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E o tempo levou – II

Pensando bem, como nossas estradas mudaram para
pior, em certos aspectos, nas últimas décadas
 

por Roberto Pontual - Fotos: Fabrício Samahá (principal) e divulgação

Poucas coisas mudaram mais nas estradas brasileiras do que o piso. Eram incontáveis as rodovias pavimentadas com concreto. Aos poucos foram desaparecendo, dando lugar ao asfalto. Há cerca de um ano estive em Santiago do Chile e chamou-me a atenção a quantidade de estradas com esse tipo de pavimentação.

O concreto tem vantagens indiscutíveis sobre o asfalto. Primeiro, sua rugosidade é normalmente maior, que resulta em maior aderência até com chuva. Segundo, a iluminação pelos faróis torna-se muito mais eficiente, principalmente quando está chovendo. As sucessivas seções do concreto têm de ser separadas por juntas de dilatação, e era uma delícia escutar-se aquele “tum-tum” durante a viagem. E, dizem os entendidos, é uma pavimentação bem mais durável, apesar de mais cara. Só que a longo prazo acaba saindo mais barato.

Era curioso (e feio) a marca contínua de óleo nos trechos de subida, num tempo em que os respiros de cárter eram voltados... para o chão. Hoje isso não existiria, por ser obrigatório os respiros serem conduzidos para o coletor de admissão, de maneira que os vapores de óleo sejam queimados pelo motor.

Há também a questão do empoçamento de água da chuva. Antigamente viajava-se sem a menor preocupação de encontrar poças d’água (até em carros leves como o Fusca e o Gordini, e ainda por cima com pneus diagonais), pois elas não existiam. Hoje, deu uma rápida pancada de chuva, lá vêm as poças reduzir a aderência e ameaçar o controle do carro.

Há também diversos casos conhecidos de acidentes graves causados por “rios” nas rodovias de primeira classe, pedagiadas, uma evidência da má construção. Ou seja, fica a impressão de que as pessoas encarregadas de construir estradas sabiam mais, àquele tempo, o que estavam fazendo. Exatamente o oposto do que se espera.

Ainda está na lembrança de todos o Grande Prêmio do Brasil de F-1 e a grande poça d’água na antiga curva do Sol, que tirou cinco carros da prova, inclusive o do único pentacampeão mundial vivo, Michael Schumacher. Isso num autódromo, que teoricamente deveria ter o piso perfeito.

Outra coisa que mudou foram as indicações para o motorista. Apesar dos atuais pórticos que avisam sobre ocorrências adiante,
 

de inegável valor -- embora haja alguns totalmente fora de propósito como o Não use farol alto na rodovia, na Via Dutra --, as indicações de distância para a próxima cidade, salvo poucas exceções, viraram mesmo coisa do passado.

Indicações, aliás, têm piorado bastante, quando deveria ser ao contrário nessa era da informação. Na moderna Rodovia dos Bandeirantes, no estado de São Paulo, há alguns pedágios para caminhões e ônibus apenas. Pois bem, lê-se Caminhões e Ônibus -- Pedágio Obrigatório nessas praças específicas. Será que existe pedágio que não seja obrigatório? Sem contar os avisos de Radar Eletrônico na Rodovia Carvalho Pinto, felizmente já corrigido -- será que há radar mecânico?

Antigamente, quando se avistava uma placa de aviso de curva fechada, era isso realmente o que ela significava. Hoje, não. Isso pode ser perigoso, pois o motorista pode não acreditar tanto nesse tipo de placa. Um dia, a curva pode ser mesmo fechada. Em algumas estradas de Minas Gerais criou-se um curioso meio de alertar para as curvas fechadas de verdade: pinta-se na placa a figura de uma caveira com duas tíbias cruzadas, símbolo convencionado como de perigo. Uma evidência de que as placas regulamentares estão perdendo a credibilidade.

Lombada em estrada? Nem em sonho. E o que dizer da marcação quilométrica das rodovias federais, as BRs, que são de divisa a divisa de estado, e não de cidade a cidade? No meio de uma viagem ler-se km 1 no marco quilométrico chega a ser patético. Mas é o que acontece.
 

Não seria possível encerrar esses comentários sobre estradas sem falar no mais novo, moderno e opulento trecho de estrada brasileira, a descida de serra da rodovia dos Imigrantes, também no estado de São Paulo. Com pouca declividade, curvas bem abertas e ¾ do percurso em túneis dentro da rocha, a velocidade máxima é de risíveis 80 km/h.

Não bastasse tal absurdo, caminhões, ônibus e vans (furgões de passageiros) não podem utilizá-la, devendo tomar a serra da Anchieta, de quase 60 anos de idade. Isso apenas significa que, se ainda não houvesse ligação rodoviária do planalto paulista com o litoral, as “brilhantes” mentes responsáveis pela obras públicas construiriam a rodovia como a Anchieta, não como a Imigrantes...

O bom senso que o tempo levou.
 

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Data de publicação: 15/4/03

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