alto, uma da Ford em Lins, SP naquela década). Uma agência era geralmente um galpão com pequena loja na frente e oficina atrás. Os grandes salões de vendas já existiam nas principais capitais da Europa mas demorariam a chegar aqui, principalmente por questão de volume.

As agências mais conhecidas no Brasil eram a Ford e a Chevrolet, reflexo da chegada bem cedo das duas empresas ao Brasil, a primeira em 1919 e a segunda em 1925. A figura da agência da marca e a igreja nas cidades interioranas logo se formou, evidenciando a influência do automóvel em nossas vidas. Muitos anos depois o fenômeno se repetiria com a marca Volkswagen, que dominaria o cenário.



O volume de vendas, como dito antes, era muito baixo. O automóvel não estava ao alcance da população senão para os mais abastados. Isto há muito não acontecia nos Estados Unidos, graças à visão e à iniciativa de Henry Ford em popularizar o automóvel, materializada com o Modelo T (foto acima) em 1908. Mas acontecia na Europa, onde somente os mais favorecidos podiam ter carro.

Na Alemanha da década de 1930, Hitler vislumbrou o que lhes renderia em termos políticos possibilitar o acesso dos assalariados ao automóvel. Lançou a idéia do carro popular no país e da iniciativa resultou o Volkswagen, que ficou pronto mas não serviu ao propósito, pois a Segunda Guerra Mundial começou antes.

Após a guerra recomeçou a importação de carros para o Brasil, que se acelerou nos anos 1950. Chegavam dos Estados Unidos e da Europa. As vendas eram feitas praticamente à vista, não existiam mecanismos de financiamento consistentes. Quando havia, era concedido diretamente pelo vendedor, assim mesmo em poucas parcelas.

A percepção do mercado sobre um determinado modelo era mais difícil, pois a televisão não existia ou engatinhava e as publicações dedicadas a automóvel eram raras. Um grande passo nesse sentido foi o surgimento da Revista de Automóveis, em 1954, na qual o público podia ler sobre veículos com mais freqüência. A publicidade, quando havia, se concentrava nas revistas semanais como O Cruzeiro e nos jornais.

Com a chegada do Volkswagen (abaixo) em maior volume a partir de 1953, quando se iniciou sua montagem aqui, logo apareceria a figura do ágio, ou sobre-preço, pois a procura pelo modelo superava de longe a oferta. Logo começaria a se implantar e consolidar a indústria automobilística local e, com ela, a oferta maciça de diversos modelos de veículos. Vez por outra faltaria carro para atender à demanda e o ágio voltaria com força, caso do Corsa em 1994, assim permanecendo por pouco mais de um ano.



A partir dos anos 1960 começou a se delinear o formato que conhecemos hoje, o das redes de concessionárias e seus mecanismos de financiamento. Foi nesta década também, mais para o final, que surgiu forma de venda ao que parece inventada no Brasil: o consórcio.

Essa maneira de comprar sem juros — o preço do carro é dividido entre o grupo de consorciados — teve grande popularidade e foi de grande valia para o consumidor no período da inflação galopante e de juros abusivos dos anos 1980.

Foi também na década de 60 que surgiram publicações especializadas ainda hoje existentes. E a televisão chegava com força total, marcada pelo surgimento da TV Globo em 1965 a fazer frente à TV Tupi. O automóvel mais e mais era anunciado nos meios de comunicação.

Hoje o mercado está totalmente favorável ao comprador e não há sinal de que o quadro venha a mudar nunca mais. O binômio muita oferta-quadro econômico desfavorável tem feito o inferno dos fabricantes, que precisam fazer de tudo para esvaziar seus pátios, mas em contrapartida é o céu dos consumidores. Nunca foi tão fácil comprar.

Os feirões, antes eventos raros, hoje estão mais para regra do que para exceção. A operação que os marqueteiros chamam de breca-varejo (“Não compre carro nesta sexta-feira”) se banalizaram. Não é exagero dizer que hoje só não compra carro novo quem não quer.

Ainda bem.

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Data de publicação: 27/5/03

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