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Vendem-se linhas telefônicas e carros

Automóvel começa a deixar de ser bem para virar
serviço; perdem os obsoletos que ainda não notaram

por Luís Perez

Papa do mundo digital, Nicholas Negroponte veio certa vez ao Brasil e, em um programa de TV, foi questionado sobre a relação das crianças com as novas tecnologias. Sua resposta nunca mais me saiu da cabeça. Algo como: não existe sentido em questionar as novas gerações sobre a vida digital, seria como questionar o peixe sobre a água.

Faz quase 15 anos que um professor meu na USP (Universidade de São Paulo) sondou-me para exercer um "bico": acordar às cinco horas da manhã, pegar um ônibus até um escritório, onde deveria ler todos os jornais e passar, por fax, para algumas pessoas, cópias dos recortes de determinados assuntos. À época o clipping de notícias não era tão difundido. Internet, então, nem pensar. Eu tinha medo de me enrolar com a complicada máquina de fax. Não me lembro por que, acabei não aceitando o "serviço", que até podia ajudar bastante no orçamento do primeiranista de jornalismo e história.

Hoje sei que, na Redação de grandes veículos de comunicação, ainda há pessoas que, a despeito da rede mundial e da comunicação via satélite, não abrem mão do papel. Conheço gente que chega a imprimir e-mails para enviá-los por fax, pois acredita mais no protocolo cuspido por aquela maquininha barulhenta do que na autenticação eletrônica ou na pasta itens enviados. É por essas e outras que, nas raras vezes em que sou questionado sobre do que mais tenho medo, a resposta está sempre na ponta da língua: tenho pavor da obsolescência. Ou seja, de fazer algo equivalente a passar fax de e-mails daqui a alguns anos.

Talvez os meninos grandões que não acordaram de manhã para ver Senna correr, ou não sabem exatamente o que é remarcação de preços três vezes por dia, não se lembrem de como era a telefonia antes da privatização. Sabe quanto tempo esperei por uma linha da finada Telesp? Seis anos! Em 1996, quando aparelhos de fax já eram eletrodoméstico e a internet começava a entrar, via conexão discada, na casa das pessoas, tirei visto e viajei pela primeira vez aos EUA, onde descobri que telefone lá funcionava como luz elétrica ou gás encanado. Era um serviço, pelo qual se pagava uma taxa mensal. Para desfrutar dele, bastava telefonar. Era uma questão de dias – dois ou três, no máximo. Uau!

Em 2001 o saudoso Célio Batalha, diretor da Ford que havia abrilhantado o Salão de Detroit de janeiro daquele ano com sua presença sempre agradável (e cuja ausência é tremenda até hoje), tomou posse na Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) três meses depois com um discurso que me lembrou muito essa forma de os americanos encarar o automóvel – como um serviço pelo qual se paga mensalmente, não um bem.

Como para variar o relapso jornalista que vos escreve havia chegado atrasado ao clube Sírio Libanês, tratei de chamar o recém-empossado presidente de canto para perguntar se sua gestão seria marcada por essa mudança cultural. Caminhamos por alguns metros e ele grande, abraçando meus ombros, disse que não seria a principal preocupação de sua gestão – prematuramente interrompida por sua morte, o que nos deixou órfãos de uma das pessoas de caráter mais irretocável da indústria automobilística. Continua


 

Roda e avisa
Fura-fila - A Volkswagen anunciou ter entregue na última semana os quatro primeiro Fox, em Curitiba: os dos paranaenses Sebastião D. Gomes, José Carlos Skrzyszowski, Paulo Roberto Crema e Marcos Aurélio Litz. São uns felizardos. Em São Paulo, as filas para o test-drive do modelo nas concessionárias dobrava quarteirões.

Sushi à mineira - Trabalhando em silêncio, como os mineiros, a Honda prepara para meados de novembro uma grande reformulação de seu sedã Civic. Para combater o novo Toyota Corolla, suas linhas ficarão mais imponentes e o capô terá vincos que ressaltarão o desenho do veículo.

Quer pagar quanto? - O consórcio de motos da Honda está comemorando os resultados deste ano, quando conquistou 60% do mercado. Com planos que variam de 12 a 72 meses, a administradora permite a compra de uma C 100 Biz com prestações a partir de R$ 66,55. "Equivale ao que uma pessoa que precisa usar ônibus quatro vezes por dia gasta em duas semanas para ir ao trabalho e voltar", compara o diretor-executivo da Honda, Kazuo Nozawa.

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Data de publicação: 28/10/03