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MITO JACINTO: Pequena Reflexão sobre amizade e juventude |
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MATÉRIAS ESPECIAIS |
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Por Academia Mental*
Questionamentos:
(1) O que é a amizade? (2) O que impede a união dos interesses? (3) Por que ficamos presos aos bons momentos do passado? (4) É necessário matarmos a juventude para atingirmos a maturidade? (5) A adolescência é o melhor período da vida? (6) A juventude é invejada?
"Jacinto era um desses jovens eleitos dos deuses. Diz a lenda que ele nasceu em Esparta, era filho de Clio, uma das musas, e de um mortal a quem ela se uniu. Da mãe, ou do pai, ou dos próprios deuses recebera o dom da beleza. Ocorreu, certo dia, que Apolo, enquanto conduzia sua carruagem na abóbada celeste cujo domínio era todo seu, viu o jovem. Jacinto, além de admiravelmente belo e pleno de encanto, era também musculoso e forte como um pinheiro esbelto do Monte Olimpo.
Quando Apolo falou com Jacinto achou que seu rosto não mentia o que seu coração trazia. O deus percebeu com alegria que tinha encontrado, enfim, o companheiro perfeito, o audaz e sempre jovial companheiro que, com ânimo sempre disposto, estava pronto a reunir-se a ele. Se Apolo desejasse caçar, com um grito festivo Jacinto chamava os cães. O grande deus queria pescar, Jacinto estava pronto para preparar as redes e lançar-se entusiasmado na nobre ocupação de pesca dos peixes. Se Apolo desejasse subir aos cumes ermos das montanhas, onde nem mesmo o bater de asas das águias quebrava a constante quietude, Jacinto estava pronto para acompanhá-lo. E quando no topo da montanha Apolo fitava em silêncio o espaço infinito, Jacinto partilhava com o amigo a mesma contemplação. Se Apolo punha-se a tocar a lira, o jovem deitava-se a seus pés e ouvia silencioso a música perfeita que o deus criava.
Todavia, não era apenas Apolo que desejava a amizade de Jacinto. Zéfiro, o Vento Oeste, que o conhecera antes que o deus atravessasse seu caminho, tinha ansiosamente desejado tê-lo como amigo. Mas quem podia se colocar contra Apolo? Contrariado, Zéfiro notou aquela amizade sempre perfeita e em seu coração despeitado o ódio cresceu e lhe sussurrava ânsias de vingança.
Jacinto se distinguia em todos os esportes e para Apolo, que amava todas as coisas belas, era uma completa alegria vê-lo se preparar para lançar o disco: os músculos tensos, o porte harmônico faziam-no assemelhar-se a Hermes, pronto para repelir o chão embaraçoso sob os pés. Ele podia lançar o disco mais longe até mesmo que o deus seu amigo, e o riso jubiloso que exprimia quando bem-sucedido fazia o deus sentir que homem algum nem os deuses podiam possuir tamanha doçura.
Veio o dia, predeterminado pelo Destino, em que os dois amigos jogavam juntos uma partida. Jacinto fez um primoroso arremesso. Apolo tomou posição e lançou o disco alto e longe. O jovem correu adiante ansioso para medir a distância, gritando excitado com o lançamento, verdadeiramente o lance primoroso de um deus. Foi então que Zéfiro obteve sua oportunidade. De sobre as árvores veio prontamente o murmúrio do Vento Oeste e golpeou o disco de Apolo que voou com ímpeto contra a fronte de Jacinto. Partiu os cachos de cabelos que lhe caíam sobre o rosto, atravessou a pele, as carnes e os ossos e o derrubou ao solo. Apolo correu, levantou-o nos braços, mas a cabeça do jovem tombou sem vida sobre os ombros do deus.
"Se eu pudesse morrer por ti, Jacinto!", clamou Apolo. "Despojei-te de tua juventude. O sofrimento é teu, o crime é meu. Cantarei para ti sempre, ó amigo perfeito! Tu viverás eternamente como uma flor que aos corações dos homens falará da primavera e da juventude eterna". Enquanto falava a seus pés brotava, das gotas de sangue, um cacho de flores azuis como o céu na primavera, embora pendessem as pétalas como se em estado de dor.
Ainda hoje, quando o inverno chega ao fim e o canto dos pássaros anuncia a primavera, encontramos nos bosques os sinais do juramento do deus-sol. Os lírios, como dríades esbeltas, ostentam uma vestimenta emplumada de folhagens suaves e sob as árvores as prímulas olham para cima, como estrelas caídas. Indo pelas trilhas pisamos sobre as folhas finas e perfumadas dos pinheiros e das faias do ano passado que ainda não perderam o seu âmbar radiante; na curva, o deus-sol penetra subitamente entre os galhos das árvores, e ante nós estende-se um canteiro de um raro azul, que parece viver e mover-se entre a luz e as sombras.
À medida que contemplamos, vemos o sol tocar as pequenas flores em forma de campânula do jacinto silvestre, o Vento Oeste passar sobre elas e movê-las docemente. Assim, Jacinto continua vivendo; assim, Apolo e Zéfiro ainda amam e choram o amigo.
Questionamentos e Reflexões:
1) O que é a amizade? É a união de interesses.
(2) O que impede a união dos interesses? O desejo de ter a posse, que significa dividir. 3) Por que ficamos presos aos bons momentos do passado? Por que não conseguimos viver o aqui e o agora, por ficarmos sempre na idéia de que o que passou foi o melhor, mas o que passou foi um presente que você ganhou para que você pudesse se desenvolver. O passado não dá para ser modificado então você se sente no controle, pois o passado tem começo, meio e fim, e no aqui e agora tudo pode se transformar. 4) É necessário matarmos a juventude para atingirmos a maturidade? Não. É necessário nos desapegarmos de recordações, pois elas já foram transformadas em recursos e capacidades. 5) A adolescência é o melhor período de uma vida? Não, é mais uma etapa. 6) A juventude é invejada? Só por quem teve medo de viver, e não se permitiu usufruir destes períodos. Comentários: Nesse mito fica claro que o sentimento de posse está relacionado com a divisão e não com a soma e a união. Quando queremos nos relacionar com o outro em busca da posse, não enxergamos o outro com vida própria e ele passa a ser um objeto de desejo. Com isso estamos fadados a ficar sem nada. Quando existe um verdadeiro relacionamento ele pode ser compartilhado com todos sem nos ameaçar. Assim, no mito, Jacinto se transforma numa possibilidade de acesso a todos.
*academiamental@yahoo.com.br
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