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"Airbag? Não compro carro pra bater"

O que mais indigna são as tentativas de explicação
científica para a imprudência dos assassinos do trânsito

por Luís Perez

Aquele anúncio de carro seminovo no jornal chamava a atenção. "Completo, incluindo airbag", dizia. O tijolinho no Estadão atraiu algumas dezenas de candidatos a feliz proprietário de um "compacto premium" fabricado no Brasil e que foi lançado na Europa há menos de dois anos — sinal de que, de alguma forma, aqui já se respira Primeiro Mundo.

"Oi, é sobre o anúncio...", começam todos, parecendo combinar. Do outro lado da linha, o pretenso vendedor se sente no show de Truman, do personagem interpretado por Jim Carrey, em que só ele não sabia — mas estava exibindo sua vida ao vivo, pela TV. Aos poucos, os interessados vão revelando o que, para eles, é importante em um carro. "Tem CD?"; "Está escrito 10 mil quilômetros. Mas ainda está na garantia?"; "Inclui roda de liga leve?"; "Traz ar, direção...?"

Alguns desses inebriados pelo IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) reduzido questionam por que o preço do seminovo ultrapassa em alguns milhares de reais o valor do carro anunciado com direito a fotos reluzentes (as tais ilustrativas) no mesmo jornal. Um senhor pergunta: "Por que tão caro?". A resposta do outro lado da linha é lacônica: "Porque tem, além de tudo o que a gente já falou, airbag duplo e ABS", responde o proprietário, que se preocupou bastante com sua segurança na hora de comprar esse veículo zero-quilômetro. "É automático?", questiona, como se fosse essa a única justificativa para o preço mais elevado. Ora, não existe esse modelo automático. Desliga.

Bolsas infláveis e sistema antitravamento de freios (ABS), dispositivos feitos para atenuar as conseqüências de uma batida ou mesmo de evitá-la, respectivamente, são itens que equipam pouquíssimos automóveis adquiridos pelo grande público. São caros porque, além de ter muitos componentes eletrônicos, geralmente são importados; também não há larga escala.

Nos modelos mais em conta, ABS não existe nem como item opcional. As bolsas infláveis ocupam desde 0,5% até (e dê-se por feliz agora) 5% dos modelos compactos, segundo estatísticas das fabricantes. Não é o caso de questionar até que ponto essa distorção está ligada à falta de informação, de poder aquisitivo ou simplesmente de educação?

Na última semana, o professor Ricardo Bock, da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) arranhava a superfície do problema, ao dizer que a maneira de pensar do brasileiro geralmente é: "Para que vou comprar carro com airbag se não estou comprando pra bater?". Por outro lado, uma revista especializada acertadamente já sugeriu que o cinto de segurança deve ser usado o tempo todo, até com o veículo parado.

Não está tão longe o tempo em que a seta era indicada com as mãos, e o cinto fazia o papel de coadjuvante — conheço gente de uma geração anterior à minha que prega dentro do carro avisos em que se lê "usar cinto", como um ator prega dálias pelo cenário para compensar o fato de não ter decorado seu texto como deveria. Aliás, obrigatório também no banco de trás, o cinto não é nem coadjuvante, mas figurante.

Espantou-me, na última semana, a quantidade de pessoas que, ao dirigir, vão mudando de faixa de rolamento, em vias movimentadas de São Paulo, sem sinalizar nem sequer se dar conta de que o estão fazendo. Visitei o Rio de Janeiro neste fim de semana e qual não foi minha surpresa ao notar que muitos cariocas simplesmente não usam o farol baixo à noite? Acendem a lanterna, como se quisessem economizar energia, e os outros que se esforcem para notá-los na escuridão!

Essa mesma falta de educação faz com que as ruas das maiores cidades do país virem lixeiras pela janela dos carros. "É preciso dar emprego para os garis", argumentam. Ou que sejamos obrigados a conviver com o risco de morrer em razão de alguém que insiste em avançar sobre a faixa e fumar ou falar ao celular no posto de gasolina. "Nunca aconteceu nada", argumentam. Ou os que não sinalizam suas manobras porque "não tem ninguém atrás". Acredite. Ainda há quem diga, a sério: "Dirijo melhor quando bebo".

A propósito, quem respeita limites de velocidades, sobretudo em curvas de viadutos paulistanos? Ou seja, meus caros engenheiros de tráfego: não adiantou nada vocês terem estudado e feito milhões de cálculos. Todos sabem mais do que vocês. Aliás, o que mais me irrita não é a infração ou a imprudência em si, sempre sujeitas a punição. Deixa-me indignado que os candidatos a assassino de trânsito sempre tenham uma explicação científica na ponta da língua.

É da falta de educação generalizada que faz cair o valor de revenda do automóvel seminovo com bolsas infláveis e ABS. Mas tudo bem. Quem está vendendo esse modelo felizmente correu menos riscos. Ainda bem que não teve de usar o airbag. Pode até estar perdendo dinheiro. Mas não perdeu a noção do quão preciosa é a vida humana — em um país no qual ela vale cada vez menos.

 




Nesta semana, entrevistamos o delegado Manoel Camassa, um dos maiores especialistas brasileiros em roubo e furto de veículos. Ele diz como não se deve parar no semáforo, fala da indústria da fraude contra as seguradoras e conta que o golpe da gangue da batida foi "descoberto" por acaso. Confira. Continua


 

Roda e avisa
Providencial - A propaganda do Chevrolet Omega que entrou no intervalo do programa Roda Viva da última segunda (11), que entrevistou o vice-presidente da GM, José Carlos Pinheiro Neto, provocou escárnio geral dos jornalistas. "É só neste programa e só neste horário?", brincou, fora do ar, o apresentador Paulo Markun.

Pit stops - Desde que iniciou, há cinco anos, seu programa de pit stops para verificar as condições dos amortecedores em diversas cidades do país, a Monroe inspecionou 230 veículos. Desses, 46% estavam bons. Mas 31% tiveram a troca recomendada e 23% estavam em más condições.

Segurança - O Fórum Volvo de Segurança no Trânsito será realizado nesta terça-feira, dia 12, em Brasília. O objetivo é incentivar as prefeituras a desenvolver, sem a necessidade de investimentos excessivos, pesquisas e estatísticas municipais sobre a violência no trânsito.

Off-road 1 - A Volkswagen pretende vender 20 mil unidades do fora-de-estrada Touareg nos EUA e no Canadá ainda neste ano. A previsão de chegada ao Brasil é o final deste ano.

Off-road 2 - Com preços entre US$ 35 mil e US$ 45 mil, o Touareg tem versões equipadas com motores V6 e V8. Haverá ainda uma versão a diesel, com motorização V10. Para todo o mundo, a previsão é vender 65 mil unidades.

Em busca da manchete - Na última reunião da Anfavea (associação dos fabricantes), uma repórter questionou o presidente da entidade, Ricardo Carvalho (leia entrevista), sobre o fato de a redução do IPI ser temporária - até 30 de novembro. "Então as demissões estão apenas adiadas?", perguntou.

Vendas crescem... lá - Começam a chegar notícias de Frankfurt, onde acontece daqui a um mês o maior salão automobilístico do mundo (saiba mais). As vendas de automóveis na Alemanha chegaram a 288 mil unidades em junho, um aumento de 2% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da VDA (a Anfavea de lá).

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Data de publicação: 12/8/03