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A auto-afirmação dos motoboys
e o projeto do Inocêncio

Guerra entre carros e motos faz vítimas inocentes; deputado
vai propor novamente produção obrigatória por dez anos

por Luís Perez

Aquele motoboy que parou para me encarar e em cujos lábios era possível ler palavras não muito agradáveis para uma tarde de sexta-feira, na avenida Santo Amaro (zona sul de São Paulo), possivelmente por eu ter mudado de faixa à sua frente sem avisá-lo — talvez por ele estar num ponto cego de meu retrovisor —, mal sabia que inspiraria a coluna desta semana.

É que, na atribulada vida de jornalista, o caráter "repórter-fuçador" tem dado espaço mais a uma espécie de "repórter-pensador", que trata de descarregar algumas reflexões represadas em anos e anos de exercício profissional ligado à reportagem automobilística sem, no entanto, poder opinar tanto por questões de padrão.

Aqui, no BCWS, a coisa é um pouco diferente. Por isso peço um pouco de paciência ao leitor para abordar um assunto que mesmo para mim era marginal, visto até com um certo preconceito: o fato de São Paulo ser a capital mundial dos motoboys. Terror dos retrovisores, eles criam corredores próprios no meio de vias que deveriam ser rápidas, mas que vivem congestionadas, como a marginal Pinheiros e a avenida Paulista.

Tal universo começou a fazer parte do meu quando, impossibilitado de fazer o sobe-desce das ladeiras de Perdizes e Pompéia (bairros da zona oeste) de bicicleta, resolvi à porta dos 30 anos tirar habilitação tipo A — aquela que autoriza o cidadão a conduzir uma motocicleta. Abordada só na última semana pela revista Veja, a explosão na venda de motos — cresceu 75% nos últimos cinco anos; no mesmo período o comércio de automóveis caiu 25% — já me chamava a atenção nas periódicas reuniões da Abraciclo (associação de fabricantes).

Bem, como a relação homem-automóvel despertou tanto interesse na última coluna, atrevo-me a voltar um pouco ao assunto. Só que agora para discutir a civilidade dos que rasgam os congestionamentos das grandes cidades. Não, não é complexo digno de ser discutido em psicanálise: foi só começar a sair de casa com minha Honda C 100 Biz zero-quilômetro que comecei a enfrentar os mesmos olhares de ódio, desprezo e preconceito que a maioria dos motoristas (com os quais me identifiquei) lançam sobre os motociclistas, motoboys, que sejam. Foi uma espécie de espelho. O primeiro impulso nessa hora é adotar a estratégia similar à dos grupos de pagode no final dos anos 90: usar um terninho para impor respeito; quem sabe assim me levam mais a sério.

Idéia abortada. Não iria adiantar. O maior inimigo dos motociclistas não são os motoristas. São eles próprios, quando sobem em calçadas, invadem a faixa de pedestres ou, pressionados pelo patrão, provocam acidentes de seus colegas quando os apressam em seus "corredores exclusivos".

No último mês foram comercializadas 12.420 unidades da básica Biz, já citada, e 33.728 da campeã de vendas, a (também Honda) CG Titan. Uma Yamaha Drag Star 650, nacional, estradeira, classuda e cult, custa mais do que um automóvel "mil" razoavelmente equipado — coisa de R$ 23 mil. Vende coisa de cem por mês.

Mas volto a abordar a competitividade, a "luta de classes", a tentativa de causar inveja ao semelhante. Convido o leitor paulistano a dar uma passada na área destinada ao treinamento de futuros motociclistas, ao lado do parque Ibirapuera, em frente ao prédio do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), na zona sul de São Paulo, só que do outro lado da avenida.

Curioso alguém que, por dever profissional, dirigiu nos últimos cinco anos cerca de 500 modelos diferentes de automóveis — e é habilitado há mais de dez anos — ter de aprender a ligar uma moto no meio de adolescentes em cujos olhos há um brilho de fascínio, de momento de provação. Como se a prova em que, após 15 monótonas aulas, é preciso fazer um "oito" com marcação no asfalto, não deixar a moto morrer e não colocar o pé no chão, que dura apenas alguns segundos, fosse o paroxismo, o ápice da auto-afirmação, um "vestibular de vida". Aos que ganham a rubrica "A", de aprovado, a vitória. Aos que não passam, resta o sabor amargo da derrota.

A competitividade que provoca atitude ousada (leia-se perigosa) e tantas vidas põe em risco são transpostas para as ruas. Assim como outras relações inconciliáveis — água e óleo, polícia militar e civil —, condutores de automóveis e de motos (mas sobretudo estes entre si) travam uma guerra sem sentido, em que a quantidade de "vítimas civis" é incomensurável, demonstrando que no Brasil a vida humana ainda vale muito pouco.

 



Pela quantidade de manifestações recebidas, não foram poucos os leitores a se interessar (a maioria no mau sentido) pelo projeto do deputado Inocêncio Oliveira (PFL-PE) que torna obrigatória a manutenção no mercado, pelo prazo mínimo de dez anos, dos veículos fabricados no país. Para quem ainda não acredita, basta clicar aqui.

Embora não tenha feito contato com este colunista, o deputado esclareceu alguns pontos por intermédio de sua assessoria: 1) O projeto foi arquivado no fim da legislatura de 2002; 2) Como houve renovação de 52% dos deputados, Oliveira resolveu reapresentá-lo, para que os novos parlamentares tenham a chance de apreciá-lo.

"É sabido que muitos modelos de veículos saem de linha pouco depois de lançados pelas montadoras, gerando, em conseqüência, toda sorte de dissabores para aqueles que os adquiriram. Além da depreciação, é comum a falta de peças para reposição", diz o projeto em sua justificativa.

Qualquer pessoa pode acompanhar o desenrolar dessa história pelo site da Câmara dos Deputados, bastando preencher o campo do número do projeto com 137 e o ano como 2003. Mas já adiantamos: o projeto está tramitando (ou seja, no gerúndio...) pelas comissões de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, Viação e Transportes e Constituição e Justiça e de Redação.

 



Nesta semana, entrevistamos Roberto Scaringella, um dos maiores especialistas em segurança no trânsito do Brasil, e a piloto Juliana Carreira. Estréia finalmente a seção Zoom, com o Ford Fiesta 1,6. Se você não sabe a que se destina a nova seção, clique aqui. Continua


 

Roda e avisa
57 - Esse é o número recorde de pessoas que já couberam no prestes a ser extinto, no México, Volkswagen Fusca. O autor da façanha foi um time da Universidade de Graz, na Áustria. É apenas uma das várias curiosidades que estão no primeiro número da revista V, recém-lançada pela fábrica.

2.600 - É esse o número de vezes em que os amortecedores de um veículo se comprimem, em média, a cada quilômetro percorrido. Ou 105 milhões de ações a cada 40 mil quilômetros. O número, curioso como o da primeira nota, foi divulgado na última semana pela Monroe.

Apesar da crise - A General Motors teve de suspender a propaganda Welcome to the Top do novo Omega, lançado em maio. Em junho foram emplacadas 61 unidades do modelo, que custa R$ 133.900, aumento de 36% de participação em relação ao mesmo mês do ano passado.

Eles também compram - Pesquisa obtida por esta coluna indica que, entre os primeiros compradores do Fiat Palio, 9% estão nas classes C e D. Ou seja, a cada 10 Palio vendidos, praticamente 1 pessoa está enquadrada nesse perfil socioeconômico.

Pelo social 1 - A Pirelli apresentou, na última semana, a Copa Bom de Bola, Dez na Escola, projeto social que tem como objetivo minimizar a evasão escolar, motivando crianças de oito a 14 anos a freqüentar a sala de aula e, assim, oferecer a oportunidade de se desenvolver por meio do futebol.

Pelo social 2 - O projeto da fábrica de pneus vai reunir cerca de 200 crianças no estádio Moisés Lucarelli (o da Ponte Preta, em Campinas, interior de São Paulo), no dia 27 (domingo), das 10h às 16h30. Estarão presentes o goleiro Marcos e o diretor-geral do Internazionale de Milão, Massimo Moretti.

Pelo social 3 - Ingo Hoffmann, líder da Stock Car, e Guilherme Spinelli, bicampeão brasileiro de Rally de Velocidade e vice-campeão do Rally dos Sertões em 2000 e 2001, estão levando 60 toneladas de alimentos arrecadadas em 30 dias para Goiânia, de onde partem nesta quarta, dia 23. A ação faz parte do projeto Mitsubishi Racing Pro Brasil.
 
Shopping

Contra desgaste - O Radiex é um protetor automotivo para borrachas, pneus, plásticos e couro. Por não conter solvente, não ataca a superfície onde é aplicado. Dá segurança contra a ação de raios solares e calor. É vendido em embalagens de 250 ml e custa R$ 5,60.

Cheirinho - Quem gosta do carro perfumado e personalizado pode adquirir um desodorizador AutoShine (R$ 2,61) nos aromas antitabaco, tutti-frutti, lavanda, floral, frutas e bebê. Retira cheiro de cigarro e mofo. Pode ser encontrado em embalagens de 30 ml.

 

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Data de publicação: 22/7/03