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Quando o calor e
o frio incomodavam

Para muitos andar de automóvel era um suplício em um tempo em que nem ventilador havia nele

por Roberto Pontual
Fotos: divulgação

Por ser usado eminentemente ao ar livre, o automóvel e seus ocupantes padeciam do que antigamente se chamava de “inclemência do tempo”. Em nosso caso, com temperaturas médias anuais acima de 20°C e muito sol, sofria-se ao andar de carro. É por isso que muitos iniciavam as viagens logo ao amanhecer, como maneira de fugir do calor. “Vamos sair cedo para amanhecer na serra”, era comum se ouvir do chefe de família, que quase sempre era o único a dirigir o carro da casa -- também único.

Antes que o ar-condicionado, surgido em 1940 no Packard, se popularizasse, era preciso combater o calor de alguma forma. Havia carros como o Citroën 11 em que o pára-brisa abria-se basculando-o para a frente (foto abaixo), uma solução das melhores ao se dirigir num dia quente, embora fosse aconselhável algum tipo de óculos. As primeiras Kombis montadas no Brasil traziam este tipo de ventilação. Havia até um encaixe na dianteira para prender os limpadores de pára-brisa enquanto os dois vidros eram levantados.



Outra arma contra o calor eram os carros com porta “suicida”, abrindo-se para trás, como o DKW-Vemag até 1963 e o citado carro francês. No tráfego anda-e-pára, abrir ligeiramente a porta promovia um turbilhão de vento no interior. Só que fazer isso hoje, com os motoboys zunindo entre as filas de carros, seria acidente na certa...

Muitos recorriam ao tradicional ventilador, com grade de proteção e tudo, montado no painel. Era um acessório caro, geralmente importado, e não era todo mundo que podia comprá-lo. Os sistemas de ventilação ainda não tinham chegado ao interior dos painéis de instrumentos, o que só se daria no começo dos anos 50, nos carros americanos, e no final da década nos europeus.

A coisa se complicava nos dias de chuva, nem sempre associados a frio -- pelo contrário. Foi onde a calha de chuva se mostrou útil, pois permitia rodar com os vidros parcialmente abertos sem entrar água no carro. Só que as calhas resistiram ao tempo e até hoje vê-se carros novos com esse destoante equipamento estragando a aerodinâmica e a estética.

Há a questão da cor. Está mais do que provado que as cores claras repelem o calor, ao contrário das escuras, que o absorvem. Estudos mostram que sob sol o interior de um carro branco chega a ser oito graus mais fresco que o de um carro preto. Mas ninguém explica por que o brasileiro gosta tanto de carro --

por fora e, sobretudo, por dentro -- escuro, para não dizer preto.

Quando os carros eram importados, os departamentos de vendas das matrizes lá fora recomendavam cores claras para o Brasil, e por isso se vê tanto carro antigo de cor clara ou mesmo branco. Depois a coisa reverteu e o preto passou a imperar. Seria alguma conotação de carro oficial, de carro de gente importante? Pode ser.

Os DKW-Vemag tiveram um bom tempo a pintura em duas tonalidades, com teto branco e o restante da carroceria de outra cor. Essa sempre foi uma solução européia para os carros de exportação ou os que seriam usados nas latitudes mais baixas. Ajudava bastante a suportar o sol do Brasil, um dos países de maior insolação que se conhece (daí ser adequado para a agricultura, pela fotossíntese mais intensa).

Com o ar-condicionado, introduzido aqui pelo Willys Itamaraty (foto acima; saiba mais sobre esta e outras primazias), o mundo interior do automóvel tornou-se outro. Conjugado com o sistema de aquecimento, o conforto subiu para níveis impensáveis há 30 anos. Os sistemas de controle automático, cada vez mais presentes, são uma dádiva para quem anda de carro.

Já no sul e no sudeste do Brasil faz frio no inverno, e dispor de ar quente no automóvel hoje é imprescindível. Quem teve Fusca na fase inicial da montagem no Brasil se lembra de que o carro vinha com ar quente de fábrica -- embora os primeiros sistemas coletassem ar aquecido pelos cilindros e cabeçotes.

Se houvesse vazamento de gás de escapamento entre essas duas peças, era monóxido de carbono e outros gases que vinham para o interior. Alguns anos depois a VW modificou totalmente o sistema, passando o ar quente a ser produzido em câmaras especiais no sistema de escapamento, em que a possibilidade de defeito era mínima.

Dirigir agasalhado demais tolhe os movimentos, e a vantagem do ar quente reside justamente em se poder usar roupas leves mesmo fazendo frio intenso. A Ford americana tem um programa para estudar os efeitos da terceira idade sobre o motorista, no que tange os movimentos. Para isso simula idosos dirigindo com jovens vestindo roupas especiais que deixam o corpo enrijecido.

Mas foi só o Fusca, pois tudo o que vinha para o Brasil, que era transplantado para cá, tinha retirado o sistema de aquecimento do interior pela fábrica. Felizmente o consumidor passou a ser mais respeitado e nefasto procedimento não existe mais. O aquecimento hoje é praticamente um item de série.

Sentir calor e frio no automóvel é mesmo -- para muitos -- coisa do passado.

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Data de publicação: 13/5/03

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