Best Cars Web Site

O marketing dos
não-entendedores

Em vez de empunhar cartazes "fora, carros", não é
o caso de discutir se fazemos bom uso dessa invenção?

por Luís Perez

"A voracidade envenenou a alma dos homens, envolveu o mundo num círculo de ódio e nos obrigou a entrar a passo de ganso na miséria e no sangue. Melhorou-se a velocidade, mas somos escravos dela. A mecanização, que traz a abundância, legou-nos o desejo. A nossa ciência nos tornou cínicos. A nossa inteligência nos tornou duros e brutais."

Declaração final de "O Grande Ditador" (Charles Chaplin, 1940)

Quem vive em cidade grande vai entender bem o que eu quero dizer. Quem nunca se sentiu tremendamente impotente diante de um engarrafamento ou não perdeu compromissos importantes, horas de lazer ou simplesmente a paciência nesse mar de carros?

Daí vem a indústria e diz que há um "rombo" de 250 mil veículos neste ano. Do outro lado, conhecidos meus argumentam: "Onde vamos enfiar tantos carros?". Simplismo. Outros brincam: "As ruas é que são estreitas". Ou ironizam, como o ex-piloto Nelson Piquet, que já declarou que, se é para ficar preso no engarrafamento, é melhor estar em um BMW do que num Fusca.

Deixava-me encafifado, no ano passado, em Paris, aquele Fiat Punto verde (o similar ao Palio na Europa) estacionado havia mais de mês no boulevard Malesherbes, em pleno huitième (área nobre da capital francesa), ao lado da igreja de Saint Agostin. Dentro, uma cadeirinha de bebê. No pára-brisa, multas de estacionamento proibido amontoadas.

Era agosto. Provavelmente, o dono havia viajado em férias para a Lombardia. O carro que se dane! Aliás, aventura das mais divertidas é se embrenhar no centro da "estrela" de 12 avenidas que se encontram no Arco do Triunfo de automóvel. Vem carro de todo lado. Pela esquerda, pela direita, na diagonal... Tresloucados para abalroar o seu. O ex-presidente de uma fábrica francesa no Brasil, certa vez, me disse que "francês bateu o carro, bateu; está batido. Vai rodar assim".

É verdade. Sujo, amassado, ralado. Anda? Está bom! Brasileiro, não. A máxima de que "carro é uma família" (geralmente isso é dito para se referir às despesas mensais) vale para quando ele o bate, até no sentido afetivo. Quase o salário todo de meses vai para a oficina. Mas o automóvel precisa estar sempre, como se diz, zerado.

Preservadores que são da memória, os europeus não desvirtuaram a cidade. Brincadeira de brasileiro em Roma é dizer que, se Paulo Maluf fosse prefeito da cidade, iria destruir todas "aquelas velharias" (as ruínas romanas) para construir túneis. Quando demoliu ruas e favelas medievais em Paris, em meados do século 19, o barão Haussmann (que, nomeado prefeito por Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, reurbanizou a cidade) planejou a Champs Elysèes, mas não exatamente para os automóveis (senão não teria feito aquela estrela, a Place de la Étoile, onde há batidas a toda hora). Paris e Londres, assim como Nova York, são cidades muito bem servidas de metrô.

Há cinco meses Londres criou a congestion charge, um pedágio no centro da cidade, para restringir o trânsito de automóveis. Custa cinco libras (coisa de R$ 30). Pesado, mas bem menos do que a multa do rodízio de São Paulo, que é de R$ 85,12 — mais quatro pontos na carteira de motorista, por ser infração média. Vale lembrar que muitos dos que levam essa multa o fazem por ficar presos em congestionamentos (como os citados no início deste texto) e exceder o horário — tomam a multa entre 17h e 20h... Ai, ai... Por que São Paulo não foi planejadíssima para os carros, assim como Brasília ou Los Angeles?

Antes que o leitor pense que este colunista consumiu tóxico antes de escrever, vou explicar o porquê de juntar tantas observações aparentemente disparatadas (dizem que a gente não pode se explicar demais para não contrair uma dívida de culpa). É que às vezes me irrita o insincero marketing pessoal dos que não entendem — e fazem questão de não aprender — nada a respeito de automóveis como se isso fosse sinal de nobreza.

Do mesmo jeito que me irrita a modelo-e-atriz que aparece na TV sob a insígnia de "repórter". Ou o bêbado que, a meu lado, em Interlagos, no dia 6 de abril, em pleno GP, insistia em berrar, sempre que Rubinho Barrichello passava pela subida dos boxes: "Não é pra ele frear aí!!!" Claro que há de se respeitar os que simplesmente não gostam do riscado — assim como eu não gosto de pescar.

O boicote pelo boicote, as opiniões radicais, a supertaxação sobre os veículos não levam exatamente a bom termo. Eu só queria uma resposta sincera: quem, por mais que seja admirador de automóveis, nunca se irritou tremendamente em um engarrafamento? O fato de não haver transporte coletivo decente não é motivo para birra do excesso de carros (quase todos com capacidade para cinco ocupantes, mas transportando apenas um)? Não é lamentável a mentalidade pequeno-burguesa de que andar de metrô (o de São Paulo é pequeníssimo, mas muito mais limpo e moderno que o de Paris) é "coisa de pobre"?

Que tal pensar um pouco nisso e procurar criar formas de fazer do ato de dirigir uma coisa menos de obrigação e mais de prazer?

 



Na entrevista da semana, o presidente da Kia Motors do Brasil, José Luiz Gandini, fala sobre o momento crucial para as importações brasileiras de automóveis.
 
Ah, eu não poderia deixar de agradecer às manifestações em relação a esta Autogiro publicadas no último sábado no Espaço do Leitor. Aproveito para pedir que continuem não só lendo, mas escrevendo para a coluna. Continua


 

Roda e avisa
Feliz aniversário... - Na semana em que a Volkswagen anunciou a produção de 4 milhões de Gol (líder de mercado há 17 anos), um dos primeiros exemplares do modelo (fabricado desde 1980) foi notícia no interior de São Paulo. É que Vergílio Dalla Pria, presidente do time de futebol Rio Preto, sorteou um Gol 1,6-litro 1981, para melhorar a venda de ingressos.

...envelheço na cidade - Apesar do estofamento rasgado e dos problemas para abrir o porta-luvas, o clube vendeu 360 ingressos, 117 a mais que nos dias normais. Para ser entregue ao novo dono, o carro precisaria receber uma nova bateria, pois só pegava no "tranco". O ingresso custa R$ 5, e o carro, R$ 2.500.

Salvo pelo Bongo - Agora a Kia Motors diz que sua fábrica de Linhares (ES) sai do papel. Os últimos lances da burocracia para montar o pequeno caminhão Bongo no Brasil devem acontecer nas próximas semanas. A idéia é fabricar 200 por mês.

Mais um jipinho - Depois do Bongo, a Kia planeja fabricar no Brasil o utilitário esporte Sportage. O carro-chefe da marca, a van Besta, está fora de cogitação – sua base é muito complicada e requer investimento coreano para vingar por aqui.
 
Shopping
Clio esporte - A Renault desenvolveu um Kit Sport para o "novo" Clio, com spoiler frontal e saias laterais. Custa R$ 450.

Clio fino - Aerofólio, R$ 635; engate para reboque com chicote, R$ 663; pára-barros dianteiros ou traseiros, R$ 163 cada; disqueteira VDO com capacidade para seis CDs, R$ 999. Descobrir que esses são mais alguns acessórios à disposição do Clio... não tem preço.

Miniatura - A banca Real (av. Prof. Alfonso Bovero, 2, Sumaré, tel. 11 3871-0278) vende Mercedes-Benz, Mini Cooper e Peugeot que cabem na palma da mão, vão para a frente e para trás e fazem curvas controlados por um pequeno controle remoto. Ideal para quem não teve – ou está na – infância. Preço R$ 56.

Pneuzinho - A BFGoodrich, marca do grupo francês Michelin, está lançando o Crossengo (de cross and go), primeiro pneu para motos da marca, para ser usado tanto no fora-de-estrada quanto no asfalto. Custa R$ 150 (dianteiro) e R$ 170 (traseiro).

Colunas - Página principal - e-mail

Data de publicação: 15/7/03