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Os mal sucedidos

Ao substituir um automóvel por uma nova geração,
o inesperado: o que era para ser melhor fica pior

por Roberto Pontual - Fotos: divulgação

É isso mesmo, o título está grafado corretamente: mal e sucedidos, duas palavras. Se estivessem juntas -- malsucedidos --, indicariam fracasso, derrota. Não é o caso, mas sim o da comparação entre determinado modelo e sua evolução, de mesmo nome ou não, que mostra como em muitos casos o antigo foi mal sucedido.

A observação diária mostra que os desenhos das carrocerias de automóveis do final dos anos 80 parecem bem mais favoráveis aos ocupantes, no sentido do interior ser mais claro e amplo, do que os da década de 90. A cada evolução, o novo parece piorar em relação ao anterior, o que contraria a lógica.

Um bom exemplo é o primeiro Vectra, lançado em 1988 na Alemanha e em 1993 aqui. Fez sucesso e notabilizou-se pelo espaço interno, segundo os padrões da época. Sucedeu-o o novo Vectra (acima), em 1996, que já não era a mesma coisa em termos de sensação de espaço para os ocupantes. A impressão era de se estar mais enclausurado e não houve ganho sensível de espaço no banco traseiro, apesar do entreeixos 4 cm maior. As grossas colunas dianteiras, ao contrário das delgadas da versão anterior, diminuíram bastante o campo visual e requerem adaptação do motorista ao efetuar uma curva de esquina à esquerda. Os espelhos retrovisores também ficaram piores.

Outro caso típico foi o do Gol. Quando surgiu a segunda geração em 1994, o "bolinha", muitos estranharam o interior "de tanque de guerra", em comparação ao original de 1980. Inclusive, houve quem reclamasse da ergonomia, que não tinha motivos para piorar mas piorou, já que a distância entre eixos tornou-se 11 centímetros maior. Só o espaço para as pernas ficou melhor.

No caso da substituição do Tempra (foto no alto) pelo Marea (acima), nem mesmo as pernas ganharam em conforto, pela manutenção do pequeno entreeixos para seu porte -- 7 cm menos que num Astra ou Focus. Já o espaço para cabeça, a sensação de amplidão e a capacidade de bagagem diminuíram. E, não se sabe por que, ainda não existem no Marea alguns itens -- ajuste elétrico das principais funções do banco e computador de bordo -- que o Tempra oferecia.

A lista prossegue: Peugeot 405 e 406, Renault 19 e Mégane, Citroën ZX e Xsara, Alfa Romeo 164 e 166. Os anteriores eram mais espaçosos internamente, ou pelo menos davam essa sensação. No Honda Accord até 1990 a visão pelo pára-brisa parecia a que um motociclista tem, tão amplo que era. Kadett e Astra I, Tipo e Brava, Ford Taurus de 1986 e 1995 -- este um dos desenhos mais estranhos que se conhece, que ninguém no mundo gostou -- entram nesse rol.

Voltando no tempo, ninguém esquece o Karmann-Ghia TC, um aborto em estilo diante do Karmann-Ghia original, cujas linhas até hoje sobressaem. Dizia-se na época que o TC parecia carro da Alemanha Oriental...

Muitos se lembram do Santana reformulado em 1991, que ficou "esquisito" tanto internamente quanto externamente. O retrovisor esquerdo passou a ficar semi-escondido pela coluna, ao contrário do que se verificava na versão original de 1984, que trazia retrovisão externa perfeita. E o pára-brisa teve a área aumentada mas os limpadores não foram revistos, deixando uma seção considerável sem varredura.

Já o Fiat Uno (acima) foi uma grande e boa evolução do 147, mas o Palio deixa a desejar em espaço interno quando comparado a seu antecessor, além de não poder ter o estepe no compartimento do motor. A linha quase reta do capô para o pára-brisa, lembrando uma minivan, deixou os limpadores um tanto salientes, aparecendo demais para o motorista e supondo que foram esquecidos no desenho... Nem por isso houve melhora tão expressiva em aerodinâmica: o Cx baixou apenas de 0,35 para 0,33.

Em outros casos o Cx melhorou bastante, como do Corsa Sedan antigo (ainda vendido como Classic) para o novo: de 0,35 para 0,306. No entanto, com motor de 1,0 litro igual -- ou melhor, 1 cv mais potente na nova geração --, o antigo dá uma lavada de 7 km/h em velocidade máxima (164 ante 157 km/h) sobre seu sucessor, indicação de algo está muito errado no novo modelo, talvez a área frontal.

O Focus é o sucessor do Escort. Só que ficou um carro exageradamente alto, aumentou o balanço dianteiro sem necessidade (o motor é transversal) e diminuiu o traseiro -- logicamente, o compartimento de bagagem encolheu. O estilo da traseira do hatchback, com as lanternas no alto e a tampa traseira nua, não agradou a todos. Até em detalhes como o modo de acender faróis e lanternas (girando a alavanca da coluna de direção no Escort e o botão do painel no Focus) houve má sucessão.

Recentemente vimos o lançamento do BMW Z4 (abaixo), com um jeito de batmóvel que deixará saudade do Z3. O nova Série 7 também vem sendo muito criticada pelo desenho, indicando que o projetista-chefe da empresa, Christopher Bangle -- responsável, por outro lado, pelo belo Z8 --, pode não ter emprego garantido por muito tempo...

Claro, há exceções, como o primeiro BMW Série 3 e o VW Golf, que melhoraram em tudo -- embora haja quem prefira o Série 3 de 1990 ao atual. O Porsche 911 em suas três séries 964, 993 e 996, esta a atual, vem caminhando no bom sentido. A Mercedes também torna os seus modelos cada vez mais atraentes e favoráveis aos ocupantes. E, por que não, o próprio Kadett, muito melhor em espaço interno e sensação de amplitude que o Chevette, na verdade Kadett na Alemanha.

O que é para ser melhor assim deve ser. Mãos à obra, projetistas e estilistas.

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Data de publicação: 18/3/03

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