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Questão de herança

Muitos itens dos automóveis atuais foram herdados de
gerações antigas, de outros mercados e de outros tempos

por Roberto Pontual - Fotos: Fabrício Samahá (Pajero e Stilo) e divulgação

Uma olhada atenta no motor do Renault Dauphine, Gordini ou 1093 revelava um minúsculo e inútil buraco no cabeçote. Servia para encaixar a vareta de sustentação da tampa do motor do antecessor 4 CV, o "rabo quente".

Quem possui Escort, Ka ou Fiesta já se acostumou, mas é preciso girar a chave para destravar a porta do motorista no sentido horário, e não o oposto, como na quase totalidade dos carros. É que, tendo sido desenhados pela Ford inglesa, a porta do motorista é a direita -- onde a chave se movimenta nos sentidos corretos para trancar e destrancar.

Essas e outras heranças -- de gerações anteriores ou do país de origem do modelo -- são bem mais freqüentes do que se imagina. Quando o Omega importado chegou ao mercado, em 1998, três características do modelo desenhado para mão inglesa (na Austrália) eram facilmente visíveis.

As carcaças dos retrovisores externos foram mantidas inalteradas e, devido aos respectivos ângulos em relação à carroceria não corresponderem aos de volante na esquerda (no lado do motorista esse ângulo é sempre menor do que no lado oposto), os espelhos ficam claramente fora da carcaça uma vez ajustados. Não prejudica a função, mas é feio.

Outro detalhe é o botão do interruptor do rádio (acima) no lado direito do aparelho, para fácil alcance pelo motorista -- na direita. E há a alavanca do freio de estacionamento bem posicionada junto ao banco do motorista... se esse banco fosse o direito. Na versão de direção à esquerda a alavanca ficou lá longe, perto do passageiro.

A mudança de mão de direção traz outras curiosidades. Escapamentos devem ficar o mais longe possível da calçada e dos pedestres, uma medida intuitiva. Ocorre que, nos carros japoneses e em alguns ingleses (incluindo os de projeto britânico como Ka e Fiesta), a saída está no lado direito. Longe da calçada lá, perto da calçada aqui.

O mesmo ocorre com o bocal do tanque de combustível (deve ficar à direita, por onde são feitos a maioria dos reabastecimentos) e com a porta traseira de abertura horizontal (abaixo) em alguns utilitários esporte de origem nipônica: abre-se da esquerda para a direita, próprio de calçada no lado esquerdo.

Os mais velhos devem se lembrar que os MG TC e TD dos anos 40 e 50 traziam o velocímetro no lado direito, defronte ao acompanhante, e o instrumento combinado no lado do motorista. Mais uma herança da mão inglesa. Outra, a ausência de espelho de cortesia no pára-sol do passageiro do Mitsubishi Pajero iO... embora existisse no do motorista, à esquerda.

Há também aspectos atávicos -- características dos ancestrais -- presentes até hoje nos automóveis. É o caso da forma ondulada por detrás do aro do volante de direção, como se ainda há quem o segura "cravando" a mão no aro, encaixando os dedos ali. Hoje dirige-se com os polegares, os outros dedos levemente apoiados no volante. Alguns carros japoneses não trazem mais o ondulado no volante.

Sem esquecer dos impróprios, desajeitados e descomunalmente grandes volantes de ônibus e caminhões, frutos de um tempo em que nem se pensava em prover assistência ao sistema.

Vendo-se hoje um motorista "dedilhando" essas peças gigantes, tão fora de alcance que ficam, talvez se entendam os inúmeros acidentes resultantes de "perda de direção".

Os Fiats ainda hoje conservam detalhes obrigatórios na Itália, como a luz-piloto para reserva de combustível e o interruptor (uma lingüeta no miolo de partida) que permite manter acesas as lanternas ao desligar a ignição. No Stilo esta lingüeta desapareceu, mas há uma tecla no painel (abaixo) com a mesma função.

Há outra herança inacreditável, de um tempo em que não havia sistema de aeração interna e muito menos ar-condicionado: calhas de chuva. Não é raro ver-se um carro moderno no qual o dono mandou instalar calhas de plástico. Além de deselegantes, constituem agressão à aerodinâmica de qualquer automóvel. O mesmo se aplica aos quebra-ventos, que persistiram por muito tempo no Brasil -- até mesmo passando a dotar o Chevette em 1983, após 10 anos sem tê-los.

Mas há um atavismo que pode ser considerado o rei de todos eles: tapetes, ou melhor, sobretapetes. Num tempo em que os interiores não eram tão bem elaborados e terra (e lama) predominavam em toda parte, procurava-se melhorar o aspecto do interior, e facilitar a limpeza ao mesmo tempo, colocando tapetes -- uma medida quase unânime. Hoje, Celta e Corsa básico não trazem mais o revestimento na região dos pedais para evitar desgaste do carpete, uma medida de economia descabida, só explicável porque todo mundo acaba colocando sobretapete.

Tapetes, se medianamente espessos, podem impedir o curso previsto dos pedais, principalmente em caso de falha hidráulica em um dos circuitos de freio (não é exagero, há aviso a respeito nos manuais de proprietário). A maioria dos casos de marcha à ré arranhando e primeira difícil de engatar dos Fiats 147 e Uno era decorrente de falta de curso do pedal de embreagem -- causada pelo sobretapete. Sabe-se lá quantos clientes insatisfeitos e gastos desnecessários tinham apenas no tapete a causa.

Não é só. Tapetes não param no lugar, se não tiverem fixação por presilha ou fita Velcro, e geralmente são de mau aspecto. Se de borracha, o cheio ativo e desagradável perdura por semanas ou mesmo meses. Há ainda a questão do peso: um jogo chega a pesar mais de 8 kg, o que em carros com motor de 1,0 litro chega a prejudicar o lançamento da imobilidade. Não é por acaso que a maioria das fábricas cedem os carros de teste com o carpete original apenas.

Hoje todo serviço de lavagem possui aspirador de pó potente e carpetes podem ser limpos facilmente com produtos apropriados. E, convenhamos, é muito mais agradável pisar no carpete original do que num tapete de borracha.

Uma herança, até que charmosa, é a chave de ignição e partida dos Porsches à esquerda do volante (acima). É assim porque no tempo das largadas tipo Le Mans, em que o piloto atravessava a pista correndo e entrava no carro, permitia ligar o motor com a mão esquerda e engatar a primeira com a direita.

Daqui a 30, 50 anos haverá quem fale de outras heranças. Algum palpite?

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Data de publicação: 18/2/03

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