|
|
|
| Reflexões sobre a questão do ensino religioso |
| |
MATÉRIAS ESPECIAIS |
| |
|
Descoberto este "filão", que se mantém até hoje, ao ensino da língua, acrescentou-se o ensino religioso, de aspecto duvidoso, pois nem todos os mestres eram ligados aos ÒRÌSÀ. E os filhos, que aprendiam o sagrado com estes professores, logo partiram para o desafio, a princípio velado, e depois aberto, com seus sacerdotes, numa disputa de conhecimento que fazia com que velhos pais e mães cada vez mais se fechassem e se defendessem contra o conhecimento yorùbá moderno. E quanto mais os jovens cobravam e exigiam que seus recém descobertos ritos fossem aplicados, mais os pais e mães os isolavam, com argumentos sem solidez e sem lógica, indefesos que eram contra o desafio inusitado. Até então, o saber dos pais não era para ser discutido e questionado. Frente a esta nova geração de filhos atrevidos e desobedientes, buscavam velhos chavões como : "Serviu para meu pai e meu avô, serve para mim" "Cabeça que estuda e lê não serve para receber ÒRÌSÀ" "Já sei tudo o que necessito, não preciso aprender mais" "Trabalho assim há anos, não se mexe no que está dando certo"
E, negando-se sequer a ouvir os filhos, rompiam com eles vínculos de ASE que vinham de anos de iniciação, escudados no medo de "não saberem tudo", ou na possibilidade do "conhecimento moderno". E o outro lado da questão também tem que ser analisado: Poucos eram os nigerianos que realmente praticavam ÒRÌSÀ. Na sua maioria islâmicos ou cristãos protestantes, logo descobriram no jovem sacerdote brasileiro um filão inesgotável de ingenuidade e dinheiro fácil. Bastava ser "africano" para ser acreditado. Não importa que os nigerianos tivessem uma ligeira casca de conhecimento, adquirida por vezes às pressas em literatura nem sempre confiável, ou saber religioso extremamente superficial, trazido após breves períodos de férias na terra natal, gastas em pesquisas em bibliotecas ou com os mais velhos da família, juntamente com quilos de material para ser vendido aos incautos. Se era "africano", servia. Assim, inúmeros sacerdotes abandonavam as práticas afro-brasileiras pelos novos caminhos do ASE. Ou a elas acrescentavam muitas novidades recém aprendidas, teorias literárias que eles se incumbiriam de pôr em prática, com grande gasto financeiro e maior desgaste emocional frente a seus pares no ASE. Pelas sendas da desilusão, foram aos poucos percebendo que esta africanidade era ilusória, e seus olhos cada vez mais se puxavam para o solo da Nigéria, do Benin, de achar lá o que não tinham aqui. No seu íntimo, algo se agitava, uma necessidade, um anseio, uma angústia, como se o stress desencadeado pela premência do conhecimento, pela ilusão trazida pelos novos Yorùbás, fizesse vir à tona profundidades do seu imaginário, fantasias criadas por amor aos ÒRÌSÀ. E só bem mais tarde, ou talvez nunca, eles descobririam ter aberto as portas do Orun e trazido lá do fundo resquícios da memória ancestral, o emi, aquele sopro de Olodumare, o Deus criador, que acompanha cada ser humano em seu trajeto pelo mundo.
*ÌYÁLÒRISÁ Sandra Medeiros Epega ÌYÁLÒRISÁ do Ile Leuiwyato - Templo de Culto aos ÒRÌSÀ
|
|
|