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Ônibus que deixaram saudade

Esses veículos urbanos eram mais bem integrados
e favoráveis à paisagem -- e aos passageiros

por Roberto Pontual - Fotos: divulgação

Quando os ônibus começaram a tomar a forma tal como os conhecemos hoje, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, percebia-se um quê de poético e de “desenvolvido” neles -- ainda estava longe o termo “primeiro mundo”. Pareciam-se com os que se viam nos filmes americanos e europeus, principalmente os primeiros.

Talvez porque houvesse poucos automóveis então, a sensação é que os ônibus faziam jus à origem de seu nome em latim, omnibus, que quer dizer ‘para todos’. Havia mais espaço entre as fileiras dos bancos -- passo do banco, um importante dado quando se fala em aviões hoje -- e eles eram mais confortáveis (hoje há bancos de plástico). Ou seja, todos podiam usá-lo e o usavam, do mais pobre ao mais rico. Era mesmo para todos.

Duas marcas se destacavam, a americana GM e a inglesa Aclo. Ambas chegaram após a Segunda Guerra e o GM (foto no alto) trazia como novidades o motor transversal colocado na traseira e o câmbio automático. O motor era o diesel a dois tempos com soprador (blower), típico da marca, e seu ruído (baixo) era inconfundível.

Para o passageiro não havia nada melhor e mais conveniente. O calor e o barulho ficavam lá para trás e o primeiro degrau da escada era quase no nível da calçada. Sua aceleração era convincente e suave, sem trancos, graças ao câmbio automático de duas marchas.

No Rio, os bem-humorados cariocas logo o apelidaram de “Gostosão”. A calibragem da suspensão era de ônibus, não de caminhão, e seu rodar era dos mais confortáveis.

O Aclo daqui era semelhante a este, mas
com a cabine do motorista no lado esquerdo

Já o Aclo, lá do outro lado do Atlântico, veio como chassi e foi encarroçado pela Grassi, de São Paulo. Era enorme e tinha uma característica incomum: havia uma cabine só para o motorista. A seu lado, mas na parte externa, o motor. Esse aspecto caolho levou mais uma vez os cariocas a criar outro apelido: “Camões”, em alusão ao poeta português Luiz de Camões (1524-1580), que perdeu a vista direita numa batalha na África.

O notável do “Camões” era a caixa de câmbio pré-seletiva. A alavanca era mínima e saía de uma unidade seletora fixada à coluna de direção. A “caixinha” tinha os canais das marchas bem definidos, como num Ferrari.

Para movimentar o veículo, apertava-se o pedal de embreagem e selecionava-se a primeira. A arrancada da imobilidade era como em todos os carros. Então vinha a diferença: ainda em primeira, passava-se a segunda. Quando chegasse o momento de engatá-la, bastava desacoplar rapidamente a embreagem, e a segunda engrenava-se. E assim ia-se procedendo, sucessivamente, até à quinta e última marcha. Para reduzir, mesma coisa.

Nesses dois modelos o denominador comum era conforto e conveniência, sobretudo respeito ao consumidor.

Pouco depois entrou em cena o lotação. O nome deve-se a não se admitirem passageiros de pé, ao contrário dos ônibus, cujo transporte de pé fora autorizado pelo governo quando o combustível, então totalmente importado, começou a escassear no início da guerra.

Um lotação fabricado sobre chassi Chevrolet

Os lotações, ou microônibus, eram constituídos de carroceria para 12 a 15 passageiros sobre chassis de caminhão 4-toneladas e geralmente eram Chevrolet a gasolina. Andavam muito e logo tornaram-se famosos pelos acidentes que provocavam. Não precisavam parar em ponto e isso pode ser considerado o início do processo de bagunça do transporte coletivo que chegou aos nossos dias.

E havia a questão do mau aproveitamento de espaço nas vias, pois um ônibus não era muito maior e levava o triplo de passageiros.

Depois vieram os lotações sobre mecânica de caminhão Mercedes-Benz, a diesel. Foi essa certamente a centelha que disseminou no Brasil o ônibus sobre chassi de caminhão, um mal que nos aflige até hoje.

E do ônibus-caminhão “evoluímos” para uma das maiores aberrações do transporte coletivo que se conhece: as vans. Esses furgões de passageiros não foram feitos para o transporte de massa, não têm porta de acesso e nem corredor para chegar aos bancos. E, pelo jeito, ficarão aí para sempre.

Timidamente começam a aparecer os ônibus com ar-condicionado e câmbio automático, como no Rio de Janeiro, uma idéia que precisa se estender a todos os grandes centros.

Para que os ônibus voltem a ser omnibus.

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Data de publicação: 29/4/03

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